domingo, 9 de dezembro de 2012

PANORAMA DE ARTE ATUAL BRASILEIRA SERÁ NO MAM - 26 DE NOVEMBRO DE 1984


JORNAL A TARDE SALVADOR, 26 DE NOVEMBRO DE 1984

 PANORAMA DE ARTE ATUAL BRASILEIRA SERÁ NO MAM

Quase como um desabafo Sérgio Rabinovitz  disse-me que seguia para São Paulo para realizar  exposição
“Estou literalmente colocando o pé na estrada  caminho de São Paulo”, escreveu rapidamente o artista Sérgio Rabinovitz num pequeno bilhete endereçado a mim. Ele seguiu para participar da exposição organizada pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) que reúne obras contemporâneas de artistas atuantes no cenário artístico brasileiro, inclusive os estrangeiros aqui residentes há mais de dois anos.
As obras estarão expostas durante sessenta dias e a cada artista foi permitido á utilização de uma área de seis metros lineares.
As obras podem ser comercializadas, senda que caberá ao MAM 25% das vendas. Serão distribuídos prêmios entre os participantes da exposição e todas as obras premiada integradas ao acervo do museu. No entanto, se o artista não desejar participar da premiação lhe é facultado este direito.
O Museu de Arte Moderna de São Paulo abrirá a exposição no dia 27 contando com importantes nomes da arte brasileira, e o artista baiano. Sérgio Rabinovitz apresentará alguns de seus trabalhos feitos utilizando o papel como suporte, onde ele com seus traços vigorosos registrou espontaneamente as suas emoções.
Como estamos vivendo numa sociedade que tende aumentar o universo da simbologia os elementos que integram a arte de Sérgio nos lembram os símbolos.
E, nada melhor do que pensar num símbolo e imaginar o seu significado para participar da emoção do artista. Seus trabalhos nos coloca em frente aos muros das megalópolis onde estão marcados em tintas e imagens, ás vezes desconcertantes, o pensamento e as idéias de jovens. O muro é suporte daqueles que não estão no circuito das galerias. Mas, é preciso preservar este espaço com certa dignidade para não acontecer o que resultou do velho muro do Convento da Lapa na Joana Angélica.
Sérgio escolheu o papel para gravar as suas mensagens e agora leva mais uma vez para outra capital representando a Bahia.

REGISTRO DA GENTE QUE MORA E TRABALHA 
NO PELOURINHO
Loureço pintando as pessoas que vivem no Pelourinho

Residindo na área do Pelourinho, local ainda marcado pela prostituição o artista Luiz Lourenço vem sofrendo uma influência marcante. E, alguns de seus quadros mostram pessoas que convivem com ele, são as prostitutas que povoam as telas, só o que o artista faz uma verdadeira “operação plástica” endurecendo-lhes os seios e dando contornos mais suaves aos corpos já marcados pelo tempo e pelo “trabalho” degradante, da mais antiga das profissões, que á  prostituição.
Diria que José Lourenço consegue de certa forma dar dignidade a esta pobre gente esquecida dos poderes públicos e discriminada pela sociedade. Convivendo com elas Lourenço vai construindo o seu mundo pictórico. É verdade que não podemos colocá-lo no mesmo patamar onde estão grandes artistas, mas é um profissional que se esforça para retratar o mundo em que vive e consegue passar as suas emoções.
É fácil notar que em alguns quadros é preciso trabalhar com mais cuidado em busca da proporcionalidade, de maior perfeição.
Acredito com o passar do tempo e do trabalho contínuo ele conseguirá com facilidade, porque é inegável o seu talento. As cores são vibrantes, fortes, quase naturais, como àquelas que dão beleza as frutas deste país do sol.
Luiz Lourenço é um moço pobre, sapateiro de profissão, e isto me lembra o velho João Alves, o engraxate cujos trabalhos até hoje são disputados por colecionadores e museus.
Luiz ainda não tem o mesmo reconhecimento público, mas já pinta há algum tempo, e desde 1973 que reside no Pelourinho. Ele pinta além da gente que lhe rodeia, os casarões, outrora palcos de grandes festas e moradias da gente granfina, cujos descendentes moram no Morro Ipiranga, na Pituba ou na Pedra do Sal. Com a decadência da área ali está morando a gente humilde, sofrida e o artista Luiz Lourenço documenta o seu cotidiano.

                          A LIDERANÇA DE IVAN SERPA

Obra de Serpa,alegria e brasilidade
O elemento de ligação entre os artistas das duas cidades era Ivan Serpa, criador e líder indiscutível do Grupo Frente. De seu curso, no Museu de Arte Moderna do Rio, saíram quase todos os integrantes do Grupo Frente: Aluísio Carvão, João José da Silva Costa, Vincent Ibberson, Carlos Val, Décio Vieira, Elisa Martins da Silveira, Eric Baruch, Rubem Ludolf, César e Hélio Oiticica. Das quatro exposições realizadas pelo grupo, afora o próprio Serpa, participaram também Lygia Clark, e Délcio Vieira, estes dois últimos premiados, todos de tendência geométrica. E também Antônio Bandeira, Anna Bella Geiger, Ramiro Martins, Fayga Ostrower e Rossini Perez, estes mais próximos de uma abstração informal. Os geométricos das duas cidades vão constituir, pois, a primeira turma de concretos cariocas, assim como é do Grupo Frente que sai o núcleo principal da dissidência carioca do movimento concreto brasileiro, o neoconcretismo.

LINGUAGEM UNIVERSAL E 
APROXIMAÇÃO À INDÚSTRIA

Como a mostra anterior sobre o neoconcretismo, as de agora terão o mesmo caráter didático, e serão acompanhadas de um amplo catálogo, com textos de Frederico Morais (Grupo Frente) e Edmundo Jorge (mostra de Quitandinha), currículo dos artistas e cerca de 30 reproduções de obras e documentos de época, trazendo na capa, a cores, uma colagem de Ivan Serpa, datada de 1955.
Em seu texto, de caráter estritamente histórico, Frederico Morais procura conectar o surgimento e atuação do Grupo Frente aos demais acontecimentos artísticos no Brasil e no mundo. Ele diz:
Lygia Clark, cores vibrantes
“Na verdade, ele se insere numa lógica da época, numa abertura mundial para a arte abstrata tanto a de caráter informal como a geométrica, que buscava na arte uma espécie de linguagem universal, que superasse as barreiras regionais. O Brasil abre-se novamente para a Europa e uma nova onda cosmopolita penetra a arte brasileira”. Aponta a repercussão que teve, nos integrantes do grupo, a realização da Bienal de São Paulo, a mostra e os concretos argentinos no Rio, a presença no Brasil de Tomás Maldonado: Jorge Romero Brest e Max Bill e destaca a liderança intelectual de Mário Pedrosa, bem como as preocupações dos fundadores do grupo com as manifestações de arte infantil, primitiva e dos doentes mentais, assim como o de dar a sua arte um sentido social mais nítido, um caráter pragmático (sua inserção na produção industrial) e mesmo educativo.
Edmundo Jorge, por sua vez, descreve o ambiente cultural de Petrópolis, à época da mostra de Quitandinha, e a influência exercida no grupo local pelas idéias e ensinamentos de Ivan Serpa. Ele diz: “A objetividade formal que nos era proposta por Ivan, deveria ter sido motivada por uma modernidade imposta pela indústria, já que vivíamos numa cidade industrial.
Seria esse o dado fomentador de uma estética tão severa e pragmática, já que em nosso meio não se desenvolviam teorias matemáticas capazes de respaldar no plano cultural a geometrização concreta”.