segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

GERAÇÃO 70 A CAMINHO - 24 DE JUNHO DE 1985.


JORNAL A TARDE, SALVADOR, 24 DE JUNHO DE 1985.

              GERAÇÃO 70  A CAMINHO


Depois de marchas e contra marchas, discussões e divergências, a Exposição Geração 70 está caminhando para sua concretização. Esta mostra vem causando um rebuliço maior do que imaginava, inclusive alguns transtornos. Compreensível até certo ponto, mas também não é preciso exagerar. Não vamos aqui contar em detalhes as dificuldades que tiveram e que ainda terão que ser vencidas, mas asseguro que não foram e não serão poucas.
Fico contente com a riqueza e a força das posições de algumas pessoas convidadas ou não para participarem desta primeira exposição da Geração 70. Evidente que aqui estarão representados apenas 10 nomes e que outros poderiam estar compondo esta constelação de bons artistas.
Esta exposição não é exclusivista e tampouco determinante. O que procurarei mostrar é que considero importante, que é a produção destes artistas que continuam batalhando por um lugar ao sol.
Não estamos preocupados em agradar este ou aquele segmento e nem tampouco queremos criar uma  nova panelinha. Já existem panelinhas demais em Salvador e este fechamento é prejudicial ao relacionamento entre os artistas e ao próprio desenvolvimento da arte.
A escolha dos nomes é de inteira responsabilidade deste colunista e por isto assumo todos os riscos. Quanto a ligação com a Fundação Cultural, confesso que publicamente que não morro de amores por alguns métodos da política cultural adotada em nosso Estado e que não me foi feita qualquer exigência. Já disse e repito que Heitor Reis tem demonstrado o maior interesse e despojamento. Quanto a afirmação de que o órgão estaria usando o colunista para arregimentar artistas que normalmente estariam numa postura crítica em relação a política cultural, digo que se assim pensarem perderam tempo. A consciência de cada um não pode ser abalada com tanta facilidade! A não ser que fossem consciências malformadas, o que não é o caso.
Também quero alertar àqueles que por acaso não integrem esta mostra que certamente haverá novas exposições enfocando momentos da arte baiana, organizadas por outras pessoas, quando terão também oportunidade de mostrar os seus talentos.
Sou apenas o curador desta mostra. Uma exposição que procurará mostrar o que estes artistas têm feito com os cinco trabalhos que cada um apresentará partir do dia 25 de julho no Museu de Arte da Bahia. Serão suficientes para o,julgamento público. Eles serão postos á apreciação pública desde o momento que o museu abrir suas portas. As críticas positivas ou negativas serão muitas, o que realmente vem corroborar que a Exposição Geração 70 mexeu um pouco com as pessoas.
Não esperam grandes inovações, emoções mirabolantes ou mesmo posturas vanguardistas de primeira hora. O que você vai ver é a boa arte, a arte feita com conteúdo e sentido profissional. Os trabalhos já foram fotografados e depois de muitas dificuldades consegui reunir todos os 10 artistas e Ivo Vellame para uma foto coletiva que deverá integrar o catálogo. Esta semana terei os cromos e o layout do catálogo para começar o trabalho na gráfica. Enquanto isto, os artistas estão trabalhando e cuidando das molduras.
O grupo que vai apresentar a performance também está trabalhando e já na próxima semana estarei em condições de dar definitivamente os nomes daqueles que vão participar da mostra, tanto os artistas plásticos como os dançarinos e músicos.
Espero que todos contribuam para o êxito desta exposição porque ele não será apenas meu, mas de todos os artistas e colaboradores.Como sou uma pessoa muito ocupada com meus afazeres profissionais na área do jornalismo, é preciso que receba apoio significativo daqueles que foram convidados.
Vamos dar as mãos para que esta Exposição Geração 70 seja um marco na história da arte baiana, um divisor de águas. Ela deverá refletir o resultado de uma produção sistemática de quase 15 anos, que nós vamos apresentar na sua forma mais transparente e translúcida para que vocês apreciem.

   MUROS DE SALVADOR JÁ MOSTRAM NOVO VISUAL



Os muros de Salvador ganham um novo colorido. Vários artistas que apoiam um prefeiturável estão realizando um trabalho digno de destaque. Com tintas e pincéis eles realizaram um verdadeiro mutirão, contribuindo para diminuir o péssimo visual que herdamos dos prefeitos que se sucederam nos últimos 20 anos. Uma cidade que, ultimamente, tem todo muito azar com seus dirigentes. A incapacidade é tamanha que não cuidam nem  de dar a esta cidade uma roupa nova, um novo visual para que o turista não saia tão decepcionado e, principalmente, os que aqui residem possam desfrutar melhor das suas belezas naturais. Quase sem ajuda de ninguém, um grupo de artista está trabalhando em pontos estratégicos da cidade colorindo os seus muros. Uma postura que realmente merece ser aplaudida, embora pessoalmente discorde do que realmente os mobilizou. Preferia que a mobilização tivesse nascido espontaneamente, como aconteceu com aquele painel do Rio Vermelho. Estes d’agora são integrantes de um trabalho em prol de uma candidatura. Política á parte, o que realmente nos interessa são os painéis bem coloridos fortes e significativos. Eles não pertencem a seus autores ou mesmo ao prefeiturável que os condicionou. Eles pertencem a todos nós, porque estão lá expostos nas ruas para que possamos desfrutar de cada traço, de cada composição e sentirmos a emoção que cada um dos artistas consegue passar.
Sei da boa vontade destes jovens artistas para com a cidade. Sei que a momentânea vinculação a uma candidatura, sem muitas chances, é fruto ainda do arrojo da juventude que os une. Como sei também que eles têm uma potencialidade a dar a esta cidade que os abriga.
Os painéis estão localizados na Rua da Paz, na Graça; na Pituba próximo ao Baitakão e na Liberdade. Foram pintados por Zivé Giudice, Murilo, Guache, Otávio Filho, Flori, Bel Borba e Chico Diabo, dentre outros.O projeto que eles intitularam de Salvar Salvador vem realmente calhar com a necessidade que ora vive esta cidade carente.
E esta demonstração destes artistas e de outros que possam surgir contribuirá para melhorar o visual de Salvador e por isto só deve ser incentivada e aplaudida.
Tenho lido muito sobre as manifestações espontâneas que estão acontecendo em todo o mundo, quando os artistas de vanguarda ou mesmo jovens artistas, ainda desconhecidos, colorem os muros de suas cidades. Além de contribuir para melhorar o visual, também realizam um trabalho educativo na medida em que a obra de arte bem diversificado. Basta dizer que pelas ruas passam pessoas dos mais variados níveis sociais e culturais. E as formas e composições muitas vezes vão até provocar reações muito interessantes porque alguns até não estão ou estão familiarizados com elas. E este jogo ao ar livre é muito importante, porque os que rejeitam ou reagem negativamente poderão ser no futuro também apreciadores de arte.