sábado, 15 de dezembro de 2012

A LIBERDADE DO TRAÇO DE GILBERTO SALVADOR - 16 DE SETEMBRO DE 1985


JORNAL A TARDE, SALVADOR, SEGUNDA-FEIRA 16 DE SETEMBRO DE 1985

A LIBERDADE DO TRAÇO DE GILBERTO SALVADOR

Esta obra de Gilberto Salvador intitulada Tempo Rei, é uma das mais recentes pinturas do artista
Volta Gilberto Salvador a expor entre nós. É um dos mais vigorosos e atualizados artistas da nova geração paulista. As 22 pinturas feitas com tinta acrílica e verniz sobre telas demonstram seu vigor e sua capacidade de provocar inquietações no espectador. Sua arte é marcada pela presença de signos povoando espaços determinados por traços fortes. Sua arte nos leva a refletir sobre as tensões despertadas e sobre a própria identidade do brasileiro, através de elementos que a compõem. Uma explosão de energia, um poema escrito através de traços abstratos e manchas coloridas, entendidas de acordo com a sensibilidade e principalmente com o universo de informação que dispomos.
Gilberto Salvador
Quando miro o quadro Tempo Rei vejo um pássaro de asas abertas como que se batendo, e, por trás, pequenos quadrados parecem limitar a sua liberdade. Uma liberdade que tem de conquistar quase que à força, deixando para trás suas penas, idealizadas por Gilberto através de pequenas manchas de tinta. Esta sensação que me provoca este quadro pode não ser a mesma que o próprio Gilberto imaginou. Mas, tenho certeza que outras pessoas devem sentir sensações semelhantes, e é possível até que alguns sintam e reflitam sobre esta obra completamente diferente do que senti. O que importa é que é impossível a gente ficar insensível diante de um trabalho de Gilberto Salvador.
Quando olhamos Vento Verde Sul, onde os coqueiros aparecem vermelhos a balançar e com seus caules cortados por um grosso traço, nos reportamos aos ventos fortes que balançam os coqueiros do litoral brasileiro. As palhas vão largando pequenos pedaços, mas eles permanecem altaneiros e vigilantes acompanhando o vaivém das marés á espera da calmaria.É verdade que sua formação de arquiteto é presença na sua obra. O desenho flui em determinados momentos com o rigor dos compassos e esquadros. Mas, o gesto é mais forte, incontido e unido com as cores explode em emoções.
É um perfeito exercício de liberdade onde a mão comanda os pincéis a todos os pontos até o momento que Gilberto Salvador entende que a obra está concluída. Esta dicotomia entre os traços contidos por esquadros e réguas e o gestual dá equilíbrio estético à obra de Gilberto Salvador e nos permite decodificá-la com a liberdade de nossas emoções.Gilberto Salvador expõe a partir de quinta-feira suas pinturas no Escritório da Arte da Bahia.

     MISCIGENAÇÃO BAIANA NA OBRA DE REGINA HELENA

A postura altaneira de uma
bonita negra baiana
“O meu trabalho reflete observações do dia-a-dia. Vivo numa cidade onde a miscigenação nos leva às nossas origens e a figura do negro está sempre presente”. Esta é a explicação que a pintora Regina Helena dá ao seu novo trabalho que será apresentado na Cavalete Galeria de Arte, a partir de quinta-feira, às 21 horas. Nesses seus quadros, que estarão expostos até o dia 28, a artista mostrará o negro do seu trabalho diário nas plantações de cana-de-açúcar, ou fabricando objetos de cerâmica. Nos seus contatos com os favelados, ela trouxe para as telas os meninos pretos que freqüentemente visitam a sua casa e brincam com os seus filhos, na mais perfeita conivência racial.
“A figura do negro me conduz a uma retrospectiva das nossas origens, ao Brasil histórico, ao trabalho escravo, à sua cultura trazida para cá, misturando-se com a do índio e a do português”, acentua a artista.
Regina Helena está promovendo a sua segunda exposição individual, tendo participado de várias coletivas. Revelando que pinta desde criança, sem nunca ter se apegado a um tema, ela acredita que o seu grande mestre foi o pintor argentino Alfonso Lafite, que vive no anonimato. Nunca frequentou nenhuma escola de arte, apesar de ter tomado alguns cursos livres com o pintor Oscar Caetano. EM 1983, ganhou uma medalha de ouro no Salão Genaro de Carvalho, Regina Helena é formada em letras, mas não exerce esta profissão, já que absorve todo o seu tempo pintando e encara a pintura como um trabalho profissional. Esta é a sua primeira exposição em que destaca a figura do negro não deixando de estar sempre presa ao acadêmico, já que, segundo diz, ainda não se sentiu inclinada à arte moderna ou abstrato. O interessante de se notar nas telas dessa artista é a igualdade de enfoque em que são colocados o negro e o branco, ficando nítida a falta de qualquer descriminação. Nos seus outros inúmeros trabalhos, os temas foram os mais variados, desde natureza-morta, ao casario e muitos outros.
“Não gosto de me rotular em nenhum estilo. Deixo tudo fluir normalmente. Senti vontade de homenagear o negro que é o maior participante do nosso processo histórico e acho que ele contribui e contribui para o engrandecimento do nosso País”, conclui Regina Helena.

                      CINCINHO E O LÁPIS DE CERA

Cincinho, o mago do lápis cera, pintor primitivo que fixa com lirismo e cores doces paisagens da vida rural do Recôncavo, está expondo este mês, na Galeria de Arte Jean-Jacques, na Urca, Rio de Janeiro. O artista participou em 83, na mesma galeria, da coletiva “Seis Artistas Naifs”.
Inocêncio Alves dos Santos, quase octagenário, mas dono de vitalidade exemplar, vive em Cachoeira, concedendo-lhe o título de cidade cachoeirano. Cininho, pintor-decorador de profissão, trabalha exclusivamente com lápis cera sobre papel desde 1973 e expõe regularmente desde 1977.
O artista tem trabalhos no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro, Musée D’Art Naif de L’lle de France, em Paris, e no Museu de Arte Primitiva em Assis, São Paulo. Faz parte da coleção da gente famosa como o escritor Jorge Amado e já expôs trabalhos na Round Hill Community House, de Greenwich e no Brazilian Primitive Artists ,de New York, nos Estados Unidos.
No ano passado, atendendo convite do secretário de Cultura do MEC, Marcos Villaça, Cincinho expôs na Galeria de Arte Macunaíma, da Funarte, no Rio de Janeiro. Pessoa de extrema simpatia, Cicinho não possui atelier. Pinta em casa, na sala de jantar, onde recebe a todos que o procuram.
Inocêncio Alves dos Santos nasceu na primeira década deste século. Seus pais, Laurentino Alves dos Santos, dono de tenda de barbearia, e Maria Máxima da Silva, charuteira, moravam em Muritiba, num tempo que todos sobreviviam vinculados ás empresas manufatureiras do fumo. Inocêncio, até o segundo ao primário, aprendeu o ofício do pai, quando apurou a mão, dotando-a de firmeza e leveza.