sábado, 15 de dezembro de 2012

AS CRÔNICAS VISUAIS DE NEWTON MESQUITA -7 DE JANEIRO DE 1985.


JORNAL A TARDE, SALVADOR, DIA 7 DE JANEIRO DE 1985.

AS CRÔNICAS VISUAIS DE NEWTON MESQUITA

Ao abrir o catálogo deparei com estas palavras : “ Vão passando os anos e eu não te perdi... meu trabalho é te traduzir...” Exatamente ai está definida a preocupação maior de Newton Mesquita que estará expondo de 9 a 19 deste mês, na Galeria O Cavalete, oito pinturas e doze desenhos que traduzem a emoção maior deste artista que foge do cartão postal e consegue fixar como uma máquina fotográfica cenas de ruas dos homens e mulheres anônimas que povoam as ruas desta grande metrópole paulista. As cenas abordadas por Mesquita podem ser confundidas com cenas semelhantes as que observamos em Salvador, no Rio de Janeiro ou em outra grande cidade brasileira. É uma arte calcada na vida urbana moderna, que demonstra forçosamente a sua preocupação com o social. O pulsar de uma grande metrópole é o reflexo do próprio país e o trabalho de Mesquita é um retrato suave pelos traços e cores, que desaguam no limite inconfundível da poesia.

A ideia que me vem a cabeça quando observo seus trabalhos é que ele saiu às ruas de caderno em punho fazendo suas anotações nas praças, nas esquinas e em frente as vitrines das lojas. A temática urbana abordada nos lembra  os cronistas dos jornais diários que captam situações vividas por mensagens anônimas ou não. Me parece que seus personagens são os anônimos captados por acaso ou “sequestrados.”Através de um processo suave sem qualquer conotação de violência que esta palavra possa significar. Aqui o “sequestro” acontece em benefício da arte e com uma vantagem de fixar momentos e eternizar estes personagens. É um brotar de emoções que trazem em seu bojo a contemporaneidade dos dias de hoje com inflação galopante, esperança demasiada em mudanças , que certamente não acontecerão com a intensidade desejada... É como os personagens anônimos que olham através das vitrines os violões , desejando tocar... Mas , como neste País são muitos os espectadores, e poucos os espectadores, eles vão ouvindo... O homem da pasta, da bicicleta, o do pacote, o que sai da sapataria, enfim os personagens que povoam as suas telas nos levam a momentos de solidão. Anônimos e solitários, integram esta platéia que a tudo assiste trabalhando, mas sem força para opinar, para participar. Aliás, a sua participação, se assim podemos chamar, limita-se ao trabalho, a observar o mundo girar e os outros mandar.
São os silenciosos que enchem as ruas e passam apressados na sinaleira para tomar o metrô com destino a periferia onde estão as fábrica,s do outro lado da cidade. Acalentam no meio do caminho a ideia de adquirir um objeto qualquer , longe do seu alcance e disponibilidade financeira, mas que ficam sossegados quando conseguem “namorá-los” do outro lado da vitrine.Pensam em silêncio e a cada parada aumenta e acalenta o desejo de possuí-lo.
Diria que Newton Mesquita é um cronista visual. Enquanto Carlos Eduardo Novais, João Ubaldo Ribeiro, Fernando Sabino e muitos outros que fixam o cotidiano através de suas crônicas escritas, ele nos apresenta este cotidiano através de cores suaves e deixa que o espectador invente as frases escolhendo as palavras que mais traduzem as suas emoções. Portanto, cada espectador de acordo com o universo de palavras e linguagem próprias vai fazendo a sua crônica do cotidiano, o que , de certa forma dá mais participação.As situações não estão prontas como numa crônica qualquer, mas aqui ela tem uma integração maior através da decodificação dos sinais visuais que formam suas composições.
Depois do que escrevi é só visitar na Galeria O Cavalete, que fica na Avenida Presidente Vargas, 2338, ou seja na loja 7, do Salvador Praia Hotel.

AS TAPEÇARIAS DE ZORAVIA BETTIOL EXPOSTAS EM OSLO

A alegria de Zoravia Bettiol
Tenho recebido com certa regularidade informações sobre a obra de Zoravia Bettiol, que residindo fora do eixo Rio-São Paulo mantém acesa toda uma infra estrutura profissional  realizando exposições No exterior e em outros estados. Conheci Zoravia há alguns anos,quando visitei uma exposição de suas gravuras na Pousada do Carmo. Convidaram a artista para expor e não moveram uma palha sequer para promove-la. Ficou Zoravia, uma artista de renome internacional, entregue à própria sorte, a amizade de alguns baianos e a curiosidade do crítico, que já vinha desde aquela época acompanhando através de leitura a sua obra. Atitude de incapaz, que não sabe promover coisa alguma mas ocupa cargo e assume compromissos sem condições de cumpri-los. Recentemente, tivemos uma prova disto com um “passeio” à Bahia promovido pelo Museu de Arte Moderna da Bahia e outros bichos...
Porém, é de Zoravia que me interessa falar. Recentemente teve algumas tapeçarias expostas no Kunstindustriemuset , de Oslo, onde apresentou quatro séries; Metamorfose – são formas tecidas em sisal em estruturas metálicas, onde a artista combina dois ou três elementos têxteis apoiados no solo, faz várias combinações. Transparência Geométrica – formas tridimensionais tecidas , também em sisal, que se dependuram no teto. Transfigurações da Pedra nº 1 – são tapeçarias de parede nas quais ela uniu pedras ( ágatas, jaspes, ametistas, quartzos rosa, quartzo verde, dentre outras) ou conchas ao elemento tecido com fibra de algodão. Finalmente Transfiguração da Pedra nº 2 – Nesta série cada proposta têxtil é formada por três a cinco elementos complementadas por pedras. “E, explica Zoravia – a série Metamorfose , uma obra aberta na qual o espectador pode fazer um sem número de combinações no muro”.
Os noruegueses ficara satisfeitos com a sua exposição,. E possivelmente será apresentada em Bruxelas, Finlândia, Suécia, Holanda, Alemanha, França e Espanha.
O Kunstindustriemuset, de Oslo, adquiriu uma tapeçaria intitulada Romanza, da Série Metamorfose e o Museu de Arte Têxtil, de Heidelberg a peça Transfigurações da Ágata nº 41. Portanto, ao lado de seu esposo o escultor Vasco Prado, a nossa querida Zoravia Bettiol vai alçando vôos cada vez mais altos numa demonstração da qualidade do seu trabalho, aliada a uma dedicação à toda prova.