domingo, 2 de dezembro de 2012

A ARTE DE JENNER É UM CONTÍNUO APRENDIZADO - 07 DE MAIO DE 1984


JORNAL A TARDE, SALVADOR , 07 DE MAIO DE 1984.

A ARTE DE JENNER É UM CONTÍNUO APRENDIZADO

Auto-retrato datado de 1948
Hoje é dia de reencontro. Sim, de reencontro porque volto a debruçar sobre a obra pictórica de Jenner Augusto. Volto a reler os livros, catálogos, reportagens e tudo que foi escrito no decorrer desses anos sobre a pessoa e obra de Jenner. E, a cada página que leio, sinto a presença da gente simples de Alagados, de Sergipe ou do Rio Vermelho povoando suas telas em vários momentos. Nos momentos de leveza ou nos instantes onde o artista horrorizado com a miséria e a guerra deixa de lado seus tons tênues para carregar nas cores. São emoções distintas que tocam de perto todos aqueles que examinam com mais cuidados a obra de Jenner.
“Pintor dos que mais sabem e mais aprendem”, como escreveu o poeta Vinícius de Moraes, posso acrescentar que sua obra é fruto de um trabalho constante, cuidadoso e meticuloso. Um trabalho buscado com muita garra e talento. Este sergipano, meio desconfiado, como de resto é a maioria dos sergipanos, sabe como ninguém do sofrimento da sua gente e mesmo enxergando a beleza das flores e das paisagens marinhas não esqueceu de registrar a sua desaprovação com a miséria de Alagados, a violência da guerra em uma forma mais extrema.
Coroinhas e Pássaros , obra de 1979

Sendo Jenner sergipano de nascimento, fico mais à vontade para escrever porque sou meio sergipano. Filho de uma sergipana de Riachão dos Dantas, uma cidadezinha escondida no interior deste estado-irmão, onde vivi quase toda minha infância, numa fazenda às margens do Rio Piauí..
A tela Itapuã, também de 1979, na visão de Jenner
Tenho uma estima muito grande pelos sergipanos, pois admiro a garra e a disposição para o trabalho que têm. Isto certamente é uma marca na personalidade de Jenner, e ele mesmo gravou isto num dos livros que editou: “A felicidade está antes na descoberta; na disposição para o  trabalho, na convivência com as coisas e os materiais”. É desta disposição para o trabalho que vem sendo construída através dos anos uma obra palmilhada de bons momentos. Um caminhar com os pés no chão, onde não existe lugar para a busca de imitações e modismos. Afastado destas afetações passageiras e prejudiciais, Jenner Augusto vai construindo o seu mundo pictórico, refletindo as nossas inquietações.
A sua interpretação inconfundível de Alagados

Esta reprodução  dá ideia do seu colorido




Quando Alagados se espraiava pela Península Itapajipana, com aqueles casebres fétidos flutuando por sobre a lama, nas marés vazantes, e por sobre a água do mar, nas altas marés, Jenner soube captar a sua essência, denunciando que por trás daquela poesia estava escondida uma miséria que precisava ser erradicada. Hoje, um projeto quase extirpou Alagados, mas a miséria parece ter pernas. Ainda nem terminou Alagados está surgindo, também, em grandes proporções,a Nova Alagados, que de nova não tem nada, pois é a mesma repetição da miséria. E a violência explode nas ruas, os países se entrechocam e o nosso Jenner deixa registrada a sua perplexidade, em suas telas, tão disputadas no mercado de arte nacional.

Soldado Morto, 1975.
O seu amigo Jorge Amado, num dos muitos artigos que já escreveu a seu respeito, reconhece nele a presença do Brasil.“Desse pintor há que dizer ter ele construído a matéria de sua bela e poderosa arte com o céu, o mar e a terra brasileiras e com a dor, e sofrimento e a esperança de seu povo. A paisagem quase mágica da Bahia, a vida se afirmando sobre a lama dos Alagados -  a cidade de palafita e de miséria onde os homens comprovam sua capacidade de sobreviver e de marchar adiante mesmo em meio às mais terríveis condições - , eis a força desse moço vindo dos poços da humildade para o esplendor de uma luz que é de nosso sol e é também do coração dilacerado do artista. Poucos artistas no Brasil com tão clara consciência de sua responsabilidade, de seu comprometimento e de sua dignidade criadora. Poucos com tão rica e pesada carga de vida e com tamanha força para transpô-la para o plano da arte e transformá-la em mensagem do mais puro humanismo”.

