quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

EUNICE OLIVEIRA ESTÁ RETRATANDO AS CAPELAS - 23 DE SETEMBRO DE 1985.


JORNAL A TARDE, SALVADOR, 23 DE SETEMBRO DE 1985.

   EUNICE OLIVEIRA ESTÁ RETRATANDO AS CAPELAS

Estava viajando quando foi realizada a exposição da artista Eunice Oliveira, no foyer do Teatro Castro Alves. Ela reuniu dezenas de trabalhos enfocando principalmente a religiosidade dos baianos através dos conventos, das igrejas, capelas e principalmente das imagens de santos que tão bem ele cultua. Na paisagem da velha Bahia sempre desponta uma torre encimada por uma cruz e assim Eunice vai construindo o seu mundo pictórico, com sua alegria de viver ímpar. E irradia felicidade e disposição em realizar, em criar.
Um trabalho da artista Eunice Oliveira
Vibra com as cores, com os traços que vão marcando o branco da tela. Cada passo é dado co muito cuidado, com a certeza de que vai chegar lá.
Ela tem uma coleção de pequenas capelas que é primorosa.
Toda aquela ambientação das capelinhas, muitas vezes esquecidas no pé de um morro, na curva de uma rua antiga. Estas capelinhas surgem com muito amor, com a dedicação dos fiéis que vão juntando os tostões através dos anos até construí-las. Viveram os tempos áureos com seus bancos repletos de gente rezando. Os tempos mudaram, os fiéis sumiram e elas quase sempre vivem hoje fechadas só abrindo em dias especiais. Toda esta mística que envolve as capelinhas parece que foi captada por Eunice Oliveira, que continua pesquisando e descobrindo novas capelas pelo interior do estado e nas ilhas do Recôncavo.
Eunice Oliveira
Quanto às imagens que transporta para suas telas, tem todo um cuidado de reproduzir  aquelas dourações das vestes e das coroas. Diria que Eunice Oliveira, aluna do mestre Rescála, de quem realmente sofre grande influência, terá no futuro que distanciar da marca registrada do mestre na procura de sua própria personalidade pictórica. Isto não é demérito para ninguém. Sofrer influência de Rescála é um elogio, pelas qualidades da sua arte e da sua própria pessoa. Mas, é certo que todos artistas sofrem influências e no decorrer do tempo acontece o seu próprio caminho.
Eunice Oliveira é uma das boas coisas que está acontecendo em termos de produção na arte baiana e acredito mesmo que ela tem seu lugar garantido entre os artistas de qualidade. É preciso trabalhar muito e ela está disposta a isto, e tem talento.


HANS PETER NA PRIMEIRA INDIVIDUAL DE SUA ARTE

Descendente de alemão, há cinco anos lidando profissionalmente com arte, Hans Peter faz sua primeira exposição individual na Galeria do Hotel Merídien, de 27 de dezembro a 07 de janeiro. Ele começou fazendo teatro, pintando painéis e quadros sem definição própria até que descobriu sua inclinação pela pintura, resolvendo se dedicar inteiramente.
A vivacidade das figuras do artista Hans Peter
Nesta mostra serão apresentados cerca de 20 trabalhos onde o artista faz um balanço de todo o caminho percorrido desde o passos iniciais até hoje, onde procura seu próprio estilo.
Ainda é difícil se conjugar arte com educação popular aqui na Bahia, segundo Hans Peter, porque o mercado é fechado. Os órgãos públicos não dão ainda o respaldo necessário para que o artista erudito também passe a ser popularizado e o mesmo acontece inversamente, ou seja, para conseguir mercado os artistas, notadamente iniciantes, têm que lutar sozinhos. A empresa privada começa a entrar no mercado, mas só agora, e assim mesmo nos chamamos grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro.
Hans Peter define seus quadros e painéis como um sopro aerográfico que transporta o apreciador ao mundo da ficção científica, semelhante aos filmes de Hollywood ou ao ambiente retratado na literatura de Issac Asimov ou mesmo Ray Bradbury. Este espaço imaginado pelo artista é construído por tinta  atomizada espargida em uma superfície desejada, onde passam habitar figuras, antes comuns ao cotidiano das revistas e jornais, agora recriadas em outra dimensão de espaço, tempo e forma. Segundo o critico de arte Umbelino Brasil, a viagem proporcionada a quem olha os painéis de universo aerográfico é de múltipla dimensão e atiça a sensibilidade do observador em diversos sentidos: Na dualidade das figuras projetadas, no erotismo que fica espelhado em nossa retina e na sensualidade dos objetos impregnados de uma plástica impressionante.

               AS CERÂMICAS DE CÉLIA PRATA

Através dos séculos o homem sempre utilizou o barro para guardar e depois cozinhar seus alimentos. Faz adornos para se embelezar e imagens para adorar.Entre o adorno e a adoração transpassam sentimentos outros que se encontram e se conflitam. A morte também está presente nesta relação porque os mortos eram enterrados em grandes urnas de barro. Portanto, é uma relação muito forte e eterna. Desta forma, a cerâmica sempre é bem vista, bem recebida, principalmente quando é feita com criatividade. É o caso das peças que a professora e ceramista Célia Prata está expondo no salão de festas do edifício Quinta do Candeal onde reside. Célia é uma doublé de educadora e artista plástica e uma entusiasta dos movimentos artísticos estudantis. Sempre está inventando maneiras dos jovens se manifestarem. É quase uma necessidade intrínseca a esta artista que vibra com a sensibilidade da juventude. Suas formas são sensuais e inéditas. Uma das peças é um grande carneiro com belos chifres enrolados e com um corpo sinuoso e sensual. Noutra é uma figura de baiana que parece estar chamando o espectador para dançar, outra é uma máscara com cara de mulher. Enfim, uma variedade que enche dos olhos e transborda talento.

          LIANE KATSUKI DARÁ CURSO DE VITRAIS

A escultora Liane Katsuki está de novo na terra, depois de alguns meses na Europa, especialmente na Holanda.
Lá ela realizou um trabalho com uma performance Intitulada “Nós, Os Nós”, com texto e participação de 13 dançarinos, jóias, ambiente e escultura. Além de quatro exposições na Holanda, duas na Alemanha e duas na Bélgica. Mas, foi a performance que fechou com chave de ouro sua permanência na Holanda, no teatro de Emmen.
“Desde o nascer estamos envoltos em nós./Do início, nós no útero da grande mãe-natureza/ Pelos mesmos nós no cordão umbilical materno/ Nós passamos dos intrincados nós do existir./ No mundo postos, feitos estão os nós./ No emaranhado dos nós impostos de cada dia/ Nós tracemos o caminho./ Atando ou desatando os nós, como a nós melhor convir/ Não é conformismo, não é fatalidade, não é prisão./ Não será liberdade, se nós não soubermos tornar os nós em nossas mãos”...Agora, é soltar a imaginação e deixar que o eu vire nós e que juntos cultuemos a beleza que existe na criação e na pessoa humana. Antes o nós.