sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

OLHE AS PINTURAS QUE ENFEITAM OS BOTEQUINS - 15 DE ABRIL DE 1985.


JORNAL A TARDE, SALVADOR, 15 DE ABRIL DE 1985.

OLHE AS PINTURAS QUE ENFEITAM OS BOTEQUINS
Uma pintura típica de botequim. As figuras e a composição são resultado de manifestação popular
 Algumas pessoas envolvidas com o movimento de arte alimentam uma falsa idéia de que estão inovando quando levam a arte para fora dos ambientes das galerias e museus. Para comprovar isto basta olhar o interior de alguns botequins e outras casas comerciais tanto da Capital,m mas principalmente no interior do Estado que encontrará um manancial rico de arte primitiva e até alguns figurativos de qualidade. É a expressão espontânea do povo que explode ou melhor que brota como uma flor silvestre entre cactos e pedras. Exatamente este ambiente inóspito lhes proporciona um cenário próprio e rico para ser visualizado e enaltecido
E seus autores? Muitas vezes é gente muito humilde que mal sabe escrever o próprio nome. Mas, são pessoas que transbordam de sensibilidade e é, exatamente, esta sensibilidade que consegue sobrevier vencendo a desinformação e mesmo a falta de apoio que me chama mais atenção.
Muitas destas pinturas ricas em expressão e até como documento,porque algumas foram pintadas no princípio do século,resistem bravamente às várias camadas de tintas que os proprietários mandam colocar nas paredes de suas lojas. Às vezes estão até esmaecidas ou sujas pela ação implacável do tempo e principalmente porque ficam expostas.
Agora sou informado com muita alegria que já existe há alguns anos o interesse por parte de alguns pesquisadores em resgatar esta manifestação. O Instituto Superior de Cultura Brasileira, uma instituição privada, sem fins lucrativo, dedicada à pesquisas de etnologia,sociologia, e arqueologia está tentando reestudar e retomar o projeto.Pinturas de Botequins, que deu início em 1983, a um levantamento dessas obras no Meyer, no Rio de Janeiro.
Este exemplo é bom que frutifique. E os nossos burocratas da Fundação Cultural da Bahia precisam atentar para esta e outras manifestações da cultura popular que precisam ser resgatadas e preservadas. Mas, este país é um país do – jeitinho – e do improviso, tudo vai passado despercebido ou deixando para depois – deixa pra outro dia - . Assim já perdemos muita coisa importante tanto nos setor da arquitetura como do patrimônio histórico.
Quem duvidar que dê uma olhada nas ruas adjacentes ao Conjunto Arquitetônico do Pelourinho que ficará alarmado e até pensará que está visitando uma cidade bombardeada pela aviação de um país inimigo durante a Segunda Grande Guerra, tal é o número de prédios em completa ruína.
Estas pinturas esquecidas e apreciadas por àqueles que têm maior sensibilidade merecem ser estudadas e discutidas por seu valor como manifestação e também porque muitos artistas conseguiram e ainda conseguem sobreviver graças a elas. Muitas vezes elas estão escondidas por trás de garrafas de pinga, latas de leite em pó e até engradados.
Em Salvador estas pinturas estão presentes nas barracas que servem de centro de animação nas festas populares. Algumas até com nomes sugestivos e outras calcadas no caráter ingênuo do primitivo.
Atento e sensível o fotógrafo Carlos Santana  ao passar pela barraca do Peléo, em Piatá, foi chamado a sua atenção por estas pintura ingênua, mas que refletem elementos importantes da orla marítima.
O Farol de Itapuã , sempre vigilante, ajudando os navegantes e o grave problema da moradia que aflige o brasileiro e especialmente os baianos, onde grande parte de sua população habita casebres infectos e ficam dependurados nas encostas à espera das chuvas de abril para rolarem com seus ocupantes encosta abaixo.
As gaivotas amenizam um pouco a imagem e o coqueiro que oferece seus frutos para matar a sede e a fome. A cor é forte, como é forte e espontânea esta manifestação. O autor é Climério, o qual ainda não tive o prazer de conhecer. No entanto, acredito que seja uma pessoa do povo onde realmente estão latente as expressões mais vivas e significativas deste país.

PAULO SERRA EXPÕE SEUS CARTUNS SOBRE O ÍNDIO

Mais de sessenta cartuns de Paulo Serra o criador do personagem ecológico Mero, onde figura a problemática indígena no país, serão apresentadas na Galeria Solar do Ferrão, do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia – Ipac – no período de 18 de abril a 11 de maio deste ano, durante a exposição Brancos Fora. A abertura da mostra promovida pelo Ipac será no dia 18 próximo, a partir das 18 horas, mas antes às 15:30 minutos o cartunista fará uma palestra sobre o tema da exposição para os estudantes das escolas da área do Pelourinho, Maciel e a comunidade em geral. A exposição da Galeria Solar do Ferrão, situada na rua Gregório de Mattos, número 45, Pelourinho,é um dos eventos programados em Salvador por ocasião das comemorações do Dia do Ìndio, que
Transcorre em 19 de abril. Os cartuns foram produzidos entre os anos de 1977 e 1985 e não estão á venda, conforme esclarece Paulo Serra. Sua idéia é reuni-los num álbum a ser editado futuramente, cuja renda será revertida em favor da causa indígena.

LINGUAGEM VISUAL

Embora não tenha uma convivência direta com os índios, o artista diz ser apaixonado pelo tema. Os trabalhos, afirma, são criados geralmente a partir da leitura de algum assunto referente aos índios. “Sempre tento engajar a minha arte”, confessa Paulo Serra.Através dos cartuns, ele procura transformar numa linguagem visual uma situação real vivida pelos índios. A linguagem da arte permite um retrato mais fiel da realidade”,comenta ainda Paulo Serra, acrescentando que em seus trabalhos há sempre uma intenção de passar uma verdade, uma crítica, de maneira que o cartum não se limita apenas ao humor.
Com 31 anos de idade , atualmente, formado em Comunicação Social pelas Faculdades Integradas Alcântara Machado, de São Paulo, o artista é baiano e dedica-se a sua atividade desde o ano de 1976, quando criou o personagem Mero. A fama de Mero é tão intensa que normalmente a pessoa associam o nome do cartunista a desse personagem ecológico.
Paulo Serra tem realizado diversas exposições por ocasião da Semana do Índio. Em 1982, por exemplo, mostrou seus trabalhos na Escola de Administração da Bahia – Trabuco . No ano seguinte fez exposição na ECUM – Extensão Cultural da Mulher, e, no ano passado no Sindicato dos Professores, esta última uma coletiva com o artista Fernando Hughes.
No momento além de se dedicar com o habitual entusiasmo aos cartuns, ele faz palestras em escolas abordando assuntos ecológicos, colabora com jornais e presta serviço na área de programação visual a algumas empresas. Também é membro do Grupo Ambientalista da Bahia – Gambá, da Comissão de Avaliação Técnica Sobre Abaeté, Associação nacional de Apoio ao Índio – Anai-Bahia, e do Conselho de Defesa da Paz – Condepaz.