terça-feira, 27 de novembro de 2012

O MAR DA BAHIA NA OBRA DO MARINHEIRO JOSÉ PANCETTI - 16 DE ABRIL DE 1984


JORNAL A TARDE SALVADOR, 16 DE ABRIL DE 1984

O MAR DA BAHIA NA OBRA DO MARINHEIRO 
Ilma Pancetti. ao lado de uma tela do seu pai,
 no MAMB
JOSÉ PANCETTI
Só um velho marinheiro é capaz de entender os mistérios de mar, em toda sua grandiosidade. E, ninguém melhor que um velho marinheiro pintor para retratar a sua beleza e magia. Especialmente, quando se trata do mar da Bahia, com seu azul intenso e suas ondas suaves a beijar a areia branca das praias da Barra, Piatã e Itapuã. Mas, o fascínio do marinheiro pintor não ficou limitado apenas ao mar. Ele viajou pelas águas escurecidas e misteriosas da lagoa do Abaeté, retratando as lavadeiras que enfeitam suas margens com as roupas coloridas. E, os coqueiros, que surgem como marinheiros vigilantes, revelando com a postura de sua copa se o vento está soprando forte, indicando sinal de perigo, ou se é tempo de calmaria e de lançar a jangada no mar. Esta intimidade com as coisas, do mar e da Lagoa de Abaeté nos são agora apresentadas numa importante exposição com 34 telas de autoria do marinheiro José Pancetti, pintadas ao longo da década de 50. A exposição está sendo realizada no Museu de Arte Moderna da Bahia e todas as telas foram adquiridas por Clemente Mariani, e hoje, integram o acervo do Banco da Bahia investimentos S/A (BBI)
Esta coleção só era conhecida pelo que visitavam as salas de diretoria do Banco da Bahia Investimentos em Salvador, no Rio e em São Paulo, e agora o grande público tem oportunidade de conhecê-la graças aos dirigentes desta instituição financeira. Além, disto o BBI editou um álbum de excelente gráfica, dos 34 quadros, com projeto do artista Wesley DukeLee.

PANCETTI
Auto-retrato do artista
Foto de Pancetti

Filho de imigrantes italianos José Pancetti nasceu em 1902, na cidade Campinas. Aos 11 anos de idade foi para a Itália morar com seus avós. Entrou para a Marinha Mercante italiana, onde ficou durante um ano. Retornou ao Brasil em 1920 e alistou-se, em nossa Marinha de Guerra, dois anos depois.
Aqui foi “saudado”, com um artigo do crítico Sérgio Milliet falando de suas influências adquiridas em museus europeus e para surpresa, o marinheiro Pancetti respondeu através de uma carta que “o único que visitei foi o de Arte Contemporânea em Lisboa, e isto porque o navio fundeou no porto de uma capital onde havia museus”.
Mas aos 31 anos estava matriculado no núcleo Bernadelli, o mesmo que integrou o nosso mestre José Rescália, que era formado de um punhado de dissidentes da Escola Nacional de Belas Artes que reunia ainda Milton da Costs, Takaoka, Campofiorito e outros.
Era assim Giuseppe Gianinni Pancetti ou José Pancetti, este homem que teve momentos de coragem, como por exemplo, em 1944 quando classificou a atitude de alguns reacionários em Belo Horizonte que depredaram quadros dos modernistas como de “um ato de inveja desses que, desesperados com a queda do fascismo, navalham nossas telas”. Pancetti aproximou-se dos comunistas. Era muito amigo de Niemayer, mas não deixou de criticar o hotel projetado para Ouro Preto pelo arquiteto, e até hoje criticado por destoar completamente daquele conjunto arquitetônico colonial.
Tinha consciência de que sua obra era importante e que permaneceria depois de sua morte, e uma prova insofismável disto é que chegou a desenhar uma figura dentro de um caixão de defunto, levado por quatro marchands, antevendo assim a exploração comercial de suas telas. E, certamente esta visão é hoje uma realidade, porque suas telas são muito valiosas.
Esta ano estamos comemorando os oitenta e dois anos de nascimento deste pintor, que amou a Bahia e os 26 anos de sua morte.
Esta exploração organizada no Museu de Arte da Bahia na vitória, tão bem dirigido por Luís jasmim, ficará aberta ao público até o próximo 06 de maio, de segunda a domingo, das 14 às 18 horas. Esteve presente à inauguração a filha do pintor Ilma Pancetti e vários artistas baianos.

