sábado, 1 de dezembro de 2012

A VIA CRUCIS DA CAPELA DO MOSTEIRO DE JEQUITIBÁ - 04 DE JUNHO DE 1984


JORNAL A TARDE, SALVADOR, 04 DE JUNHO DE 1984

A VIA CRUCIS DA CAPELA DO MOSTEIRO DE JEQUITIBÁ
  Visão parcial da Via Crucis pintada por Fred Schaeppi na cabela do mosteiro de Jequitiá, na Bahia

Vista o Convento Jequitibá, em Mundo Novo,Bahia
Durante dois dias estive hospedado no Convento dos padres cistencienses na localidade de Jequitibá, no interior de Mundo Novo. Ali monges, irmãos e trabalhadores rurais convivem numa eterna harmonia. Oram e trabalha numa verdadeira comunidade rural. E, o local da oração é uma moderna capela que possui uma das mais belas Via Crucis que já tive oportunidade de ver. A Via Sacra a que me refiro, é de autoria do pintor Fred Schappi. Ouso dizer que foi a melhor coisa que Fred fez até agora. Uma obra digna de figurar em qualquer coletânea sobre a arte baiana.
A Via-Sacra de Jequitibá começou a nascer em 1977, quando Fred foi convidado para fazer um trabalho numa parede projetada por seu tio Osmar. A parede tem 15 metros de comprimento por três de largura. O desafio estava lançado. Durante quase um ano artista ficou imaginando o que iria fazer naquela parede sinuosa de 15 metros. Depois de muito pensar surgiu a ideia de uma Via Crucis. O abade do Mosteiro sugeriu inicialmente a imagem da Divina Pastora.
Mas, o abade lembrou que gostaria que a obra não interferisse distraindo as pessoas e os próprios monges durante as orações na capela. Disse ainda que um determinado local, que ele não se recordava o nome, um artista fez um Cristo que a sua cabeça parecia girar de um lado para outro, e com isto prejudicava a concentração durante a oração. Mas, o abade foi convencido e confiou no trabalho de Fred Schaeppi, e foi totalmente satisfeito.

COMO ACONTECEU
O artista preparou a parede de 15 metros por três de largura com um traço de cimento muito forte, e em seguida uma camada de massa sintética. Uma técnica que Fred usava há cerca de cinco anos. Só que em vez do cimento a massa sintética era colocada sobre a placa de eucatex. Pronto suporte passou a pintar sua Via Crucis, e finalmente, passou um verniz à base de polioretano para impermeabilizar.
Para executar a Via Crucis, Fred Schaeppi relembrou sua infância, a religiosidade de sua família, do seu avô Rômulo Serrano, e leu os últimos informes sobre o Santo Sudário que tem provocado tanta controvérsia.
Ficou sabendo que Cristo foi crucificado pelo pulso e não na palma das mãos.Assim, durante três meses Fred e sua família (Cristiana, a esposa, e Paula, a primeira filha do casal) passaram a viver juntamente com os monges do convento de Jequitibá. Uma mudança total em sua vida porque os monges tem horários rígidos para suas orações, acordar, dormir e trabalhar. Mas a família de Fred teve que se adaptar, e o próprio artista enfrentou muitas dificuldades. Como por exemplo, a falta de aderência da massa plástica na parede sinuosa da capela. Para vencer este obstáculo ele conseguiu uma mesa especial usada pelos monges para passar a ferro as suas batinas. Ali Fred colocava a massa deixando secar por algum tempo, e em seguida, ia com os dedos passando para a parede. Foi assim, que as figuras integrantes das cenas da Via Crucis foram surgindo, ainda sem uma definição, ou melhor sem o detalhamento.
Todos estavam curiosos, e os monges resolveram visitar a capela e para surpresa de Fred eles identificaram as figuras mesmo ainda sem estarem muito definidas. Isto deu maior confiança ao artista.
Sua Via Crucis tem 33 figuras. Mero acaso. Embora coincida com a idade que se supõe tenha morrido o Cristo. Também Fred eliminou dois momentos da Via Crucis, que são a queda de Jesus, e quando Jesus consola as mulheres de Jerusalém. E, introduziu como sendo a última cena a Ressurreição, por entender ser a essência da igreja, e a prova da vida eterna. Depois da morte física o Cristo ressuscita e sua Igreja surge mais forte!
Explica Fred Schaeppi que outra passagem da Via Crucis que pode ser entendida como aquela que Cristo encontra-se com as mulheres de Jerusalém é o encontro com Maria. Ambos se olhando e Cristo apontando para cima como a consolidar sua mãe.Portanto, se algum dia você for a Jequitibá, ao Mosteiro dos padres cistencienses não deixe de visitar a capela e preste bem atenção a esta Via Crucis de autoria de Fred Schaeppi.
Outra  bela cena da Via Crucis, que Fred  deixou nas paredes da capela do mosteiro de Jequitibá para as futuras gerações

