sábado, 1 de dezembro de 2012

DALI ENFRENTA AOS 80 ANOS “A DURA TAREFA DE MORRER” - 14 DE MAIO DE 1984


JORNAL A TARDE, SALVADOR, 14 DE MAIO DE 1984.

DALI ENFRENTA AOS 80 ANOS A DURA TAREFA DE MORRER

Premonición de la Guerra Civil,a preocupação com o conflito
 “Eu sou o maior gênio do século”, bradou diversas vezes o anarquista Salvador Dali, que está completando seus 80 anos longe de Galla, a musa inspiradora de algumas de suas ações extravagantes.Confessando-se anarquista e ora monarquista, nunca negou sua condição de inimigo do capitalismo, embora “contra a sociedade de consumo me utilizo dela”. E, para ele a condição “indispensável para se transformar em anjo é ser proprietário”.
A obra pictórica de Dali emoldurada por seu comportamento extravagante assume em determinados instantes da sua existência uma postura revolucionária. Noutros, Dali parece almejar os cargos, os postos e os escândalos em busca de estrelato. Aos 75 anos de idade, por exemplo, ganhou a imortalidade, que buscou durante vários anos, entrando para a Academia de Belas-Artes do Instituto da França. E, já na véspera de ser recepcionado pelos acadêmicos deu uma festa envergando o florido fardão.

UM ACONTECMENTO

Cada exposição que Salvador Dali realiza é um acontecimento internacional. Sua obra é disputada pelos museus e colecionadores, tornando-se difícil reunir um bom lote para uma mostra. Os preços também são altos e estáveis no mercado. Além disto as presenças de gente famosa, serve também para transformar sua exposição num fato de destaque em toda a imprensa mundial. Dali sabe como ninguém criar situações exóticas e extravagantes para chamar a atenção. Sua figura funciona como um centro catalisador de interesse, desviando muitas vezes a atenção dos presentes, que em vez de apreciarem suas obras, passam a acompanhá-lo nos seus gestos e ações.
A obra Santiago , O Grande, sendo apreciada
Mas, é incontestável o talento deste artista irrequieto e irreverente.
Artista de múltiplas atividades. Sua pintura é mais conhecida, embora sua arte se estenda à fotografia, cinema e assim por diante. E ele soube como ninguém se colocar no centro das atrações de sua obra.
Sua genialidade pode ser constatada em várias ocasiões. Ele escreveu uma tragédia em versos e fez um filme, intitulado Paisagens da Alta Mongólia, em homenagem a Raymond Roussel e inspirado num velho tinteiro! Uma tela intitulada La Gare de Perpignan, que foi exposta na Galeria André-François Petit, em Paris, há alguns anos, é uma das mais significativas. Quando da exposição, ele escreveu um texto interessante.
Vejamos esta arte: “Galla olhando para Dali em estado de antigravitação, e acima a sua obra de arte Pop, Op, Yes-Yes, Bombeiro, na qual podemos comtemplar dois personagens angustiantes do Ângelus de Millet em estado atávico de hibernação, diante de um céu que pode de repente transformar-se numa gigantesca Cruz de Malta no próprio centro da Estação de Perpignan, para a qual, converge todo o universo” Ele considerou obrigatória esta leitura para compreensão deste seu trabalho, que até hoje está no museu de Figueras, na Catalunha, de sua propriedade.

RECUSA A MORTE

Não importando as denominações de anarquista, cabotino, palhaço, irreverente, louco e muitas outras, o artista surrealista Salvador Dali sempre se divertiu muito com suas atitudes e também divertiu muita gente por este mundo afora.Porém, ultimamente Dali tem se recusado a aparecer em público. Está com a saúde, abalada e recolhido em seus aposentos, onde tem contato com poucas pessoas.
Em 1980 ele apareceu em público trajando roupas pesadas e num barrete vermelho na cabeça. Estava muito abatido. Aos jornalistas confessou que estava muito doente e que por algum tempo sofreu uma depressão muito profunda e não queria ver ninguém. “Até Deus às vezes quer ficar só. Antes eu era divino, agora depois da doença, sou superdivino. Em menos de seis meses vou entregar ao público a maior obra de todos os tempos. Será um quadro em quarta dimensão, resultado de minhas pesquisas com especialistas americanos”. E sentenciou: “As catástrofes matemáticas me apaixonam. A quarta dimensão não é uma catástrofe visível, embora cientificamente provada”.
Confessou também não ter muito amor pelo seu físico. Ele que é um exibicionista por excelência, de repente vira-se para os jornalistas e diz:
Galla na visão do seu amado Dalí
“A força mais cretina que pode existir num ser humano é o amor físico. Sou impotente e por isso só faço amor com Galla. Ela é má cozinheira, mas é maravilhosa e é a minha musa. Por isso, vou lhe prestar mais uma homenagem. Em breve casarei novamente com Galla na religião copta. Na ocasião, vou revestir meus bigodes com uma camada de ouro”. E, assim procedeu cumprindo suas afirmações.

