sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

JENNER COMEMORA COMEMORA 60 ANOS COM EXPOSIÇÃO - 19 DE NOVEMBRO DE 1984.


JORNAL A TARDE, SALVADOR, 19 DE NOVEMBRO DE 1984.

   JENNER  COMEMORA  60 ANOS COM EXPOSIÇÃO

A tela Paisagem do Tororó Jenner Augusto valoriza a paisagem baiana. Tela de 61 X 37 cm
Jenner Augusto está comemorando 60 anos de idade e 40 de arte com uma exposição de vinte e quatro telas na Galeria Villa Bernini, no Rio de Janeiro. São trabalhos da paisagem baiana onde o elemento água marca a sua trajetória pictórica. Quer nas telas, que enfoca a miséria de Alagados, Lagoa do Abaeté ou o Dique do Tororó, Jenner Augusto é sem dúvida o pintor, que , na atualidade, melhor enquadra esta paisagem, muitas vezes desgastada aos olhos dos baianos por trabalhos desqualificados de artistas menores. Mas, com Jenner a paisagem é enriquecida com um tom de lirismo e suavidade. Ele consegue criar no espectador de suas telas uma vontade de conhecer aquelas paisagens, e nós que já as conhecem, a vontade de revê-las melhor.Na comunhão da água com seus personagens típicos e místicos que compõem procissões á beira-mar, Jenner vai povoando o seu mundo pictórico com muito saber. Afinal são 40 anos de um trabalho exaustivo e meticuloso.
Este sergipano-baiano sabe captar como nenhum outro a tropicalidade baiana e principalmente, como diz Jorge Amado, num pequeno texto que escreveu sobre ele: “ Na pintura de Jenner há um permanente interesse social; o artista jamais se encontra desligado de seu tempo e de seu meio ambiente. Problemas, dores e lutas refletem-se em sua obra, tanto quanto a paisagem e a luz”.
Realmente, esta observação de Jorge Amado vem de encontro inclusive a uma falsa afirmação de que ele explorava demasiadamente a miséria de Alagados.Sempre combati esta visão radical e distorcida de alguns. Rebatia afirmando que entendia exatamente ao contrário, é que o enfoque dado por Jenner Augusto, mesmo sem estar fazendo uma arte engajada, ele denunciava aquela chaga social que hoje está menor e sendo reaberta mais adiante, co o Novo Alagados.
Agora vemos Jenner enfocar outros locais e a presença humana em sua obra é uma constante. São exatamente os tipos  e profissões menos aquinhoadas que ele transforma em seus personagens colocando-os no seu contexto social.
A luz é outro elemento significativo na sua obra. Um verdadeiro poema de amor onde a paisagem é o palco de uma representação ou manifestações que os multiplicam. Os personagens ocupam espaços determinados com muito critério nas composições que o Jenner Augusto cria valorizando as coisas da Bahia, tão cantadas em verso e prosa e tão mutiladas pelos especuladores imobiliários e pelas insensíveis autoridades municipais.

