sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

JURACI DÓREA E CAPINAM LANÇAM LIVRO E POSTER - 23 DE SETEMBRO DE 1985


JORNAL A TARDE SALVADOR, 23 DE SETEMBRO DE 1985

 JURACI DÓREA E CAPINAM LANÇAM LIVRO E POSTER

A casa de Edwirges, com várias pessoas em frente à escultura
“Meu verso rasteiro/Singelo é sem graça/Não entra na praça/num rico salão/meu verso só entra/no campo e na roça/nas pobres paioça/da serra ao sertão”.Estes do poeta e cantador Patativa do Assaré sintetizam o projeto “Terra”, do artista feirense Juraci Dórea. Um trabalho que dificilmente entraria na casa de um novo-rico. Varas e pedaços de couro cru realmente não integram com freqüência obras de arte.
Mas a grandiosidade da obra de Juraci Dórea está exatamente em levar o fazer criativo para o seu próprio habitat utilizando-se de materiais do dia-a-dia do catingueiro.
Quando vi os primeiros trabalhos do projeto Terra através de fotografias. Lembrei-me imediatamente de uma velha barriguda onde meu avô mandava dependurar os couros de vacas e carneiros “espichados” para secar. Uma imagem comum neste Nordeste sofrido, onde a estufa é o próprio sol que castiga e resseca a sua terra.
Juraci fala do livro Terra do seu projeto, e da curiosidade dos homens do campo em saber o que ele estava fazendo e as hipóteses levantadas por aquelas pessoas.
Voltando um ano depois a cada de Edwirges, no interior de Monte Santo, Juraci encontrou sua escultura sem o couro, que dava forma e completava o trabalho desaparecera totalmente. Hoje, confessa orgulhoso “deve estar por ali mesmo, em forma de arreios alpercatas, gibões ou correias”.
A escultura ganhou nova forma com a participação da própria comunidade. Aí podemos enaltecer a participação involuntária ou voluntária dos membros da comunidade e também questionar o aspecto que a obra de arte é um objeto sagrado, intocável. No projeto “Terra”, a obra de arte continua sendo retrabalhada diante do estímulo de Juraci Dórea. A inquietação provocada no início transformou-se dentro da própria realidade nordestina em atitudes que desaguaram em novas formas, mesmo que não intencionalmente.
É verdade que existe um distanciamento entre o artista que entrega a uma galeria de arte o seu trabalho pronto e intocável e Juraci Dórea, que realiza um trabalho com materiais que podem ser utilizados pela comunidade até para outros fins. Com isto, podem alguns questionarem a temporalidade da obra, sujeita à ação não apenas do próprio tempo, das chuvas e do sol, mas principalmente à ação do homem nordestino, sofrido, que lança mão de um couro, que formava uma escultura estranha ao seu entendimento, mas certamente este material é de suma importância para sua sobrevivência. Esta integração entre a obra de arte e o homem rural pode servir a noivos referenciais, inclusive a postura da lavradora Edwirges, de quase sentir sua responsabilidade em zelar pela obra.
O trabalho de Juraci começou em Feira de Santana, estendeu-se a Euclides da Cunha, Tucano, Monte Santo, Uauá, Bendegó, Canudos, Santa Brígida, dentre outros.Portanto, uma região árida, que sofre periodicamente os efeitos terríveis da seca. Uma região que conheço de perto, porque sou de Ribeira do Pombal, também integrante desta região.
Várias situações foram vividas por Juraci Dórea, agora reproduzidas em livro. O poeta José Carlos Capinam, amigo do artista, e que diz “há limitações culturais presumidas, mas cada resposta devolve a este preconceito a perspectiva de que o homem defronta-se eternamente com ele mesmo em qualquer circunstância, misteriosa ou existencialmente explícita. Os homens se apropriam da natureza, a natureza se apropria da cultura: as esculturas de couro não ficaram impunemente expostas nas salas da caatinga, mãos e olhos humanos cortaram-nas, serviram-se delas, assim como a chuva rara e sol pertinaz, os corais, taiaocas ferozes, aves de pouso e rapina e todos os mitos que espantam as noites e cavalgam as manhãs”.
É bom também a gente lembrar que esta apropriação de que fala o poeta Capinam difere-se daquela constantemente verificada na grande cidade. A apropriação na caatinga é quase uma coisa espontânea, natural, porque o sertanejo está acostumado a utilizar aqueles materiais para fazer seus apetrechos que lhes garantem sobreviver. A apropriação aqui dar-se com a pureza de alguém que não entende aquelas formas e participa do trabalho da arte inconscientemente, de acordo com a própria limitação cultural a que está sujeito aquele homem. No momento em que Juraci Dórea se propôs a fazer uma arte sem referência urbana, o próprio objeto está sujeito ao habitat e às referências rurais de que falo. São referências enraizadas a séculos e a grande resposta é exatamente esta participação inconsciente, se confundindo com o próprio ato de viver do homem do sertão. O lançamento do livro de Juraci e do pôster de Capinam será às 18 horas no próximo dia 27, dia de muito caruru em homenagem, na Praça Maria Sampaio, na Idea Design, que fica na Travessa Juracy Magalhães, 7, em Amaralina. A programação visual é de Washington Falcão.

