terça-feira, 4 de dezembro de 2012

AS FIGURAS ONÍRICAS DE LOBIANCO SURPREENDEM -27 DE AGOSTO DE 1984


JORNAL A TARDE, SALVADOR, 27 DE AGOSTO DE 1984.

AS FIGURAS ONÍRICAS DE LOBIANCO SURPREENDEM

Lobianco e uma das 31 obras expostas em Salvador
São 31 quadros dispostos simetricamente nas paredes do Escritório de Leilões da Bahia, do Salvador Praia Hotel, onde as figuras oníricas surpreendem o espectador. Pedro Lobianco, um artista plástico carioca, apaixonado pela Bahia, está de volta à terra e seus trabalhos ficam expostos até 10 de setembro, de segunda á sexta, das 9h30min às 19 horas e aos sábados das 9 às 13 horas.
Lobianco retrata figuras doces, geralmente crianças, através de uma luz difusa e sempre integrados à natureza. O observador fica surpreso ao visualizar um barco navegando num mar construído dentro de uma gaveta de cômoda. São sempre situações que levam o observador da surpresa à contemplação através dos detalhes que revelam a sensibilidade de Lobianco para com o elemento futuro da humanidade, a criança. E esse é o principal retrato que se vê na exposição. Apesar de apresentar muitos rostos adultos, o semblante das figuras é possuído por uma iluminação e serenidade, característica dos que ainda não penetraram na crueza da vida. O próprio artista faz essas observações e diz que “O importante é nunca deixar a criança que tem dentro da gente morrer”.
Igreja do Rosário, pintada pelo artista
No início da década de sessenta, ainda estudante, Pedro Lobianco visitou a Bahia e, provavelmente, decorrente de sua paixão resolveu, em 1969, aceitar um convite para trabalhar com publicidade, atividade que já vinha desenvolvendo no Rio de Janeiro, paralelamente ao seu trabalho de artista plástico. No período em que ficou aqui chegou a lecionar na Escola de Belas Artes da UFBa., a convite de Juarez Paraíso, época em que participou de muitas exposições coletivas. Agora pela terceira vez, faz uma exposição individual na Bahia e soma em seu currículo, entre outros destaques, um prêmio no Salão de Belgrado.
A atual produção de Pedro Lobianco é feita em óleo sobre tela, mas o artista tem trabalhado muito com gravura, técnica que domina. Como uma conseqüência direta de sua insatisfação com a atividade publicitária, começou a elaborar capas de disco, utilizando sua criatividade a serviço de artistas como Gal Costa, Jorge Bem, Simone e Gilberto Gil entre outros.

MAX BECKMANN: UM PINTOR EM BUSCA DE SI MESMO
A Tentação de Santo Antônio ,tríptico famoso pintado em 1936

“Eu procuro uma ponte para ligar o visível ao invisível”, essas palavras podem ser vistas como a chave da obra de Max Beckmann, o pintor agora tão lembrado e, neste ano, 1.º centenário de seu nascimento, tão festejado, de modo especial, na Alemanha, onde nasceu, e nos Estados Unidos, onde viveu os últimos anos de sua vida e faleceu, em 1950. Essa ponte para Max Beckmann significava “chegar à magia da realidade e, depois, traduzir essa realidade em pintura”.
Auto-retrato do pintor
O invisível que Beckmann desejava tornar visível era, em primeiro lugar, a escuridão violenta do destino que marcou seus próprios sofrimentos e que também transparece em seus auto-retratos, dos quais fez 39 desenhos e pinturas. “É mais cômodo para mim pintar do que falar”, assim Max Beckmann explicava sua tendência de se auto-retratar. Uma das mais conhecidas auto-representações de Max Beckmann é, sem dúvida, “Auto-Retrato com Taça de Champanha” (1919) exposta em Colônia no Pavilhão de Artes Josef-Hambrich.
 Este ano estão sendo realizadas várias apresentações de obras desse pintor alemão, que nasceu em Leipzig a 12 de fevereiro de 1884, estudou na Academia de Artes de Weimar, foi professor na Escola de Arte de Frankfurt, quando foi demitido pelo governo nacional-socialista de Hitler. Perseguido pelos nazistas, que o consideravam “um pintor degenerado”, emigrou para a Holanda e, mais tarde, para os Estados Unidos, onde exerceu o cargo de professor no Brooklin Museum Scholl em Nova Iorque. A maior exposição das obras de Max Beckmann, em 1984 está sendo apresentada pela Casa de Arte de Munique:132 pinturas, 77 desenhos e aquarelas e 88 serigrafias.
Depois de Munique, essa exposição irá para a Galeria Nacional de Berlim, para o Saint Louis Art Museum e o Courty Museum of Art, em Los Angeles.
Carnaval, temas mundanos que gostava de pintar
Argonautas, outro tríptico do artista Max Beckmann
A Alemanha foi descobridor Max Beckmann somente em 1947, quando ele já era aclamado, em outros países, como um dos maiores pintores de nossa época, não um expressionista (como muitos afirmam), antes um fanático da realidade, ele próprio confirmou em busca da idealidade, que se encontra por trás de uma aparente realidade. Beckmann descobriu, muito cedo, quão raras vezes as pessoas conseguiram ficar livres de inibições e dissimulações, como podem se deixar envolver em seus sofrimentos, como sufocam seus temores, agindo na vida como figurantes de um teatro. Não é por mero acaso que Max Beckmann tenha sido levado a pintar (como já ocorrera com Picasso) acrobatas, palhaços e dançarinos, circo e bailes de máscaras. Característico para os quadros de Beckmann são os rostos sérios, apáticos, de pessoas que não participam do que ocorre à sua volta, não se comunicam.
Outro auto-retrato do pintor
“Para mim, o quadro é uma espécie de rosário ou um anel de figuras descoloridas, que às vezes, em havendo contatos, recebem um forte brilho e me dizem verdades, que eu não sei expressar em palavras” assim Max Beckmann descreveu o eleito de sua pintura com a qual ele queria descobrir seu próprio eu, “o maior e mais velado segredo do mundo”.