O LIRISMO DE WALDENBERG SERÁ MOSTRADO EM VITÓRIA

Após alguns anos sem rever o trabalho de Waldenberg, tive a oportunidade de conversar com ele e apreciar algumas telas de sua produção. Falador e muito preocupado com a questão social, aproveitou o reencontro para queixar-se que certa vez eu teria classificado seus quadros de meras cópias. Lembrei que não foi bem assim. Teci alguns comentários, onde afirmaram que suas telas lembravam estampas europeias.
A Colheita de Trigo,do pintor Waldenberg
Com isto não estava desclassificando o seu trabalho ou o seu talento, apenas mostrando a distância existente entre um artista humilde, natural de Rui Barbosa, no interior da Bahia, e que passou a maior parte de sua vida vivendo em ter a pobreza do Nordeste de Amaralina e o que produzia. Contraditoriamente Waldenberg voltava sua visão para a Europa onde seus personagens loiros contrastavam com os negros, que, como ele, povoam as ruas esburacadas e enlameadas do Nordeste de Amaralina. Magoado, ele não perdeu a oportunidade da queixa. Porém, demonstrou amadurecimento ao dizer que entendia a crítica e que agora seu trabalho evoluiu. Realmente, seu atual trabalho é de boa qualidade técnica, e quanto a temática já demonstra também melhora crescente, já aparecem elementos significativos de sua própria vivência, e os loiros estão misturados, ou melhor se relacionando com os negros. Velo também que as redes nordestinas, que as carroças e outros elementos vivenciados por Waldenberg estão presentes.
O lirismo é o mesmo de anos atrás.É através deste lirismo que Waldenberg espera sensibilizar as pessoas tão envolvidas com violências e explorações de toda a sorte. Ele deseja que o homem olhe seus irmãos com mais amor, que juntem as mãos em busca de soluções viáveis que venham beneficiar as comunidades. Não aceita esta concorrência desenfreada e desleal e pede acima de tudo respeito pelo trabalho e também pela própria vida.
Alguns podem pensar que Waldenberg é um homem amargurado. Mas, não me parece que seja. Vejo-o como um jovem pobre, que está no momento fazendo uma arte que se propõe a ter uma linguagem universal com a utilização de elementos do seu próprio mundo. “Estou sempre ligado ás raças, o que dá sentido á vida. Nos meus trabalhos as pessoas estão em situações de tranqüilidade, se admirando ou se afagando. Se as coisas na realidade transcorressem assim não haveria tanta violência e miséria”. Com apenas 28 anos de idade, Waldenberg pensa em alçar Vôos muito altos. Agora mesmo está preparando uma exposição para Vitória, Espírito Santo, levando seus trabalhos marcados agora pela sua infância no Alto da Alegria, no Nordeste de Amaralina, para outras praças. Hoje, ele estar com um atelier em Ubaranas, também em Amaralina, e de quando em vez sobe e desce as ladeiras do Nordeste para rever os locais e os brinquedos de lata de sardinha, os pneus velhos que utilizava como “carros” e seus amigos que ainda permanecem por lá. Só espero que estas visitas ocasionais lhe sirvam para manter acessa a sua própria identidade cultural e que seu universo de conhecimento seja estendido em benefício do seu próprio trabalho artístico.

       JOSÉ BANDEIRA VAI EXPOR NA GALERIA  ACBEU
Vemos nesta foto  José Bandeira com três telas de seus temas preferidos  igrejas  e gente
Trinta trabalhos enfocando procissões, casarios e marinhas serão mostrados pelo artista José Bandeira a partir do dia 23 na Galeria da Associação Cultural Brasil-Estados Unidos. Bandeira já participou de várias coletivas e individuais aqui e em outros estados, inclusive alguns quadros seus já foram adquiridos em leilões.
Bandeira é uma figura humana muito interessante. Cheio de emoção ele gesticula, fala várias vezes sobre o mesmo assunto e termina toda a conversa desaguando sobre seus quadros ingênuos que retratam a Bahia.
Mesmo tendo formação universitária, porque é cirurgião dentista, Bandeira consegue manter sua fidelidade ao primitivismo. Continua enfocando as igrejas, os casarões, as ladeiras e as procissões que descem com as beatas entoando ladainhas.
Morador por muitos anos no pensionato do padre Torrend, no Corredor da Vitória, N.º 331 por onde passaram muitas gerações, desde aquela época que ele dividia o seu tempo entre as aulas na Escola de Odontologia e sua arte.
“Posso morrer como um pintor primitivo. Na odontologia é que não posso ser primitivo”, diz Bandeira entre um olhar e outro para o fotógrafo que desejava registrar o seu trabalho e seu interlocutor.
Agitado e dócil, Bandeira vem desde 1964 retratando a seu modo esta Bahia quatrocentona. Sua primeira exposição aconteceu na Biblioteca pública que funcionava na Praça Municipal, e que foi um espaço muito importante para que os artistas que naquela época davam seus primeiros passos. Expôs logo depois no hall do Hotel da Bahia, no Campo Grande, e de lá para cá sucederam-se dezenas de exposições coletivas e individuais.Desta vez ele expõe na Associação Cultural Brasil Estados Unidos – Acbeu -;são quadros maiores onde apresenta muitas variações de igrejas, casarios e procissões. Sua exposição será inaugurada no dia 23 às 21 horas.