  YÊDAMARIA EXPÕE O SEU LADO MULHER NA ÉPOCA

Yêdamaria expõe a partir de quinta-feira os seus mais recentes trabalhos. É uma das artistas mais sérias que tem esta terra. Uma mulher de fibra, que não faz concessões, que trabalha com muita disposição e com a mesma dedicação a exemplo do homem que lavra sua terra e fica contente, excitado à espera dos frutos.
Cada cor que surge ou cada traço que engrandece o seu trabalho é suficiente para levar esta artista a estado de graça.
A mesa está posta. Um convite ao banquete
Nesta sua exposição Yêdamaria nos brinda com o interior dos lares. Ela deixa transparecer nesta mostra o seu lado feminino, pois estão representados elementos que integram o lar como as mesas postas, as fruteiras e as cestas de pães. É o lado mulher desta artista batalhadora que é uma legenda na arte baiana.
Lembro-me que certa vez ela contou as dificuldades que vem enfrentando dia a dia para levar avante do seu trabalho, a sua viagem aos Estados unidos, onde permaneceu por nove meses em Illinois estudando e apurando sua técnica.
Ela representa 21 pinturas a olé sobre tela e ainda levará algumas gravuras. Além da beleza plástica, além da qualidade dos seus trabalhos,Yêdamaria nos transporta a outras reflexões na medida em que nos coloca diante de mesas bonitas e fartas. Quantos neste instante estão sentados em mesas semelhantes a estas, tão bem representadas pela artista? E, quantos estão amargando nos becos ou debaixo dos viadutos a ausência de qualquer alimento para matar a fome. Mas, a vida não é só de tristezas, e é preciso ver também este lado belo esta fartura que nos leva a refletir. O pão, que é o elemento básico e inclusive serve de sinônimo para a gente falar sobre o próprio alimento de modo geral, aparece com suas formas sinuosas em amarelo suave. As flores que enfeitam as mesas cobertas por belas toalhas. Um convite ao banquete, portanto, mas que a artista tem consciência que poucos neste País têm condições de banquetear-se
Bacharela em pintura pela Escola de Belas Artes, com várias individuais. Iniciou em 1960 na Biblioteca Pública, que ficava na Praça Municipal e a segunda, e talvez uma das mais importantes em sua carreira foi organizada pela professora Lina Bardi, no Museu de Arte Moderna da Bahia.
Foram expostos 40 trabalhos entre gravuras e guaches onde enfocava os barcos que singram as águas do mar azul da Bahia.
A apresentação do catálogo é feita pela poetisa Myrian Fraga que diz: “Nesta exposição mais uma vez se afirmam as virtudes que fizeram de Yêdamaria um nome dos mais respeitados nas artes plásticas da Bahia. Sua pintura desta vez está mais luminosa, mais clara, de uma alegria só encontrável nos pequenos prazeres do cotidiano; no amor sem tragédia, nas dores sofridas sem desesperança, na vida vivida e provada sem o travo da amargura. Uma alegria madura de mulher plena como Yêdamaria se sente afinal vendo que a lavoura que semeou começa a dar frutos e que ela está aí, corajosa e realizada, colhendo os resultados.