quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

POEMAS QUE FALAM DE UM AMIGO QUE SE FOI - 16 DE DEZEMBRO DE 1985


JORNAL A TARDE SALVADOR, 16 DE DEZEMBRO DE 1985

          POEMAS QUE FALAM DE UM AMIGO QUE SE FOI

“Faz-se um filme de qualquer coisa. De uma praia deserta. De um homem só”. Glauber Rocha in O Século do Cinema. Plagiando o cineasta diria que se faz também uma pintura ou um desenho de saudade. Basta colocar a imaginação e a criatividade para funcionar no universo de nossas informações. E, foi assim que Calasans Neto idealizou a capa do livro Dois Poemas para Glauber Rocha escritos por Florisvaldo Matos e Fernando da Rocha Peres, das edições Macunaíma que também tinha a participação do cineasta falecido.
“Nada sei além do que me contam /os hebdomadários perseguidos / os diários desaparecidos / os livros burocraticamente censurados / os discursos jamais pronunciados”. Estes versos de Florisvaldo são como um clamor pelo amigo que se foi, pela inquietude de um criador a toda prova, de um homem que andava com uma velocidade semelhante a do cometa Halley, e por isto os que não conseguiam acompanhá-lo ficavam a falar aos ventos bobagens intocáveis e que desapareceram porque não tinham consistência. E o Glauber não é um cometa, ele é eterno.
Não tive a felicidade d privar da amizade de Glauber Rocha, mas, sempre fui um admirador de sua obra, e principalmente de sua inteligência. Profissionalmente nos encontramos várias vezes. Eu na qualidade de repórter de A TARDE e da Manchete e ele como o entrevistado. Algumas vezes o encontrei sereno falando de seus planos, de seu novo filme, do Brasil em que ele tinha tanta fé.Nos últimos anos encontrei um Glauber Rocha mais agitado a esbravejar contra seus críticos.
Lembro de uma entrevista que fiz logo após ele ter falado bem do então presidente Geisel que começara a abertura política e alguns intelectuais da esquerda sulista malharam o cineasta. Ele ficou possesso. Não podia falar do assunto. Numa das últimas entrevistas que fiz me recebeu despido.Ao entrar no apartamento do hotel lá estava o Glauber completamente nu. Me refiz do susto e comecei a entrevistá-lo. Glauber andava de um lado para outro respondendo as perguntas como estivesse no comício. Discursava em voz alta, cada vez mais alto.
Na mão direita segurava um calção de cor azul  e de vez em quando rodopiava o calção no dedo médio. Depois de quase uma hora muda a cena. Resolveu vestir o calção, sem antes chegar no janelão do apartamento do hotel assustando duas senhoras de um edifício defronte que chegaram à janela do seu apartamento. Minutos depois chegava seu amigo inseparável João Ubaldo Ribeiro. Outras vezes estivemos juntos, e finalmente, fiz uma grande matéria com sua mãe D. Lúcia depois de sua morte, que a revista Manchete publicou, em grande estilo.

O LANÇAMENTO

As Edições Macunaíma e a Livraria Amarcord (Rua César Zama, 180, Loja 2, Barra) lançarão no próximo dia 17 o livro Dois Poemas para Glauber Rocha, da autoria dos poetas Florisvaldo Mattos e Fernando Rocha Peres, com ilustração e capa de Calasans Neto e apoio cultural da Bahiatursa e Artes Gráficas e Indústria Ltda.
A publicação representa homenagem à memória do cineasta e escritor baiano, de cuja morte se passaram recentemente quatro anos, significando um preito de reverenciamento e saudade àquele cuja ida foi um marco no revigoramento da atividade intelectual e artística durante as décadas de 50,60 e 70, na Bahia e no Brasil, através de filmes, teatro, crítica, cultura, ficção e jornalismo.

OS DOIS POEMAS

Os dois poetas cultivam a memória do amigo desaparecido, de quem foram companheiros ao longo das atividades desenvolvidas pelo movimento cultural liderado pela revista Mapa e em outras iniciativas, com os poemas intitulados A Edição Matutina de Florisvaldo Mattos, e Romance para Glauber Rocha, de Fernando da Rocha Peres.
O primeiro ergue uma ode à fraternidade desdobrada ao longo de 122 versos pelo simbolismo dramático da ausência, de que constitui fundo o cenário agonizante do universo urbano refletido nas páginas de jornalismo, e que acaba de concretizar um sentimento de perda irrecuperável para todos.
Nos 73 versos de seu romance poético, Fernando da Rocha Peres grava, um canto de saudade entrelaçado de símbolos que resgatam o mundo criativo, combativo e polêmico de Glauber Rocha desfilando com os companheiros e amigos que seguiram seus passos, vivos e desaparecidos, e com ele mantiveram acesa a mesma chama de esperança, que hoje a ausência do amigo parece ter apagado e para isto invoca um estado de alerta, “a um gesto, nuvem ou apito”, na expectativa de que o amigo regresse “cada ano em cada agosto” (mês da morte de Glauber), na memória dos companheiros que ficaram”.