A morte, que todos nós temos um medo terrível a ponto de não tolerar-mos muita conversa acerca dela, sempre foi um tema predileto de Dali.
Talvez porque considera-se um imortal. “Quando Dali morrer, dali não estará morto. Ele é universal e será conhecido daqui a bilhões de anos”.
E arrematou: “Só Dali pode se permitir a fazer e dizer tudo o que quer. Dali só morrerá no dia em que quiser. Porque o prazer de morrer lhe poderá dar uma nova vida”.
Para a compreensão da genialidade de Dali e toda esta aura criada por ele, com declarações no mínimo extravagantes, é preciso se debruçar sobre sua obra desfrutando do seu universo insano e onírico.

O CIÚME

Dizem que Picasso, seu patrício sempre teve ciúmes, e não gostava muito das atitudes de Dali. Parece que a disputa era verdadeira. Quando em 1980 houve uma grande exposição das obras de Picasso no Centro Cultural Georges Pompidou, em Paris, Dali contra-atacou. “Pediram-me para montar uma kermesse heróique. Fiz o que pediram. E está mais genial do que se poderia supor”.
Realmente, o que apresentou deixou muita gente surpresa. Ele levou uma colher-fonte com 37 metros, suspensa no ar; um Citroen da década de 50, montado sobre rochedos de quatro metros de altura; guarda-chuvas que se auto-regavam; e outras peças, tudo isso circundado por imensos salsichões, tomates, cachos de uvas, tudo em plástico. E durante a exposição, foram executadas músicas de fanfarra, além de sons imprevistos moldurando a voz de Dali emitindo seus conceitos desconcertantes.
E sua presença foi o centro das atenções. Na ocasião convocou os jornalistas para uma coletiva, quando no Salão Tuileries, do Hotel Meurice, disse: “Convoquei-os para que me possam ver, me admirar e perguntar”.
Exigiu o tratamento de mestre ou divino. Quando lhe perguntaram: Chagall? Respondeu; “O maior mal que existe”. É a imortalidade? “Acredito totalmente nela. O que é uma mentira”.
E quando lhe indagaram, por que, expunha no Pompidou? Disse: “O Centro Pompidou é o edifício mais horrível que conheço e se nele exponho é para fazer o anti-Pompidou. Esse é o verdadeiro escândalo”.

SUA ARTE

Todos aplaudem a arte de Salvador Dali. O que parece caótico, é na realidade essencial. André Breton falando do conteúdo de sua obra afirma que “A arte de Dali é genial. A mais alucinante que conheço. É uma ameaça aos valores burgueses”. E assim ele continua seu caminho entre volumes e espaços fantasmagóricos ou alucinantes. Dentro de seu universo de fantasias o octogenário pintor ainda é capaz de ser o centro das atenções em qualquer lugar que exponha seus trabalhos recentes ou antigos. Tudo é uma surpresa recheada de ações e declarações que se eternizaram. Não podemos esquecer a fase anterior ao Surrealismo quando resolve “Fazer a América”.
Sob o céu catalão de Costa Brava, Salvador Dali cresceu levando suas idéias e gestos considerados insanos. Foi expulso do colégio, prisioneiro durante dois meses em Gerone, por insubmissão. Mas nunca parou de pintar e de fazer uma loucura.
Sua reputação foi crescendo até que rompeu os limites da Espanha querida. Um dia resolveu ir para Paris e associou-se depois a Luís Buñet e realiza o filme Le Chien Andalou.Obedecendo a um conselho de Jean Miró que fosse “bem apessoado comprou um smoking e cultuou o físico.
Dalí beija a mão de Galla
Quando “raptou”, segundo suas palavras, Galla, então mulher do poeta Paul Elouard, enfrentou dificuldades porque seus quadros não eram aceitos. Novamente com Buñel realiza um filme A Idade de Ouro e em seguida para Londres, onde fez uma conferência vestindo um escafandro, “para melhor atingir as profundidades do subconsciente”. Em 1934 faz sua primeira viagem aos Estados Unidos, onde conseguiu maior glória, fama e dinheiro. É bom lembrar que foi em Nova Iorque que ele preparou as famosas litografias de D. Quixote, com as quais o editor Joseph Foret fez o livro mais caro do mundo e lá pintou Santiago O Grande. Ele foi conquistar a América e conquistou. Vou fazer a América”, disse na época, e fez, na opinião unânime dos críticos e estudiosos sua obra.
Dali nasceu em 1904, em Figras, Espanha. Foi aluno da Escuela Bellas-Artes de Madrid, cujos ornamentos acadêmicos marca toda a sua vida. Deixou-se influenciar pelo Cubismo e futurismo espera  até abraçar o Surrealismo. Toda a vida está ligada a paranóica o que consiste em estabelecer um estado persistente de delírio entre uma pintura voluntária é dirigida inconsciente.
Ele utiliza distorções, argumentos e alongamento das  e despojando os objetos do seu ambiente precípuo e captando alta em processo de decomposição e o desenho é exato  e nítido. As partes desérticas, as visões, originam cruéis e pintadas em cores verticais..
Ultimamente Dali anda só e solitário e está recolhido na mansão em Pubol. Desde junho de 1982 quando disse recentemente que se tornou uma dura tarefa de viver   depois do desaparecimento de sua musa e mulher, Galla. Ela estava enterrada numa cripta em sua mansão. Só conversa com  os catalões Antônio Pixte, Miguel Domenech,  francês Robert Deschar  familiar. Dali não pinta  mais.