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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

EXPOSIÇÕES REVELAM TRÊS MUNDOS DIFERENCIADOS - 20 DE MAIO DE 1985


JORNAL A TARDE SALVADOR, 20 DE MAIO DE 1985

EXPOSIÇÕES REVELAM TRÊS MUNDOS DIFERENCIADOS

Uma semana movimentada para aqueles que gostam das artes plásticas.Três exposições significativas: de Justino Marinho, na galeria O Cavalete; a de Sante Scaldaferri que está aberta no Museu de Arte da Bahia, e finalmente, a de Nilza Barude, na Galeria Época. Três exposições com abordagens e técnicas completamente diferentes. Três artistas que devem ser vistos cada um em seu universo de informação e criatividade.Aproveitando esta oportunidade vamos falar um pouco sobre cada artista.

JUSTINO MARINHO
O trabalho de Justino é suave e se propõe a ser belo. São figuras que lembram as baronesas ou as duquesas que cultuavam o despercebido e a insensatez. Bem vestidas e de leques nas mãos elas vagavam por ricos salões falando coisas frívolas. Alguns espectadores vêem os trabalhos de Justino com alguma ligação com a art noveau. Eu sinceramente não vejo muito esta relação mas sinto um certo saudosismo do autor, uma espécie de olhadela para o passado.Seus atuais trabalhos são maiores que aqueles apresentados em 1982, na individual que fez na Aliança Francesa.
Justino Marinho e suas damas
Mas continua na mesma linha de valorizar o desenho, e noto que as texturas permitem a gente sentir uma sensação gostosa, quando passamos levemente as mãos e notamos que elas saltam do papel. As cores funcionam bem, sem começo e fim. Estão tão integradas que nem verdadeiro processo de osmose elas se combinam e resultam em composições significativas. As figuras surgem de corpo inteiro e aos grupos dando a impressão que estão dialogando sobre coisas fúteis, tão comuns nos salões de festa.
Traz como novidade nesta mostra a utilização do nanquim em alguns desenhos, em contraponto com as figuras mais coloridas e ricas em texturas. Como que separando os volumes, que em algumas figuras parecem indefinidos.
Justino em 1976 e 1978 apresentava trabalhos com visível conotação político-social, mas agora ele trilha outro caminho buscando expor sentimentos mais singelos. “Eu não tenho um projeto literário em cima do meu trabalho.
Tenho é claro um direcionamento, uma coerência, uma preocupação muito clara com a plasticidade. Embora não tenha agora esta preocupação acredito que seu trabalho permite uma leitura. O político-social deu lugar a um trabalho onde aponta um pouco de saudosismo. Saudades das baronesas de vestidos complicados.
Mas, se dermos uma olhada para o interior dos salões de hoje, elas estão aí dizendo bobagens aos ventos e quase sempre expostas com todo o exotismo vazio no colunismo social.
Justino diz que não tem preconceito com o belo. E claro, é obvio que ninguém gosta de feio!
O belo é exaltado por todos nós e a gente só gosta do feio quando não tem outro jeito. O belo é buscado por todos, e o artista plástico preocupa-se com isto mesmo aqueles que criam figuras chocantes. Nelas eles buscam demonstrar a sua própria beleza interior, que pode ser feiura para outros.
Dizem que o trabalho de Justino além de lembrar a art noveau, tem influência da arte egípcia. Enfim, procuram fazer uma série de paralelos. Acho que realmente se a gente olhar as figuras de agora, com seus turbantes impregnados de detalhes, elas parecem com as rainhas e princesas egípcias ou chinesas. Ele próprio declarou a mim que existem estas influências. “a influência bem digerida é até benéfica. O artista que abre a boca e diz que não recebe influências está mentindo”. Sentencia Justino Marinho, que aliás é um indivíduo muito crítico e combativo.
Tenho certeza que o seu desenho, que hoje está mais próximo da pintura, é um elemento catalizador desta sua visão crítica combativa. Tem plena consciência disto e vai mais além, defendendo com unhas e dentes a arte feita sobre o papel. Ele tem participado de algumas exposições com trabalhos feitos em papel e como integrante do grupo que chamei de “Geração 70”, portanto bem antes da “Geração 80”, que explodiu no Sul do País, tem discutido a arte. Só que esta discussão e este encontro desta “Geração 70”, deveria ser uma coisa mais forte, mais permanente. Mas as individualidades não têm permitido um entrosamento maior entre eles o que seria muito benéfico. Justino mostra 22 desenhos na galeria O Cavalete a partir do dia 23 de maio.

