sábado, 1 de dezembro de 2012

A OBRA DE JUSSARA E SUA RELAÇÃO COM A NATUREZA - 25 DE JUNHO DE 1984

JORNAL A TARDE, SALVADOR ,25 DE JUNHO DE 1984.

A OBRA DE JUSSARA E SUA RELAÇÃO COM A NATUREZA


As manchas lembram a vegetação exuberante
Ela nasceu em Salvador e embora não tenha experimentado uma infância entre uma vegetação farta e uma fauna variada conservou a sua sensibilidade aguçada e voltou-se para a defesa da natureza. Foi esta natureza que ela transportou através de suas mãos hábeis para os tecidos elaborando composições significativas. A habilidade manual lhe projetou na consciência a necessidade de procurar uma escola onde pudesse aprender novas técnicas. Foi assim que estudou na Escola de Belas Artes. A princípio ficou encantada, como todo universitário calouro, mas quando passou a sentir a pressão curricular e a orientação muitas vezes ortodoxa de alguns professores resolveu abandonar os estudos. Assim a Jussara ficou recolhida por algum tempo na Ilha de Itaparica, mas não abandonou o artesanato. Foi aí que intensificou o seu trabalho desenvolvendo mais ainda sua capacidade de trabalhar com tecidos. Mas Jussara pensou um pouco mais e resolveu voltar. Voltou e abraçou os amigos, os professores, e começou a fazer alguns trabalhos. Eram pequeninos. Como foi seu próprio retorno, calmo e tranqüilo. Não houve comemorações e muito menos foguetório. Esses quadros minúsculos ela os mostrou a sua professora Maria Adair. Mostrou com certo receio porque já estava saturada de tanta ortodoxia e das frases “você deve fazer assim”; “Está no currículo”.
Embora meiga, sua rebeldia foi suficiente para não aceitar as imposições e continuou trabalhando. Muitas vezes rasgava o que produzia em busca de um resultado que melhor lhe satisfizesse.

A NATUREZA
A obra de Jussara é totalmente ligada a natureza.Naturalista por opção ela capta entre o concreto da cidade grande aqueles respingos de natureza que ainda existem. Tem uma capacidade incrível de percepção e de captar momentos e coisas que passam despercebidos pela grande maioria dos transeuntes nas avenidas de uma grande cidade. Tem por outro lado uma grande noção da importância da liberdade não apenas no momento da criação, mas como uma necessidade inerente à própria vida. E seu trabalho é isto, o discorrer sobre a natureza dentro de sua visão de vida e liberdade.
Um dos quadros que trouxe para que pudesse sentir melhor a sua arte noto a presença de manchas claras-escuras em contraposição que lembram as colchas e toalhas de mesa bordadas com tanta arte por milhares de artistas anônimas deste interior do Brasil. E esta relação existe na realidade, porque Jussara é também bordadeira. Dirão os mais ortodoxos, que estou falando de bordadeiras, de bordados! Lembro que existem verdadeiras obras de arte feitas em bordado e que mais recentemente o Museu de Arte de São Paulo (MASP) fez uma exposição de bordados feitos por garotas numa cidade do Piauí que foram muito apreciados, inclusive por críticos estrangeiros.
Mas vamos falar dos 19 trabalhos que Jussara estará apresentando ao público baiano na Mab Galeria de Arte, que fica na Rua Guanabara nº187, na Pituba a partir do próximo dia 17 de julho. Os guaches de Jussara nos dão momentos de alegria porque nos transportam para as florestas, os lagos e as sombras das árvores. Você pensa estar vivendo num local de muita vegetação em plena primavera com as flores, e as borboletas voando. Uma verdadeira poesia que esta artista consegue arrancar dentro desta cidade, que os prefeitos que estão se sucedendo e que teimam em acabar.
A imagem do concreto na cidade
Ela descobriu seu desenho através do bordado.Lembra com altivez que ao chegar à Escola de Belas Artes foi criticada. “Esta moça vem para cá pintar flor!”Esta agressão é uma presença constante quando a gente envereda pelas coisas simples e singelas. O homem moderno está tão acostumado com as agressões e manifestações mais radicais que uma flor pintada incomoda. Lembro agora que recentemente assistia um jornal numa estação de televisão quando a última reportagem apresentada era sobre um lagarto, que está fazendo sucesso no Japão. O lagarto tem uma carreira engraçada, parece que está bailando quando a gente coloca um fundo musical. Ao término da reportagem uma pessoa que assistia o jornal comentou: “Com tanta coisa mais importante, ficam apresentando um lagarto. Ora bolas!”. Ele saiu da sala e fiquei a pensar na sua reação. Por que aquele alegre lagarto o incomodara tanto? Ele que já acabara de assistir a matérias sobre a guerra do Irã e Iraque, a infração que atormenta todos os brasileiros, e várias outras ruins. Então me perguntei: será que este cidadão está tão acostumado com as coisas ruins que acontecem a ponto do lagarto incomodá-lo? Claro que esta pessoa teve uma reação semelhante ao do colega de Jussara, que ficou irritado por vê-la pintando uma flor!
O que importa é que a gente tem mais é que pintar flores, aves e outras coisas que existem por aí. O problema é a maneira de pintar, a técnica e a criação. A temática não morre jamais. O difícil é exatamente conseguir a marca de sua personalidade criadora. E Jussara que expõe em público pela primeira vez numa galeria conseguiu esta façanha. É claro que ela ainda te muito que amadurecer em termos de técnica e isto só vem com o passar dos anos. É um aprendizado no dia-a-dia, na intimidade com o pincel, com as tintas em frente a um suporte.
“Aqui em Salvador não vejo natureza!”. Porém ,ela consegue buscá-la em outras plagas e nos brinda com a natureza. Diz Jussara que o que vejo aqui são barracas onde as frutas estão sendo vendidas misturadas com cigarros. Se abro a geladeira encontro a melancia envolvida por um plástico, isto me preocupa, principalmente, quando certa vez, confundi uma árvore com um poste!
Conta a artista que se tratava de uma palmeira com seu caule na parte inferior envolvido por uma camada de cimento. Quando pensa nos animais que vê aqui são os bois que passam esquartejados nos caminhões frigoríficos e as galinhas mortas. Mas ela não esmorece e continuará pintando a natureza talvez até como uma forma de protesto, de respeito e também pra compensar esta destruição feita pelo homem, este destruidor e predador.
Seu nome soa bem semelhante ao de Jussara. Só que esta é uma palmeira da subfamília das ceroxilineas (Euterpe Edulis) que está disseminada em todo o litoral baiano e em São Paulo. Desta palmeira se tira o palmito doce, que é um alimento muito procurado nas mesas mais grã-finas. E a nossa Jussara é uma artista que através de sua arte defende a necessidade de conservar a natureza, e também a Jussara que derrubam para retirar um simples palmito!

