quinta-feira, 22 de novembro de 2012

GERAÇÃO 70 VAI PINTAR O POETA CASTRO ALVES - 3 DE FEVEREIRO DE 1986.


JORNAL A TARDE, SALVADOR, 3 DE FEVEREIRO DE 1986.

GERAÇÃO 70 VAI PINTAR O POETA CASTRO ALVES


Estou de volta! Chego com uma boa notícia para aqueles que acompanham esta coluna, que já dura mais de 10 anos. Tempo este em que outra coisa não tenho feito senão promover as artes visuais baianas e seus produtores. Uma luta que a primeira vista parece ser fácil, mas não é. As alegrias são muitas, porém, os aborrecimentos também. Isto porque não se pode e não se deve agradar a todos, porque se assim procedesse estaria prejudicando o trabalho a que me propus realizar.
O que interessa é que realmente a publicação de um fato aqui tem alguma repercussão, se não momentânea, pode esperar, que algum dia terá. Isto mexe com as pessoas, incomoda burocratas enclausurados por trás das carteiras empoeiradas de academias ou de bibliotecas que exalam cheiro de mofo. Aqui eu acompanho o pulsar da vida, porque é no jornal que deságua tudo de bom e ruim que acontece na cidade, no estado, no país e no mundo. O jornal é um espelho desta vida contemporânea cheia de incertezas, fome e violência. E a arte como uma manifestação do homem reflete também este mundo.
Vejamos o rock and roll que invadiu as paradas de sucesso em todo o mundo, o movimento de transvanguarda os videoclips que nos espantam por sua criatividade.
A Casa onde nasceu o poeta é hoje um Museu vivo

Enfim todo este panorama é um reflexo do mundo atual e na qualidade de jornalista profissional participo da aldeia global escrevendo, selecionando e editando aquilo que pode mais interessar aos leitores.
Vamos agora os fatos. Fui convidado pelo secretário da Educação e Cultura, professor Edivaldo Boaventura para reunir os artistas que participam do movimento Geração 70 para apresentarem uma visão atual do grande poeta Castro Alves. Isto porque a fazenda Cabaceiras, onde ele nasceu, será totalmente reformada, inclusive a casa está sendo restaurada para funcionar como um museu vivo, promotor de eventos culturais. O projeto foi coordenado por Jacyra Oswald, que é um verdadeiro dínamo para trabalhar. Desta forma os artistas da Geração 70 mostrarão uma verdadeira síntese como eles vêem Castro Alves, hoje. Digo síntese porque é uma visão de artistas que vivem outros tempos, bem longe daqueles tempos vividos e registrados pelo poeta. As obras já estão praticamente prontas e logo depois do Carnaval serão mostradas ao público em local ainda a ser determinado por Jacyra Oswald, responsável pelo projeto. Também será editado um livro, de alta qualidade gráfica, onde as obras vão figurar, permanecendo como um documento para a posteridade. Este convite é mais um reconhecimento de que o movimento Geração 70 não parou.
Por falar nesta continuidade do movimento basta a gente dar uma olhada nos muros da cidade, nas manifestações de desagrado contra a burrice dos responsáveis pelo Cine Glauber Rocha em apagar os trabalhos dos artistas.
Achei uma grande bobagem à declaração do responsável de que “eram apenas borrões”. Mais uma prova de desconhecimento, da falta de informação, da falta de compreensão de uma obra de arte. A leitura ou decodificação de uma obra só pode ser feita se a gente dispõe de instrumentos para tal. Pelo menos é o que se pode deduzir das explicações”...
Os integrantes da Geração 70  cada um expressou na  pintura sua visão de Castro Alves

Falta de informação!O problema não para por aí. Os artistas ( a grande maioria da Geração 70) fizeram outro mural no Rio Vermelho e alguns trabalhos foram cobertos por uma tinta marrom pelo proprietário do imóvel. Agora eles colocaram uma faixa protestando e chamando a atenção dos transeuntes e vão repintar dividindo melhor o espaço, para incluir os artistas que tiveram seus trabalhos cobertos. Como podemos observar é uma luta desigual entre estes artistas e algumas pessoas insensíveis que preferem seus muros cobertos de cartazes de mau gosto, de pichações grosseiras a um mural de artistas qualificados. Tudo é uma simples questão de cultura. Muitos anos serão necessários para que essas pessoas entendam o problema. Geração 70 está ajudando a mudar.

     O ÍNDIO TIMBIRA IZAÍAS ALVES

Nunca é tarde para remediar uma dívida. Certamente não estou falando de uma dívida pecuniária.
A minha dívida é com o artista Izaías Silva, o índio maranhense que fez uma exposição na  Galeria O Cavalete. Digo uma dívida porque fui a pessoas que o apresentou a Jacy Brito, esta cidade que tanto tem contribuído para o desenvolvimento das artes plásticas baianas, promovendo exposições e revelando novos valores. Ela compreendeu a simplicidade da obra do Izaías e promoveu a exposição do índio timbira no mês passado.
Deixo aqui para os leitores algumas palavras que escrevi no catálogo do Izaías:
“Estamos vivendo momentos onde a nacionalidade recomeça a ser enaltecida. A nossa bandeira e as cores verde e amarela que não eram aceitas, agora estão sendo cultuadas com mais fervor. Tudo isto furto de uma abertura política que inicia a dar os seus passos em busca da democracia. Estas palavras reforçam exatamente a presença de Izaías Silva nas artes plásticas brasileiras. Um índio que retrata as nossas florestas e seus habitantes. Um artista inato que brotou uma seringueira que cresce e lança seus galhos em busca da luz. E, Izaías, é um batalhador incansável, uma pessoa simples e sensível que transborda com suas cores fortes naturais retratando este mundo primitivo que ainda resta em determinados locais.
Agora Izaías volta a expor em Salvador, desta vez numa individual mostrando o que fez de novo, onde a beleza indescritível da fauna amazônica está traduzida nas cores vibrantes que o artista irradia por este Brasil afora.
Izaías está sempre viajando, enfrentando e desafiando dificuldades em busca de novos espaços para apresentar o seu trabalho. É um índio nômade que mora em Fortaleza, no Maranhão, na Bahia, no Recife, enfim em qualquer cidade que o acolha, e onde exista gente sensível para entender a sua obra. É uma manifestação do próprio ser do índio que sempre saía em busca de melhor alimentação e local seguro para estabelecer por algum tempo a sua moradia. O nomadismo de Izaías está intimamente ligado a sua necessidade de mostrara um maior número possível de pessoas sua arte.