ESTA EXPOSIÇÃO

Agora volta Jenner Augusto a brindar a Bahia, que abraçou como pouso para sua existência, com uma exposição de 27 quadros, na Galeria Época, no Rio Vermelho, até o próximo dia 12 do corrente mês. São telas onde a presença da natureza dá-se em todo esplendor, através de paisagens e mesmo nas figuras humanas.Toda a exposição de Jenner Augusto está vendida. Os preços variam de CR$750 a CR$1,500,00.
Um traço característico de sua arte é que mesmo mostrando os horrores da miséria de Alagados do Nordeste, ele ainda consegue ser lírico sem ser simplório,contraste com o irreal. Vejo nele a permanência de um pintor, através desses anos, rico em criatividade, inesgotável nas formas de conceber. A sua obra é inconfundível.
Recentemente falei de Pancetti, das suas marinhas, de sua ligação com o mar.Também Jenner, morador do Rio Vermelho, onde o mar se escancara azul é um amante deste gigante que urra nas noites
Consegue traduzir através de suas pinceladas seguras aquele outro lado belo, em chuvosas e sussurra baixinho no entardecer, com suas pequeninas vagas beijando a areia. E Jenner, de ouvidos e olhos alertos acompanha este movimento. Ouve estes sons e examina suas cores, ora esverdeadas, ora mais azuladas, ora com um azul mais forte. É um penetrar de emoções que resulta em altos momentos de arte; os céus pintados por Jenner têm mais significado, são um canto de amor. Mais belo ainda é o encontro do céu com o mar nas extremidades de suas telas. Quando as olhamos na vertical, nos dão uma sensação de paz e harmonia.
Jenner é um homem em paz com a vida. Sua obra rica em sensualidade é resultado do seu papel de intérprete de paisagem e da gente baiana. Entendo que ninguém soube captar, tão bem,  a alma da gente baiana, como este sergipano..
“A tela é o espaço em branco: a cor, o universo”, esta frase de Jenner tem um significado muito profundo. A tela, este espaço branco a ser preenchido pelo talento do artista. Lembro-me agora dos momentos, dos segundos, vivenciados por todo artista diante deste espaço em branco, no desejo ardente de preenchê-lo com algo que reflita este desejo. A cor, como uma visão mais aberta do universo que será criado naquele instante. Sairá uma figura humana, um coroinha, um carneirinho ou uma paisagem marinha. Depende das formas que vão brotar do pincel de Jenner,depende do universo da cor que ele vai viajar.
“Não alimente monstros. E, sim, motivos plásticos!”, os monstros que alimentamos diariamente nos momentos de ira, nos momentos de fraquezas não têm lugar porque  um olho vidrado de cólera não vê a transparência das folhas verdes nem o azul do céu. Pinta embaçadas circunferências desumanas”.
Assim nosso Jenner sai ao encontro da cor e a encontra grandiosa na natureza exuberante e bela deste país tropical.
O artista gostava de pintar Coroinhas andando

UM POUCO DE SUA VIDA
Paisagem da Bahia, de Jenner Augusto

Para os mais jovens e variados leitores desta coluna, vou dar uma rápida pincelada sobre a vida de Jenner Augusto.Nasceu em 11 de novembro de 1924 em Aracaju, Sergipe , filho do funcionário Augusto Esteves da Silveira e Maria Catarina Mendes da Silveira. Residiu em Rosário, São Cristovão, Itabaianinha, Lagarto e Laranjeiras, todas cidades sergipanas. Acompanhando a mãe , professora pública, volta com seu irmão, o nosso professor Junot da Silveira, para Aracaju, em 1944. Realiza sua primeira exposição em 1945. Vende um quadro. Em 1947 já estava mais integrado aos movimentos artísticos da capital. Em 1948 faz sua segunda exposição onde desponta rompendo com o academicismo reinante. Vieram novas exposições. Em 1950 participa do Salão baiano de Artes, travando conhecimento com Mário Cravo Junior, Rubem Valentim e outros. Em 1951 já figura na Bienal de São Paulo. Casa-se com D. Maria Luiza Mendonça. Em 1953 obtém o Prêmio Universidade Federal da Bahia no V Salão Baiano de Belas Artes. Em 1955 passa a morar no Rio Vermelho e daí em diante veio uma série interminável de exposições do Sul do país. Obtém outros prêmios, e vários livros, artigos e reportagens são publicada sobre sua obra, que hoje continua sendo enriquecida pelo seu talento e amadurecimento plástico.