sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

MIGUEL CORDEIRO VAI EXPOR NO DIA 21 - 18 DE MARÇO DE 1985


JORNAL A TARDE SALVADOR, 18 DE MARÇO DE 1985

MIGUEL CORDEIRO VAI EXPOR NO DIA 21

Outra tela de Faustino , sobre a bomba , tendo ao lado seu autor Miguel Cordeiro


Volto a falar de Faustino. Trata-se daquele misterioso personagem que sai durante as madrugadas pichando com frases inteligentes os muros da cidade. Seu verdadeiro nome é Miguel Cordeiro, economista, e autor das célebres frases: Faustino ouve Júlio Iglesias, Faustino mora com a tia, Faustino leva a Bahia a sério, Faustino parcelou uma excursão para Bariloche, e muitas outras. Agora o nosso Faustino vai expor. E, parafraseando o Miguel Cordeiro diria que Faustino expõe em Museu.
Realmente, é grande a distância entre os muros frios de uma cidade mal-cuidada, como é Salvador, e um museu, como o Museu de Arte da Bahia, que está funcionando num imóvel totalmente restaurado, e ainda por cima, é bem administrado por seu diretor, o artista Luís jasmim.
Mas, o nosso personagem é realmente um artista que merece estar em qualquer museu brasileiro pelo que representa como expressão espontânea, e também, por ter como suporte informações não apenas de forma e técnica plásticas mais acerca do próprio universo que lhe cerca.

PROCESSO NATURAL

Para Miguel Cordeiro ou Faustino, a exposição é fruto de um processo natural, já que havia um conhecimento mias ou menos generalizado das pessoas acerca do trabalho. “E, então, surgiu em mim a necessidade de mostrá-los, não apenas nas ruas, como até agora estava sendo feito, mais num lugar fechado, dando uma visão geral do trabalho individual que não se limita apenas aos grafites do Faustino, mas, também, às pinturas e aos desenhos que surgem no dia-a-dia.
Ele mostrará pinturas sobre tela e Eucatex, enfocando temas universais, geralmente, envolvendo o homem em diversas situações do cotidiano. A corrida nuclear, por exemplo, porém, evitando que a abordagem caia em elocubrações intelectuais ou mensagens herméticas. Um trabalho mais figurativo, utilizando cores quentes, puras e vivas. São telas em proporções médias utilizando desde as colagens, têmpera-vinil, acrílico e óleo. Além das telas, cerca de 30 desenhos comporão sua mostra. Explica Miguel Cordeiro que “são esboços, anotações, observações, pequenos projetos que eventualmente possam ser transformados num trabalho mais elaborado, definido, num futuro próximo”. Geralmente anotações feitas em cadernos, que sempre acompanham o artista. É daí que surgem os trabalhos finais. Ele decidiu mostrar os desenhos porque sempre nas exposições surgem aos olhos dos espectadores apenas os trabalhos finais, onde as pessoas às vezes trabalham somente um período de tempo. Por exemplo: uma exposição realizada em dezembro e na verdade os trabalhos são feito meses antes. Foi com esta sua visão de tempo que Miguel Cordeiro optou por mostrar todo o seu processo de criação que começa do simples primeiro rabisco numa folha de papel qualquer, até chegar ao trabalho final. Uma tentativa de desmitificar a criação em suas fases antes iniciais. Com isto Faustino acredita que possibilitará ao público “ conhecer a alma de todo o trabalho”.

CEDO OU TARDE?

O Semeador, do artista Miguel Cordeiro
Quando indagado por que não fez antes a sua exposição, ele responde com um certo toque de filosofia oriental dizendo: Nada acontece antes da hora: A exposição está sendo feia agora porque antes não foi possível concretizá-la por motivos diversos. Na verdade a ideia original era de realizá-la num local alternativo, independente, que não tivesse ligação com o oficialismo. Isto foi tentado, porém, diante das dificuldades o museu foi a opção viável. Primeiro ele tentou um galpão desocupado, mas a burocracia foi tamanha e terminou desistindo. Além dos custos, que seriam necessários para sua realização, no momento, são proibitivos para o artista. Então, revela Miguel Cordeiro ficou ente a ideia e a prática. Optou pela prática e a exposição vai acontecer no Museu de Arte da Bahia, no próximo dia 21, a partir das 21 horas.
Conformado com a escolha, ele repete: a escolha foi a viável. Quanto aquelas pessoas que argumentam que estou realizando a mostra tardiamente acredito existir uma contradição. Uns acham que é cedo e outros que é tarde. “A unanimidade e o previsível são formas de estagnação da arte. A exposição está sendo feita agora. Arte, é pôr em questão o próprio conceito de arte”.

   AXL LESKOSCHEK E SEUS ALUNOS

O artista Axl Leskoschek trabalhando
A Galeria de Arte Banerj inaugura amanhã, às 21 horas, a mostra Akl Lestoschek e Seus Alunos No Brasil -1940-1948. Trata-se da quarta exposição do ciclo sobre arte no Rio de Janeiro e que se integra, também, no projeto Viva o Rio.As mostras anteriores do ciclo se ocuparam do Neoconcretismo (1959-1961), Grupo Frente (1954-1956) e I exposição Nacional de Arte Abstrata (1953).
Gravura de Axl
Trata-se da maior mostra já realizada sobre o período brasileiro da Leskoschek, reunindo gravuras originais, matrizes, livros, álbuns, guaches e óleos de sua autoria, bem como gravuras, desenhos e aquarelas de seus alunos brasileiros e, finalmente, ampla documentação textual. Além dos óleos e guaches que será vistos pela primeira vez em exposição do artista (tanto no Brasil como no exterior) a exposição vai reunir o essencial de sua produção xilográfica: as ilustrações para a tradução brasileira das obras completas de Dostoievski (1943/1946: O Adolescente, O Eterno Marido, Irmãos Karamázovi, O Jogador e Os Demônios), e para a Odisséia, de Homero (1938-1959) e as miniaturas sobre cenas cariocas feitas originalmente como ilustração para o livro de Ulrich Bechers Brasilianischer Romanzerc, entre 1941 e 1942, e que Renina Katz, sua aluna, considera “uma verdadeira jóia xilográfica”.
O critico José Neisten considera as ilustrações para Dostoievski como “o ponto mais alto da carreira do artista, pela surpreendente adequação formal, psicológica, sócio-cultural e emocional à verdade humana e literária dos personagens o novelista russo”. Já o critico alemão Iná Jun Broda considera suas ilustrações para a Odisséia uma obra pessoal, pois que ele mescla os fatos descritos com sua própria biografia: “é uma autobiografia, uma confissão de sua situação perante o mundo e as pessoas”.
José Neistem diz que, como miniaturista ele é um dos maiores do mundo, destacando “O extraordinário requinte formal e o magistral domínio técnico”. Suas miniaturas foram “uma pequena antologia visual de usos e costumes urbanos, suburbanos e rurais do Brasil”.