           LEONEL MATTOS PINTA COM O POVO NAS RUAS 

O artista Leonel  Mattos tem uma disposição invejável para realizar. Inquieto, ele sempre está procurando uma integração maior do seu trabalho com a gente baiana e acima de tudo tem pressa para que seu trabalho seja visto e reconhecido por todos. Recentemente ele empreendeu uma verdadeira façanha se expondo inclusive a situações grotescas, só com o intuito de conseguir uma participação maior da gente da rua na sua obra. Comprou algumas placas de aglomerado e recortou-as em 10 pedaços iguais de 1.60 metros por 1.10 metros, e cada dia postou-se num determinado lugar. Esteve na feira de São Joaquim, no Iguatemi, na Barra, Liberdade, num manicômio, numa prisão, num local onde são recolhidos os cegos, e deu oportunidade a que várias pessoas de camadas sociais e até as condições físicas diversas pudessem se expressar através de seus painéis.
O lema de Leonel Mattos: “É preciso despertar o povo para a arte. E, que o pincel não é um revólver, mas é uma arma que deve ser usada em busca da liberdade.
Pinte”. Uma posição de certa forma semelhante aos artistas engajados. Sei que o jovem Leonel Mattos ainda não tem um suporte ideológico para que possamos avaliar o seu engajamento político, mas sua obra calcada na gente do Nordeste, e nas situações vividas por esta gente sofrida, de qualquer sorte nos leva a pensar e ver este artista como um jovem que despertar ele tem pressa de levar consigo as pessoas através de seu trabalho plástico.

LEONEL NAS RUAS
Leonel Mattos pintando na rua com os populares
Explica Leonel Mattos como seu atual trabalho funciona. Ele escolhe o local e leva o suporte, faz um traçado para orientar os transeuntes e começa a chamá-los. Deixa que pintem o que realmente sabem, e estão com vontade. Uns só dão alguns traços desconexos, outros, porém, capricham, e até artistas que passam dão a sua contribuição.
Muitos simplesmente respondem: “Estou com pressa” ou “não sei pintar”. “Não tenho tempo”, e os mais preocupados com o dinheiro indagam se têm que pagar alguma coisa. Não.Tudo é grátis e espontâneo. Livre como o próprio pensamento de Leonel Mattos que vai construindo a sua obra dentro de uma emoção impulsiva. Depois das explicações de que podem fazer o que quiser, os apressados dão seus riscos, outros escrevem palavras e slogans, e o trabalho vai sendo composto por muitas mãos.
Leonel acredita que esteja documentando a gente baiana que se expressa de várias formas. Os slogans e os traços dados no suporte pelo pessoal que transita na Barra são completamente diferentes dos feitos pelos moradores da Liberdade ou da Feira de São Joaquim. O universo de conhecimento é distinto e os signos é que levam Leonel a falar em documentação.
Para ele as reações do público, inclusive alguns em determinados momentos os chamam de doido ou louco é uma demonstração do distanciamento do público em relação aos movimentos de arte. “Sou um artista jovem, porém, disputando o mercado de arte, participando de exposições individuais e coletivas, de leilões, e acervo das galerias, alguns museus, além de frequentar os encontros e seminários sobre arte.
Porém, não posso dizer que sou uma pessoa conhecida, e isto constatei pessoalmente nas ruas da cidade sem preconceito, e nem tampouco o meu trabalho.Declara Leonel “sou um artista que pinto as minhas emoções, procurando sempre o fio do meu traçado para aquilo que consigo captar em minha existência”.
Este trabalho está sendo feito sem qualquer patrocínio e acredita até que seja difícil a sua aceitação no mercado. Para isto é preciso que o interessado tenha realmente consciência da participação do povo na obra de arte e se disponha a entender a intenção de Leonel Mattos. Mas, ele não está preocupado com isto. O que lhe interessa é documentar as expressões espontâneas do povo nas ruas.
Os trabalhos serão mostrados numa exposição que podemos dividi-las em duas partes. Na primeira, ele mostrará várias telas sobre uma temática da Ilha de Itaparica, com vendedores de frutas e outros personagens. A segunda, é composta de 10 placas, com as obras feitas por várias mãos.
Também sua mulher Rogéria estará expondo peças de cerâmica.Estreando, portanto como artista.Leonel Mattos afirma que tem consciência que a arte é consumida por uma elite, e por isto está se sentindo gratificado por ter proporcionado a participação de várias pessoas em seu trabalho, especialmente os cegos, presos, doentes mentais, além dos considerados sãos que andam pelas ruas da cidade.