quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

CERAMISTAS DÃO EXEMPLO DO TRABALHO EM CONJUNTO - 25 DE NOVEMBRO DE 1985.


JORNAL A TARDE, SALVADOR, 25 DE NOVEMBRO DE 1985.

CERAMISTAS DÃO EXEMPLO DO TRABALHO EM CONJUNTO

Ceramistas estão criando novas formas com o barro
Depois de uma exposição em Salvador (Museu de Arte da Bahia) e outra em Brasília (Galeria A da Fundação Cultural do Distrito Federal), o grupo de ceramistas baianos Cerâmica, Arte da Transformação foi convidado pelo Banco Central para uma nova exposição no Distrito Federal, desta feita no Salão de Exposições do BC. O convite foi aceito e o grupo está participando desta mostra, que começou no último dia 20 e prossegue até o dia 13 de dezembro.
Nas duas exposições já realizadas, e o mesmo está ocorrendo na atual, esse grupo de ceramistas baianos mostrou que não pretende apenas produzir egoisticamente suas obras e expô-las. Eles não fazem segredo das técnicas utilizadas e ainda educam aqueles que participam de seus eventos a respeito das origens e significado da arte da cerâmica.
Assim, o grupo esclarece, por exemplo, que a arte da cerâmica tem seu começo na Pré-História, e, como não poderia deixar de ser, vem sofrendo constantes transformações em função dos progressos tecnológicos (o forno de mão substituído pelo forno elétrico,  os fornos de lenha  pelos de gás, óleo, querosene ou eletricidade). Os esmaltes também mudaram: deixaram de ser produzidos com base em rochas e minérios no estado natural e passaram a ser químicos.
EMOÇÃO
Enganam-se, porém, aqueles que, diante de tantas considerações técnicas e históricas, pensam que a cerâmica é uma atividade desprovida de emoção e envolvimento pessoal do artista.Como todas as artes, ele produz muito de emoção e isto pode ser notado nas declarações dos artistas que compõem o grupo “Cerâmica, Arte da Transformação”.Ana Thereza Ferreira, por exemplo, declara que fazer cerâmica é, para ela, “um trabalho de paz e foi esta, aliás, a minha proposta na primeira exposição”. Ela diz que modelar o barro e ver surgir da mistura da argila com água e fogo as formas e objetos “que você mesmo criou, é uma emoção, uma alegria muito grande, principalmente quando você vê que pode transmitir para outras pessoas a mesma emoção, a mesma alegria”.
A beleza é muito importante na vida das pessoas, conclui Ana Thereza, qualquer que seja ela. No caso, falamos sobre a beleza plástica de uma peça de cerâmica. Portanto, é também muito importante você, através da cerâmica, dar sua contribuição para proporcionar um pouco mais de beleza á vida.

EDUCAR A MENTE
Outro membro do grupo, Suca, acha que a cerâmica é, um trabalho de educação da mente nos sentidos da beleza da forma e da cor: “é tentar compreender a forma não por uma análise, mas sim por uma identificação com outras mentes”.
Para o artista, o trabalho no grupo “Cerâmica, Arte da Transformação” está sendo muito gratificante, e ele ultrapassa até mesmo a análise da simples colaboração artística mútua ao justificar a importância do grupo: “vivemos numa época em que devemos nos unir e viver em comunidade, em grupos que, comungando da mesma idéia, conseguem crescer e se comunicar, não somente no plano emocional, mas no plano racional”.
Cerâmica é como cachaça: mais a gente toma, mais a gente quer”. A artista Cate inicia
com esta citação de um amigo uma declaração a respeito do seu relacionamento com a arte da cerâmica. Ela acha que há uma verdade na frase citada, “pois quando se descobre o barro, descobre-se o quanto se pode fazer com ele”.
O toque feminino está
presente nesta peça
-faz-se de tudo, desde o bonequinho artesanal aos utensílios, chegando-se á sofisticação de formas que se projetam, se estilizam e são capazes de transmitir uma mensagem. e isto que eu sinto: que o grupo “cerâmica, arte da transformação” está-se abrindo, se encontrando e trazendo para todos algo de belo, a partir do barro que o próprio deus fez para o homem, disse cate.
CRIATIVIDADE
Na opinião de Vitória Regina, o trabalho com o barro não se restringe a uma atividade puramente artesanal, uma vez que a cerâmica é “uma fonte inesgotável para a criatividade humana, onde a técnica entra de forma imprescindível”.
A propósito da plasticidade que envolve o trabalho com a argila, Vitória Regina lembra o que J. P. Guilford diz sobre criatividade no seu livro “A Soucre Book for Creative Thinking” (1950): “O indivíduo pode diferir em capacidade de redefinir as coisas”. Na cerâmica, conforme Vitória Regina, existe a redefinição no trabalho de cada artista, de acordo com as capacidades mais características de cada um.
Por esta razão, segundo o artista, é que, “num grupo de 12, como o nosso, o trabalho é individualizado, cada um se dedicando ás mais diversificadas formas, texturas, esculturas, de acordo com as suas sensibilidades”.
Vitória Regina lembrou, por outro lado, que o grupo, porém, está bastante ligado em torno do objetivo comum de divulgar não apenas os seus trabalhos, como também expor um material didático-informativo sobre as diversas técnicas utilizadas na cerâmica
SANTOS QUEIMADOS
A artista Yola confessa que sua maior surpresa, nas exposições já realizadas, foi a reação das pessoas que observavam os trabalhos: “elas faziam perguntas sobre as peças e ficavam encantadas ao ver como se conseguiam texturas tão bonitas com materiais tão simples. Vendo isto, percebiam que não é o suficiente dominar a argila: tem que haver ma harmonia entre o artista, seus materiais e sua imaginação”.
Osmundo Teixeira, outro membro do grupo, começou a trabalhar com a cerâmica fazendo formas simples, como panelas, potes e pratos, sem nenhuma técnica. Depois, vieram as formas mais elaboradas, como construções (arquitetônicas). Até esta fase ele ainda não queimava o barro.


A partir do momento em que comecei a trabalhar com a figura humana esclarece o artista.-foi que comecei a usar forno elétrico e fazer experiências em cor. Foi quando comecei a trabalhar com Udo e a me entusiasmar com o Barroco. Daí a coisa começou a ficar séria e os planejamentos começaram a cobrir minhas figuras. Atualmente, contínuo com santos queimados em forno de lenha e com os baixo-relevos.

BUSTO DE TANCREDO
O grupo Cerâmica, Arte da Tansformação, é composto pelos artistas Eckenberger, Ana Thereza, Cate, David, Grace, Hylda, Messias, Osmundo, Suca, Vitória Regina, Vitorino e Yola.
Quando esteve em Brasília, houve grande repercussão em torno de um trabalho de Hylda, o busto do ex-presidente Tancredo Neves.
Em cerimônia solene no Palácio do Planalto, a ceramista Hylda Luacena de Mello entregou a D. Risoleta Neves, na presença do presidente José Sarney, o busto de Tancredo, fato que mereceu destaque com fotos de primeira página nos jornais da capital federal.
O grupo aceitou o desafio de mostrar fora da Bahia o seu trabalho, lembra Grace Gradin, e “saiu e mostrou que o barro é material nobre e se transforma em arte”. E, pelo visto, os artistas do Cerâmica, Arte da Transformação” continuarão mostrando seus trabalhos Brasil afora: Já está com exposição prevista para Recife, em outubro de 1986, a convite da Fundação Joaquim Nabuco (de Alexandre Ferraz).