quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

OS FANTASMAS DE SIRON EMOCIONAM OS BAIANOS - 06 DE MAIO DE 1985.


JORNAL A TARDE, SALVADOR, 06 DE MAIO DE 1985.

OS FANTASMAS DE SIRON EMOCIONAM OS BAIANOS
Nossa Senhora das Dores, óleo sobre tela do artista Siron Franco , de 140 cm X 160 cm.
Está entre nós um homem que cria fantasmas. Ele é jovem, elétrico e acompanha com avidez toda a transação louca deste universo cheio de contradições. Ama os bichos a tal ponto que os transforma em figuras fantasmagóricas e solta-os pelas ruas escuras das cidades. Especialmente, das cidades construídas há séculos e possuidoras de ruas estreitas e velhos casarões. Este cenário é importante para que seus fantasmas gozem de maior liberdade e não estranhem o ambiente. Tudo é feito com muito amor e cuidado para que suas figuras fiquem à vontade emocionem e sejam amadas pelos mortais.
Para a criação de um fantasma existe todo um ritual rico em vivências e fraternidade.Cada elemento que o compõe integra e está presente em nossos espaços e é por ele pinçado. Até uma Nossa Senhora, contrita, não escapa desta linguagem e traz no peito um coração de plástico, capaz de bater com a mesma intensidade e amor por seus fervorosos devotos. Em vez de uma auréola, tem sobre sua cabeça um rosto largo com dois olhos esbugalhados e vigilantes, como a protegê-la. À frente e ao lado, alguns elementos gráficos, captados de uma televisão, que passava um jogo de videogame. Uma santa e um joguinho de videogame. Não existe qualquer relação entre eles, a não ser no jogo que o criativo Siron Franco faz.
Ele deixa que transpareça e se concretize todo um universo psíquico, que pode parecer estranho e até chocante. Aliás, este é o primeiro impacto de seus fantasmas ou bichos.
Mas, quando a gente se detém a observá-los com mais cuidado passamos a acariciá-los, e diante de nós, eles se humanizam, nos cativam com sua pureza, com suas cores fortes e nos relembram aqueles animais que habitam nossas florestas. Ternos e vigilantes, os fantasmas de Siron Franco giram em torno de nós trazendo diabos que guardamos escondidos no cipoal de ações, muitas vezes tão cheias de inverdades.
O mundo de Siron Franco é o espelho do nosso próprio mundo. Ele reflete a nossa condição humana, e seus fantasmas são atores de um espetáculo terreno. Enquanto vivemos estamos representando personagens. Jovens, enquanto somos jovens, maduros quando atingimos a casa dos 40 e velhos, quando chegamos aos 60 anos. Meros atores que enchem casas, ônibus e ruas, e desaparecem em pouco tempo, muitas vezes sem deixar rastros. Assim são os fantasmas de Siron Franco.
O Vigia, óleo sobre tela com 140 cm x 150 cm
Eles surgem nas ruas escuras e representam os seus papéis.Só que deixam marcadas as suas presenças porque se eternizam nas suas mensagens.Tudo isto não é feito ou surge fortuitamente. Ao contrário, Siron Franco desde criança que vive entre bichos.Morando vizinho ao Horto, que em Goiânia é o Jardim Zoológico, ele aprendeu desde cedo a amar os animais.
Também são muito comuns no estado de Goiás as grandes queimadas, e os animais silvestres para fugirem do fogo aparecem nas estradas e são presos facilmente. E esta vivência com bichos é tão presente que Siron Franco já conviveu até com um tamanduá. “Era um filhote e cheguei até a catar uma formiguinhas para alimentá-lo.
Era um bicho muito dócil”. E, como acontece com tudo que ele vivencia, o tamanduá deixou de lembrar de lembrança  o seu grande focinho, multiplicado e transformado numa obra chamada Tamanduás. As cobras coloridas que também que também aparecem em várias de suas telas são reminiscências de sua infância. São as cobras de cortiça que são vendidas nas feiras livre do interior e brinquedo preferido de muitas crianças. O que podemos sentir é que o criador de fantasmas está sempre com suas antenas ligadas captando elementos para suas composições. Sabe segurar na hora exata aquilo que pode integrar o seu universo fantasmagórico, multi-colorido, cheio de emoção e de qualidade pictórica.
“Tenho um lado muito lúdico”, disse-me Siron Franco, na véspera da inauguração de sua exposição. “Herdei um pouco do místico que envolve a minha Goiás Velha. Tenho uma formação acadêmica, todo um aprendizado de técnica e formas”. Foram muitos anos de estudos que servem de base para vôos mais livres.
Ele sabe brincar com as formas e é capaz de pintar um retrato clássico.
Quando conversávamos sobre o seu universo pictórico, disse que a reação das pessoas em assustarem, “para mim já é normal”. Minha própria filha queria que eu fizesse um retrato dela. E me avisou:
Meu pai não quero que o senhor me pinte com cara de bicho, com aquelas coisas feias que o senhor faz. Siron atendeu ao pedido da filha e fez um retrato clássico lembrando aquelas belas criancinhas de Renoir. Mas dois fatos fortalecem esta sua atitude de entender as reações diante de sua obra: Certa vez ele estava numa exposição da Petit Galeria, no Rio de Janeiro, quando uma velhinha que não o conhecia começou a conversar com ele malhando os quadros.
De repente, convidou-o a olhar outros quadros expostos e foi malhando um a um “Mas que coisa feia! Este sujeito é um delinqüente. Deveria estar preso”, e foi desfiando frases mais ou menos neste tom.
Agora, nesta sua exposição no Escritório de Arte da Bahia, ele teve a oportunidade de ouvir um comentário de uma senhora: “Como é que tiraram aqueles quadros tão bonitos e colocaram estes horrorosos”.Referia-se aos 24 quadros que Siron está expondo.
Aliás este tipo de reação é esperada diante de seus fantasmas multicoloridos. É o primeiro contato. O espanto. O arregalar dos olhos. A contração fácil. Na segunda olhadela, você já começa a enxergar a beleza plástica dos fantasmas de Siron Franco, e em seguida é envolvido, é carregado para aquele ambiente lúdico.

