domingo, 2 de dezembro de 2012

JOÃO CÂMARA ESTÁ NO MAB COM “DEZ CASOS DE AMOR” - 02 DE JULHO DE 1984


JORNAL A TARDE, SALVADOR, 02 DE JULHO DE 1984.

JOÃO CÂMARA ESTÁ NO MAB COM DEZ CASOS DE AMOR

Painel 5 - óleo sobre madeira - 160 X 220 cm e o seu autor , o pernambucano João Câmara.
Os dicionários registram alcova como sendo um pequeno quarto de dormir situado no interior das casas sem abertura para o exterior; recâmara; quarto de mulher ou dormitório do casal. É exatamente neste ambiente onde são preservadas as individualidades e explodem as ações de desejos e afetos que o paraibano João Câmara foi buscar inspiração para esta série Dez Casos de Amor e Uma Pintura de Câmara.
Seu próprio nome soa como uma coisa fechada. Sem preconceitos, ele desnuda os movimentos e as ações sem agredir o espectador com suas 10 litografias-fontes Dez Casos de Amor 10 painéis, 22 montagens, 50 litografias e três objetos que ora estão expostos no Museu de Arte da Bahia. A presença de João Câmara vem possibilitar que muitos baianos tenham oportunidade de ver, sentir e vivenciar a arte de um dos mais importantes artistas contemporâneos deste país, e, devemos isto graças ao trabalho que o diretor do MAB, artista Luís Jasmim, vem realizando.
Durante seis anos, João Câmara trabalhou em seu atelier produzindo estes painéis e ele entende que a própria história moderna é um segmento muito significativo para a expressão plástica. Esta primeira série tem 10 grandes painéis e 100 litografias, e hoje acha-se exposta em caráter permanente na Galeria Metropolitana da Prefeitura Municipal, no Recife.
Mas sua produção não está limitada apenas às séries, pois várias outras obras avulsas foram e estão sendo produzidas por ele, enquanto executa suas séries.
O tema central de sua arte é o homem como participante ativo da ação político-social, e o homem com seus sentimentos e emoções que muitas vezes são contidos e explodem ardentemente na alcova. A dualidade entre a ação política, onde sobressai o intelecto, ou seja, as ações mais voltadas para a inteligência, e o discorrer espontâneo das emoções na busca do prazer. No artigo que integra o livro sobre esta série, o crítico Frederico de Moraes escreve que João Câmara, durante as entrevistas que manteve com ele, fez sempre questão de frisar que embora seja uma pintura intimista não é confessional. Ou seja, tudo que apresenta tem o lado da ficção, da invenção, quando deixou sua emoção deitar na alcova com a criatividade, resultando nestes trabalhos que têm realmente ambientação erotizada.
João e o seu Painel 3-de 220 X 160 cm
Talvez a sensação de desvendar ações e desejos que explodem nos quartos dos apartamentos enfileirados dos altos edifícios das grandes cidades ou em apartamentos pequenos e quartos de motéis venham contribuir para o seu         interesse, mesmo porque estas litografias, painéis e objetos nos falam de coisas que normalmente fazemos e gostamos de vivenciar. É como um prazer que se multiplica e o corpo feminino é sempre belo. Os detalhes são tão significativos quanto às figuras que surgem totais. Câmara confessa um certo segredo nesta série e sempre está presente através de sombras que surgem espreitando, ameaçadoras ou simplesmente é a figura do amante. Esta figura escondida, procurada e buscada por aqueles que se acham ameaçados. Acho que Câmara brinca com este estado de coisas que na realidade é vivenciado por muita gente que se ama às escondidas, que vivem momentos fortuitos, procurando sempre driblar o parceiro que existe como uma marca imposta de um produto de consumo, que o indivíduo é obrigado a conservar, e, na sua individualidade, deseja outro mais moderno, mais criativo e caro. Mas, caro no sentido da afetividade.
Câmara está certo em não revelar o segredo de sua série. Segredo só existe quando pertence a uma pessoa. Se duas já compartilham deste segredo, pode ter certeza que dentro de pouco tempo quatro já estão cientes e com o passar do tempo são oito, 20 e a coisa já vira boato. De boato escorrega a verdade onde o fato já foi distorcido, e quem o conta jura que tudo é aquilo verdade.
Acho que estas confabulações, que este tratar com segredo as emoções transferidas para a plasticidade dão até maior grandeza a obra de João Câmara. Isto porque estabelece um discurso em torno de sua obra. Este discurso é presença nas suas séries.
Quando fez a série enfocando o Estado Novo, muita gente discutiu a presença dos personagens, que com o passar do tempo vão ficando esquecidos. Câmara nos reapresentou Getúlio, Juscelino e outros políticos e figuras de nossa História Moderna. Lembremos do filme Jango, de Tendler, como a figura do presidente que saiu daqui enxovalhado, porque governava um país onde a inflação era de 100% e as greves se multiplicavam. Hoje, (é sempre bom lembrar) a inflação já está na casa dos 240%, greves se multiplicam e as instituições estão também desacreditadas. Embora Câmara tenha afirmado que não é um trabalho documental, no sentido restrito, não deixa de ser    cobiçado na sua visão de artista estas figuras que foram responsáveis numa determinada época pelo destino deste país.
A participação do artista ao lado dos seus personagens, me faz lembrar a figura de Alfred Hitchcock que sempre surgia furtivamente em seus filmes, como um passaporte conduzindo um cachorrinho pela coleira e fazendo outras pequenas ações. Esta presença me parece que dá a obra de arte mais um elemento para ser discutido. Assim, acredito que o artista atende às suas indagações e necessidades pessoais, procurando entender melhor não apenas a história deste país, mas também a sua própria circunstância enquanto artista e homem. Ele mesmo afirma  que “só é ativa socialmente a pintura que serve ao autor. Se um artista faz uma obra para servir a um circuito econômico, as galerias de arte, a sua obra não está servindo ao social”. É exatamente esta lucidez que transparece na obra de Câmara, onde ele estabelece o seu discurso para ser entendido como um elemento presente no social e capaz de ser objeto de interpretações. Necessariamente as interpretações têm sempre algo da individualidade que deve ser respeitada  para o que discurso permaneça ativo.