LIVRO-PLAQUETA

Impresso nas oficinas de Artes Gráficas, para as Edições Macunaíma, o livro foi editado em formato de 27, 2 x 20,3 centímetros, com capa e ilustração de Calasans Neto, representado um dragão entre duas bolas, em cores preto, vermelho e cinza sobre fundo lilás, contendo ainda em seu interior uma monotipia do gravador e fotos dos autores com o homenageado.
A edição recebeu apoio cultural da Bahiatursa, graças ao empenho de seu presidente Paulo Gaudenzi e seu diretor Waldomiro Galindo. Afora o cinema, é a primeira homenagem artística prestada a Glauber Rocha na Bahia, após sua morte ocorrida em 22.08.81.
Glauber foi na Bahia a principal expressão de uma geração de intelectuais e artistas entre os quais se incluem, Além dos dois poetas e do Calasans Neto, Paulo Gil Soares, João Carlos Teixeira Gomes, Sante Scaldaferri, Lina Gadelha, Fred Souza Castro, Anísio Melhor, Orlando Sena, João Ubaldo Ribeiro, Fernando Rocha, Ângelo Roberto, Silva Dutra, Albérico Costa, Antônio Guerra Lima, José Telles de Magalhães, Geraldo Del Rey, Sonia dos Humildes, Roberto Pires, João Augusto, Othon Bastos, Sônia Coutinho, David Salles, José Maria, Hélio Oliveira, Luís Paulino dos Santos, Helena Inês, Anecyr Rocha, Sonia Castro, que reuniram como seus melhores intelectuais como Godofredo Filho, Carvalho Filho, Odorico Tavares, Walter da Silveira, Martim Gonçalves, Mário Cravo, Genaro, José Martins Catarino, Zahidé e Machado Neto, Antônio Barros, José Pedreira, Rui Simões, Vasconcelos Maia, Wilson Rocha, Pedro Moacir Maia, Raimundo Oliveira, Jorge Amado, Milton Santos, Zitelmann de Oliva e Lina Bardi.
Os autores de Dois Poemas Para Glauber Rocha publicaram anteriormente livros de poesia e ensaios: Florisvaldo Mattos, Reverdor e Fábula Civil (poesia) e A Comunicação na Revolução dos Alfaiates”(ensaio); Peres, Diluviano, Rurais, Poemas Bissextos (poesia) e Memória da Sé e Biografia de Gregório de Mattos (ensaios).

  UMA BIBLIOTECA DE ARTE A SERVIÇO DOS ARTISTAS

A cultura de um povo se mede pelo acervo das experiências que se adquire, incorporando novos conceitos através dos confrontos das informações recebidas no rico manancial de livros colocados à disposição dos pesquisadores. A Biblioteca sempre foi um instrumento gerador desse processo de sedimentação na formação da comunidade.
A Biblioteca do Museu de Arte da Bahia (antigo Museu do Estado) funciona desde 1940. passou a chamar-se Biblioteca José Pedreira em 14 de março de 1983, em homenagem ao antigo diretor, cujos livros de sua coleção foram doados para o acervo da referida biblioteca. Foi mantido esse nome pelo decreto 31.616 de 17 de abril de 1985, sendo aprovado posteriormente pelo Regimento da Fundação Cultural do Estado da Bahia.
Muitas estantes como esta cheias
de livros de arte de qualidade
A Biblioteca José Pedreira possui um valioso acervo que está à disposição da comunidade em geral, constando de livros em língua portuguesa e de edições originais em idiomas estrangeiros, periódicos nacionais e de outros países, slides, catálogos de exposição e recortes.

ATIVIDADES

É feito o empréstimo de livros aos leitores inscritos, para leitura a domicílio, a orientação e assistência ao usuário na consulta ao material de referência, que por suas características próprias é utilizado no recinto da Biblioteca. Um fator importante é a manutenção do catálogo de analíticas e periódicos, precioso instrumento de consulta, pela variedade de assuntos que contém de conteúdo e atualização indispensáveis ao pesquisador.
Os recortes de jornais selecionados é um fator importante no preparo e atualização no campo das artes, funcionando como suporte á pesquisa dos usuários. A organização e controle da coleção de catálogos de exposições individuais e coletivas, assegura ao pesquisador uma documentação que registra a atuação de artistas brasileiros e estrangeiros, vez que esse material informa além dos dados pessoais, a técnica, o estilo a produção artística, bibliografias referentes e retrospectivas realizadas.