UMA FEIJOADA
Foto recente ( Google) do artista   Siron Franco 

“Minha obra é como uma grande feijoada. Tem que tudo, perna de porco, toucinho, enfim tudo que uma boa feijoada tem direito”. Esta frase dita por Siron Franco, pode também chocar os falsos puritanos. Mas ela carece de uma explicação. Siron refere-se à variedade de assuntos ou temas que aparecem em sua obra. Ela é riquíssima em temas, em abordagens e com isto nos presenteia com telas enfocando os mais diversos assuntos nesta rica e caleidoscópica paisagem brasileira. As contradições, a riqueza da cultura popular, a tecnologia moderna dos traços gráficos que surgem em movimento no vídeo, as carrocerias e os circos mambembes. Enfim, tudo que possa servir de inspiração as antenas de Siron Franco captam e transformam em figuras e elementos integrantes de sua obra.
Disse a Siron que uma tela de sua autoria é facilmente identificada. Ela contém elementos que pertencem ao universo de Siron, e tem uma marca registrada. As cores, a própria composição, e as formas de suas figuras. Isto porque o lúdico de Siron é único e ele não permite que nada interfira, determinando as regras do seu jogo. Tudo flui com emoção e o inconsciente trabalha, age. Ele não está preocupado com a reação daquelas pessoas menos avisadas que facilmente ficam chocadas com suas figuras. Este choque, aliás, é importante, acontece porque sua obra consegue emocionar. Sua arte é toda uma relação de vida. Ele não fica apenas preso à pintura.
Faz também interferências nos espaços urbanos. Durante a Semana Santa colocou em Goiânia três cruzes de aroeira, de 10 metros de altura, e as envolveu parcialmente com panos brancos manchados de vermelho. Diz Siron que deu um grande impacto no público.
Este é o mundo de Siron Franco. Um universo aberto a novos elementos que chegam para povoá-lo. As sensações estranhas que sente quando está pintando uma grande tela,
Nos são repassados quando estão acabadas, através das reações de simpatia. Diz Siron que diante de uma tela grande é como se estivesse dentro de um ventre. E o renascer acontece à medida que ele vai modelando as suas figuras com as próprias mãos; trinchas e outros instrumentos que utiliza. Renasce dia-a-dia construindo o seu universo de fantasmas.Para terminar deixo esta frase dita por uma pessoa que adquiriu um quadro do artista.“Esta tela é estranhamente terna e linda.