SANTE SCALDAFERRI

O Sante é o mais experiente de todos. Ele agora gravita por entre as fraquezas do caráter humano e as vulgaridades. Um crítico mordaz dos sistemas, estabelecidos e esta mostra que representa seis anos de trabalho incessante nos apresenta um Sante cada vez melhor, mais solto e mais consciente do seu papel diante da sociedade. Uma postura firme e que não faz concessões em busca do elogio fácil. Espantam-se os desavisados diante de suas figuras disformes, gordas e asquerosas. Mas elas representam aquele lado ruim que existe em todos nós. É como um alerta para deixarmos de lado este lado ruim e passarmos a cultuar aquilo que a gente tem de bom, independente de ser ou não religioso. E o compromisso com o homem.
É o compromisso que respiram igual a gente e que precisam de oportunidades, e que ás vezes, estão sufocadas ou jogadas de lado por ações injustas de nossa parte.
A sua técnica é antiga e apurada. É a eucáustica e foi com o velho mestre José Rescála que ele tomou intimidade com ela e escolheu como a melhor forma de elaborar suas composições.
Que Saudade,Meu Amor..., obra de Sante
Confirmando Sante afirma: “meu discurso é de amor e volvido para o Homem. Engana-se quem pensar que minha arte seja agressão. Quem sente agredido deve fazer uma reflexão sobre o seu comportamento, pois acaba de verificar que não está em estado de graça. As pessoas esperam encontrar no trabalho do artista os seus valores, e não os encontrando se sentem agredidos. Essas pessoas, geralmente mal-informadas a respeito do que seja arte e contemporaneidade da arte, estão ainda naquela de paisagem, natureza morta, casario, etc.”
Evidentemente que o Sante com sua cara de beato e jeito do tabaréu de Ceará não está interessado em fazer nada bonitinho. A sua mensagem é outra. É mensagem social e o espanto faz parte do seu jogo.
Ninguém consegue ficar indiferente aos homens e mulheres enormes e imbecis. Há sempre uma reação favorável ou não. Dês espanto ou riso.
Aliás o espanto e o riso fácil não denunciados em muitos de seus quadros onde os bajuladores riem da conversa ou da piada sem graça dos chefes. Sante está no Museu de Arte da Bahia até o dia 31 de maio.

NILZA BARUDE

Manchas e Geometria , de Nilza Barude
Nilza com a sua inquietude, marca registrada de sua personalidade, conseguiu elaborar um catálogo muito bem feito. Embora cultive um pouco a vaidade feminina, o que é de certa forma compreensível. A mulher está muito ligada ao espelho, e Nilza deu uma olhadela no passado, e revela em fotos um pouco de sua infância. Mistura ainda alguns versos. Para em seguida mostrar os seus trabalhos onde manchas de cores se entrelaçam, como a dar as mãos em pleno infinito. Dimensionados ou determinados por linhas as manchas lembram o céu, o fogo e o horizonte. Os círculos e os quadrados que estrategicamente ou meticulosamente foram desenhados representam apenas pequenas intervenções nas belas manchas que Nilza Barude consegue criar, com boa técnica.
Sem dúvida que uma tendência forte a abstração e o geometrismo de que falo acima perde em importância para o significado maior da espontaneidade das manchas. Suas cores são fortes, mas cores que vemos constantemente no mundo que nos cerca. São trabalhos que embelezam o ambiente, onde por acaso estejam colocados. As intervenções geometrizadas mostram ou demonstram que Nilza Barude não pintou aleatoriamente as manchas. Não jogou simplesmente a tinta na tela. Ela criou as manchas e em seguida idealizou as interferências, com os símbolos geométricos. Os círculos, os quadrados e o triângulo. Sobressaem-se evidente, porém os espaços de manchas são mais amplos e mais fortes! É como uma olhada na própria natureza.
Um mergulhar no infinito para fora ou para dentro da Terra. E, neste mergulhar segue a Nilza Barude com toda a vitalidade que lhe é peculiar. Evidente que sua arte tem mais emoção que técnica, mas acredito sinceramente que a vontade férrea que lhe conduz vai chegar e alcançar o que busca. Nilza estará na Época de 24 de maio a 2 de junho próximos.



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