quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

ALDEMIR MARTINS VOLTA À BAHIA 8 ANOS DEPOIS - 02 DE DEZEMBRO DE 1985


JORNAL A TARDE, SALVADOR, 02 DE DEZEMBRO DE 1985.

ALDEMIR MARTINS VOLTA À BAHIA OITO ANOS DEPOIS

Aldemir  e Nelson Pereira,encontro de amigos
Este nordestino  do Vale do Cariri foi criado com o intuito de seguir a carreira militar. Aos 11 anos foi enviado para o Colégio Militar de Fortaleza, mas só permaneceu cinco anos. Serviu ao Exército e terminou sendo nomeado “cabo-pintor”, mas uma vez a carreira militar surgia em seu horizonte. Porém, a pintura era o seu forte. Viveu no Rio de Janeiro de 45 a 46, indo fixar residência definitivamente na capital paulista,onde vive até hoje. Esta rápida pincelada sobre sua vida dá para se ter uma ideia vaga da batalha que vem enfrentando para sobreviver, e finalmente, ser reconhecido como o grande artista que é.
Agora ele retorna para expor aqui, oito anos depois, trazendo debaixo do braço suas figuras inesquecíveis e inconfundíveis: o cangaceiro, o galo, o gato e para amenizar a vida, mulheres bonitas nuas. “Trouxe um apanhado daquilo que faço no cotidiano”, disse-me ao lado do também talentoso Nelson Pereira, que neste momento está envolvido com as filmagens de Jubaibá, baseado no romance de Jorge Amado.
Aldemir Martins falando sobre exposições revelou que não tem mais saco para organizá-las.“Tudo é chato. As pessoas que tenho que receber, a roupa que tenho que vestir, o dono da galeria.Uns estão preocupados em beber, outros em ser fotografados ao lado do artista, e alguns não olham nem os quadros na parede. O vernissage é uma coisa que me deixa entediado. Mas com relação a esta exposição tem uma vantagem porque revi meus amigos, estes pintores baianos que tanto engrandecem o nome desta terra”.
O gato verde com seu porte à espera de uma presa.
E, passou a citar vários artistas que prefere não revelar nomes para não cometer alguma injustiça, deixando um ou outro de fora.
Falando do mercado de arte Aldemir disse que nos últimos anos vem melhorando substancialmente. Falou das dificuldades de alguns exemplificando. “O mercado está bom para quem tem um Mercedes-Benz para vender e ruim para quem tem um Volks velho”. Ele se refere aos artistas consagrados que têm mercado garantido e aos iniciantes ou mesmo artistas de menor expressão ou qualificação que sempre estão reclamando do mercado porque não conseguem vender sua produção.
Continua argumentando dizendo que “o dono de um Mercedes sempre tem condições de comprar outro, e o do Volks velho mal consegue mantê-lo.”Adianta Aldemir Martins, hoje com 63 anos de idade e 41 de arte que é preciso que o artista além de saber trabalhar tenha conhecimento do metier. Ninguém consegue ser gênio na pintura aos 14 anos, no entanto consegue ser na música. Veja você que são sete notas musicais, e, também, são sete cores primárias. “Mas, a gente geralmente só consegue algum reconhecimento nas artes plásticas depois de alguns anos de muita luta”.
Além de bom papo Aldemir Martins já demonstrou que também é bom de política. Foi presidente da Associação dos Artistas plásticos do estado de São Paulo e confessa que conseguiu apaziguar as correntes “muito divergentes” naquele estado. Porém, resolveu sair depois de reeleito para que novas lideranças dessem continuidade ao seu trabalho á frente da entidade.
Disse Aldemir que a discórdia entre a classe é tão grande que alguns ficam até zangados porque você conseguiu uma tinta de melhor qualidade, um azul mais bonito. Enfim, qualquer coisa serve de pretexto. E, nesta disputa, a gente tem que mostrar competência e vencer, evidente, preservando a sua dignidade e os direitos dos outros.”
Confessa ser amigos dos jovens artistas e também dos velhos. Além da artista, Aldemir foi durante anos repórter e mantinha uma coluna sobre pugilismo. Chegou até a ser um dos diretores da Associação Paulista de Pugilismo.
Quando indagado se não era um contraste que um artista sensível gostasse de boxe, um esporte tido como violento, ele respondeu:   o boxe não é violento. O esporte é violento para quem não sabe lutar.Tem pugilista que é campeão e nunca foi nocauteado. Outros não são bons boxeadores e levam pancada.
“Mas, imediatamente, ele retoma o seu tema preferido e a razão da sua existência que é a arte. Fala dos tempos em que freqüentava as redações onde foi ilustrador do jornal Estado de São Paulo, de A Noite, dentre outras, e da gratificação que sentiu ao ilustrar a novela Gabriela, que considera a mais bonita e grandiosa de todas as mostradas pela televisão brasileira. Ele está expondo na Escritório de Arte da Bahia.