APAIXONADO

Numa matéria publicada em Manchete, o crítico Flávio de Aquino conta um fato curioso que presenciou. Tendo conseguido um pequeno óleo do artista retratando o Passeio Público, no Rio de Janeiro, foi até seu apartamento tentando trocá-lo por uma obra mais atual. Lá chegando, encontrou-o em frente a uma garrafa de uísque consumida pela metade. Foi bem recebido e o pintou se prontificou a trocar por outro pintado em Cabo Frio. Na frente da tela, havia um trigal em cores vivas e uma estrada; no verso, o nome da musa com um coração sangrando e as palavras: “Hoje é 1.º de outubro de 1955. Vou votar em JK”.
A paisagem era muito grande e ricamente emoldurada. Flávio ponderou que a troca estava lhe favorecendo. Ele não gostou; e disse: “Você não está gostando é da minha pintura”. Tomou-lhe o quadro, arrancou a moldura e jogou-a pela janela. Quando ia jogar a tela foi contido por Flávio. Ainda furioso, foi ao quarto, abriu as gavetas jogando pela janela as roupas da sua amada.
Eram calcinhas, soutiens que “voaram”, e muitas pessoas foram atraídas por aquela cena.
Uma reação do artista diante do amor não correspondido. Seu desespero era tanto que atiçara também pela janela a única chave do apartamento. Vieram os amigos e beberam uísque pela janelinha da porta principal do apartamento. Eles foram buscar um serralheiro, e outra chave foi providenciada. Pancetti continuava chamando por sua Stela, e esbravejava contra o mar. Era o mar que se espraiava e se descortinava da janela do seu apartamento na Praia do Leme. Assim, o mar que ele tanto amou durante sua vida foi xingado.
Uma reação de desespero de um amante abandonado, e só quem foi perdidamente apaixonado por alguém e não foi correspondido, é capaz de compreender a extensão da sua dor naqueles momentos.
O Flávio de Aquino saiu com os demais amigos, deixando-o com ás lágrimas a escorrer por sua face rude, mas que demonstrava um coração frágil, capaz de partir-se em pedaços. Foi este sentimento que Pancetti soube transportar poeticamente para seus poemas e principalmente para suas paisagens.
Pancetti não é apenas um dos maiores de nossos paisagistas, mas principalmente o que melhor soube transportar para a tela o mar. E suas telas são testemunho de um tempo que já passou, onde a calmaria de nossas praias permitia que marinheiro-pintor permanecesse horas e horas sentado num banquinho captando os detalhes para fazer suas composições sem ser incomodado. E revelam também as mudanças verificadas em sua obra depois do contato diário com as luzes e as cores vibrantes do litoral baiano. Sua presença na Bahia, e conseqüentemente, o enriquecimento de sua obra com a introdução de luzes e cores vibrantes deu-se por volta de 1948, quando aqui aportou a convite de Odorico Tavares, um grande incentivador da arte. Mas, foi em 1950, ao receber a Medalha de Ouro no Salão Nacional de Belas Artes, que ele veio e ficou. Porém, como todo marinheiro que não gosta de demorar muito no porto, ele fez ao chegar, algumas observações que provocaram desagrados. Confidenciou a amigos que não passaria por aqui mais que oito dias. Mas, o porto baiano, as praias com suas cores tropicais e a magia da Lagoa de Abaeté souberam cativar o coração deste viajante incansável. Pancetti ficou. Um ano e meio depois já se confessava um seduzido. Homem viajante e de tantas paixões estava apaixonado, e assim disse a Odorico Tavares, em dezembro de 1951. “Não saio mais da Bahia”. Suas amizades iam se sedimentando, seu amor crescendo de intensidade. Ele reconhece seu amor dizendo que “ano e meio nesta terra e as raízes crescem dia a dia. Vim para dois meses, se tanto, e o resultado é este. Estou aqui e vou ficando”.
O mar de Itapuã foi mais forte, aliado à magia de Abaeté. Foi assim que a partir de 1952 ele vai morar em Itapuã, e posteriormente numa pequena casa próxima a Lagoa de Abaeté, de onde só saiu muito doente para Campos do Jordão, e depois para o Rio de Janeiro, falecendo no Hospital Central da Marinha, em 10 de fevereiro de 1958.

FORAM SETE ANOS
O mar da Bahia nesta tela Gamboa de Baixo.              Nesta obra destacam-se as figuras imóveis  

 Foram sete anos de Bahia. Tempo suficiente para se viver um grande amor. Foi muito importante enquanto pôde durar este amor entre o pintor e a sua musa. Além das belas marinhas surgiram excelentes retratos, naturezas-mortas e paisagens, frutos deste amor que vieram engrandecer a arte brasileira.
Quantas vezes ficou horas e horas diante do espelho retratando seu rosto ossudo, com olhos ferozes e outros detalhes que revelavam ser um marinheiro destemido, que cansado de enfrentar tanto mar bravio aportou, sem querer, numa “ilha” de paz rodeada de areias brancas beijadas por ondas mansas. Esbravejou que ficaria no máximo oito dias. E ficou até o momento que sua saúde permitiu. Desta vivência surgiram não apenas suas telas, mas também poemas, e no diário que escreveu, em seus últimos dias, e no costume de marinheiro de sempre dar notícias em cada porto, resultou uma farta correspondência que nunca interrompeu.