           ESCULTURAS DO NIGERIANO  LAMIDI FAKEYE

Ayan,  Deus da Música
O escultor nigeriano Lamidi Fakeye herdou de seus antepassados os ensinamentos da arte escultórica. Cresceu vendo estes mesmos antepassados trabalhando com suas máscaras e totens. Uma arte que brota naturalmente com as forças das verdadeiras raízes africanas, depois transportadas para esta cidade baiana e negra e aqui sofreu as influências de outras culturas. Sua arte é importante do ponto de vista plástico e também para confrontarmos com o que se faz aqui.
Ele é um dos mais bem conceituados artistas da Nigéria, integra a tradição yorubá que considera o escultor como o principal representante de valores e crenças sociais. São os escultores que materializam os deuses através de sua criação. São eles que criam nas sociedades mais primitivas as figuras dos deuses que passam a ser adorados como se tivessem verdadeiramente aquelas imagens. Transportam os demais membros dessas sociedades do estado de fantasias para o de contemplação através as figuras escultóricas. As forças e as expressões se transformam através dos anos, dos séculos, como definitivas e verdadeiras.
Olhando as esculturas da Fakeye me transportei para a África, onde mergulhei nas tradições daquelas tribos que cultuam os seus deuses alheios aos efeitos nocivos das civilizações industrializadas.
Ayan, de outro ângulo
A reputação de Lamidi Fakeye começou a surgir com maior importância em seu país quando fez a porta da capela católica da Universidade de ibadan e cadeiras na antiga casa de chefes das tribos da região oeste. E em seguida seu trabalho foi incluído numa exposição importante cujo tema era a independência da Nigéria.
Durante a década de 60 Lamidi se dedicou a trabalhos particulares no seu estúdio em ibadan, resultando em quatro pilastras para a varanda do Instituto de Estudos Africanos da Universidade de ibadan e portas monumentais para o Hospital Universitário, o escritório do primeiro ministro, a velha região oeste e o Centro Cultural Americano, todos em Ibadan.
Seus trabalhos de menor porte foram adquiridos por colecionadores particulares e universidades americanas.Dedicando a arte e culturas tradicionais africanas Lamidi tem contato também com a arte contemporânea, inclusive recebeu uma bolsa de estudo do governo francês, para a Universidade de Besancon e para a Escola de Belas Artes, de Paris onde permaneceu dois anos e mais seis meses na Inglaterra como convidado do governo britânico, onde fez várias conferências e exposições em universidades. Mais recentemente, em 1982, ele ofereceu um “Workshop” de três semanas no Centro de Estudos Afro Orientais, em Salvador.
Lamidi é ainda professor do Departamento de Belas Artes da Universidade de Ifé onde, com seus alunos, filhos e colegas encontrou satisfação pessoal. Suas esculturas transmitem o poder, a fertilidade, o dinamismo e características naturalistas, bem ligadas a cultura africana.