            AS CRIANÇAS TRISTES DE ROBERTO DE SOUZA

“Quem aplacará as crianças tristes e indagativas dos quadros de Roberto de Souza?” Essa pergunta feita por Artur da Távola parece enfeixar todo o conteúdo, a emoção e a natureza silenciosa desse artista muito conhecidos nos meios cariocas como “Robertão”.
Nascido no seio de uma família de artista plásticos, o pintor diz que a opção por essa linguagem de arte “foi um caminho natural”. O curioso é que esse pintor figurativo não trabalha outro tema a não ser crianças. Por isso, quem visita sua exposição na Art Boulevard Galeria não deve ficar surpreendido com suas crianças sempre bonitas, bem vestidas e de olhar enigmático.
Roberto de Souza, apesar de colecionar vários prêmios, diz que não gosta de fazer exposições individuais. Em toda a sua carreira deve ter feito menos que cinco, contudo, essa é a terceira vez que o artista está expondo individualmente em Salvador. com uma vida artística iniciada na década de 60, o Roberto explica seu desinteresse pelas individuais pelo fato de nunca poder juntar vários quadros para expor. Seus trabalhos estão em quase todas as galerias do país e como a sua pintura é demorada, afirma que não sobra tempo para juntar quadros para exposições individuais e atender ás solicitações.
Pouco afeito às classificações de escola, Roberto diz que apesar de conhecer todos os “ismos”, não prende-se a nenhum deles e a escola é utilizada em cada quadro.Apesar disso, é classificado como realista ou impressionista romântico.
Ao falar de sua paixão pelo tema “crianças”, Roberto de Souza explica que se auto-retrata, ao mesmo tempo em que faz um protesto passivo. É através da expressão do belo que está o segredo maior de sua obra. Ao mostrar as formas perfeitas e em harmonia, o artista pretende demonstrar com isso um “clima de sonho”. Esse panorama, na opinião do pintor, provoca um contraste com toda uma realidade que está nas ruas.“Meu protesto é através do maravilhoso, assim as pessoas podem saber o que há de ruim a sua volta”, revela o artista.“Sente-se em sua arte a ternura dispensada aos temas infantis”, escreve Jenner Augusto no programa dessa exposição da Art Boulevard Galeria. E o mesmo Artur da Távola arrisca uma definição sobre o trabalho do artista: “A pintura de Roberto de Souza é, por isso, uma violenta denúncia de nossos desmandos egoísmos através da ternura da forma. Ninguém resiste a tudo que dói dentro da inocência e cobra em silêncio através da exibição da própria desvalia. As crianças deste artista nos fazem melhores, porque nos ajudam a descobrimo-nos piores”.