CARLOS BASTOS FESTEJA 60 ANOS COM EXPOSIÇÃO

O olhar vivo de um jovem sessentão que
conhece o seu ofício.
Os cabelos estão brancos e o riso nos lábios. O peso dos 60 anos não lhe preocupa porque tem uma mente jovial somada a uma docilidade a toda prova. As mãos estão mais experientes, mais firmes, e a sensibilidade mais aguçada. É este um retrato do artista Carlos Bastos que festeja esta marca importante da sua existência com uma exposição de seus últimos trabalhos na Galeria O Cavalete.
Carlos continua jovem e irreverente, sempre atual e em contato com os jovens. É um dos poucos artistas baianos no seu patamar que ouve os jovens artistas que é capaz de conversar sobre o trabalho e dar alguma dica. Disposição também não lhes falta e poucos dias antes da exposição estava trabalhando como uma desesperado para concluir alguns quadros dos que estão agora expostos.
“...A exposição de Carlos Bastos possui uma significação especial para nós, baianos. É que, praticamente sem precedentes locais, aparece em nosso meio um artista com a visão da arte moderna, e criador no sentido rigoroso da palavra; produzindo com o desembaraço de um verdadeiro artista”. Estas palavras de José Valladares, escritas há alguns anos, servem para a gente sentir como Carlos Bastos vem no decorrer da sua trajetória pictórica procurando inovar.
Numa entrevista recente ele disse que nunca teve intenção de romper, e que seu processo de criação é inconsciente e o que gosta mesmo é de pintar. Ninguém duvida que Carlos Bastos gosta de pintar. Basta a gente acompanhar a sua produção para constatar que realmente ele gosta de pintar.
Porém, quando passamos a estudar ou olhar melhor a sua obra não concordamos que ele apenas goste de pintar. Isto é modéstia de Carlos, porque o verdadeiro artista por si é um inovador, um criador que rompe fronteira. O processo criativo desabrocha dentro de um universo de informações que borbulha, que explode e sempre é inovador.
As flores do jardim imaginário de
Carlos Bastos
Lembro de sua exposição realizada na antiga Biblioteca Pública, que ficava onde hoje está o terrível Cemitério de Sucupira, quando seus quadros ousados para a época foram furados e rasgados. Lembro de sua presença no Anjo Azul que era um local de encontro de intelectuais, e lá Carlos Bastos fez dois murais de excelente qualidade, que também foram muito discutidos por todos aqueles que tiveram a felicidade de conhecê-los, porque este artista é a maior vítima na Bahia de obras destruídas. Vários murais de Carlos Bastos desapareceram devido a insensibilidade, e porque não dizer, à brutalidade de algumas pessoas.
A figura humana ganha um clima especial na obra de Carlos Bastos. Ele brinca com as freiras, com as negras e com jovens colocando-os num clima quase surreal onde as formas e as cores trazem a sua marca inconfundível. Tão presente que tem sido irritado por muitos jovens artistas que ainda não acertaram o passo ou não conseguiram uma personalidade pictórica e ficam presos ás influências de Carlos Bastos. Nesta sua exposição fomos mais uma vez  brindados com o seu talento, comprovado, inclusive, que nenhuma temática é por demais gasta. O que importa é a forma de abordá-la. Vejamos a flores que o artista está expondo como são belas, agradáveis e principalmente como diferem do tradicional. A simplicidade das formas e a composição de suas flores é um dos momentos fortes de sua arte. Estou, portanto, gratificado com esta exposição de Carlos Bastos que é uma prova da sua vitalidade, e que, os 60 anos sejam bem vividos, como ele sempre viveu, e que esses 22 quadros se multipliquem em centenas de outros.