terça-feira, 27 de novembro de 2012

HÉLIO BASTO ESTÁ DOENTE E AFASTADO DAS GALERIAS -23 DE ABRIL DE 1984

JORNAL A TARDE, SALVADOR, 23 DE ABRIL DE 1984.

HÉLIO BASTO ESTÁ DOENTE E AFASTADO DAS GALERIAS

Esta bela mulata pintada por Helio Basto
A Bahia é uma terra pródiga em gerar excelentes artistas de teatro, cinema, música, literatura e artes plásticas. Porém, a capacidade que possui para criá-los não funciona para mantê-los em seu solo e dar-lhes o verdadeiro reconhecimento. É o caso do artista plástico Hélio Basto, um dos indiciadores da corrente modernista na década de 50, movimento que revolucionou as artes plásticas baianas, até então ainda presas ao academicismo provinciano.
Afastado das galerias de arte desde 77, Hélio Basto dedica-se atualmente a realizar trabalhos para clientes, depois de passar por um período difícil, em que esteve doente. O pintor vive hoje num apartamento alugado de um único vão em São Pedro, no centro da cidade, cercado de tintas, pincéis, telas e muitos discos. Nas paredes úmidas devido à infiltração de água, apenas três de seus quadros. Poucos móveis compõem o ambiente.
O artista revelou, no entanto, que sua situação atual não é circunstância, e sim opção: “dá para sobreviver, não tenho ambição de dinheiro. O apartamento é alugado propositalmente. Já tive um próprio, mas não gostei da idéia e me desfiz. Os pintores preferem ostentar status, e eu sempre gostei de morar em oficinas, de viver autenticamente como um artista”. A não ser quando não está trabalhando, o que faz até altas horas, raramente sai de casa. Disse se sentir recompensado, sobrevivendo a 25 anos da profissão, embora não se considere realizado, “porque um homem nunca se realiza”.

FASE SURREALISTA
Hélio Basto nasceu em Salvador em 1934. Começou a dar os primeiros traços aos 16 anos. Freqüentou a Escola de Belas Artes da UFBa., a qual não chegou a concluir por não achar o ensino satisfatório. Em 56, participou da mostra Artistas Modernos da Bahia, na Galeria Oxumaré, que renovou totalmente a pintura acadêmica baiana. Era o auge do movimento cultural na Bahia, sob o incentivo constante de Edgard Santos. Apesar do movimento já ter acontecido em São Paulo na Semana de 22, os baianos não aceitaram a pintura moderna, a ponto de rasgar quadros na exposição. Como não era uma pessoa polêmica, Hélio preferiu se isolar, seguindo para o Sul, onde seria aceito.
Na capital paulista fez cursos no Museu de Arte Moderna com os professores Walter Levy e Berko Udler, desenvolvendo uma fase surrealista-existencialista entre 56/60. Nesta época, seus quadros retratavam a atmosfera de sofrimento silencioso e a devastação da morte, com uma significação densa e profunda. A revista Habitat, sobre pintura e arquitetura, escreveu: “a série de quadros surrealistas que ele realizou achamos importantíssima e significativa, mesmo para a História da América Latina e Católica”. Desta fase possui dois quadros no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, que pertenceram ao crítico de arte Theon Spanudis. São eles: Ruínas (55) e Busto (57).

FASE RETRATISTA

Seguiu-se de 60 a 63 a sua fase retratista, sobre a qual discorreu Jorge Amado no livro Baía de Todo os Santos: “seu mundo é poético, quase irreal, mundo de criança desabrochada em espanto diante da vida. No silêncio translúcido, Hélio Basto traz uma flor na mão, sobrevoa um velho quarteirão da cidade”.
Nesse período, realizou uma mostra individual no Museu de Arte Moderna do Texas, nos Estados Unidos, em 61, e Grandes da Bahia, em 69, no Rio. De passagem pela Bahia, o famoso Arthur Hailler, autor da série de livros e filmes Aeroporto adquiriu dês de seus trabalhos. Fez um retrato de manequim Veruska, que possui 25 quadros de sua estória em sua casa de Roma.
Realizou ao todo 28 exposições, a última na Galeria Credicard, em 77. Interrompeu a fase de retratista evoluindo para uma pintura interessada pela forma, cor e ritmo.
Hélio Basto com um gato e duas telas de sua fase surrealista
Atualmente sua atividade está centrada em enormes painéis para empresas particulares como o Bamerindus, que tem trabalhos seus no acervo da sede do Paraná. O pintor revelou que não possui prêmios porque, por temperamento, “nunca fui de buscar, concorrer em salões de arte. Meu prêmio é a evolução da minha pintura e a continuidade dela”.

ARTISTA INDEPENDENTE

A importância da presença de Hélio Basto nas artes baianas está sendo resgatada pela professora de História da Arte da UFBa,. Vânia Carvalho, que prepara um livro sobre vida e obra do pintor. No seu entender, “trata-se de um artista independente. Não está ligado a grupo ou tendência, mostrando uma coerência incrível. Sentimos sua evolução dentro da linha de continuidade. Ele sempre se manteve da arte com dignidade, sem fazer concessões”. Informou que Hélio é um nome conhecido nacional e internacionalmente, tendo iniciado o modernismo juntamente com Carlos Bastos, Mário Cravo, José Pedreira e o pessoal que freqüentava a boate Anjo Azul, na Rua do Cabeça.
Segundo Vânia Carvalho, o trabalho do artista hoje mostra um grau de maturidade onde se caracteriza uma tendência construtiva com certo geometrismo, inclusive com relação a espaço e forma. Tudo harmonicamente equilibrado com o colorido das linhas.
Como homem, ela acredita que o pintor “se sente meio desambientado da Bahia de hoje, angustiado com a imagem de sua terra que não é a mesma de tempos passados. Como se a Bahia tivesse perdendo a sua alma."
Como artista sensível, ele se preocupa e ao mesmo tempo é vítima da nossa realidade desumana. “Nessa desumanidade, a Bahia não reconhece seus verdadeiros valores”.
Para a artista plástica Yedamaria, uma de suas grandes alegrias é ter um retrato seu pintado por Hélio, há 20 anos, “uma pessoa que estimo e admiro por seu trabalho coeso”.
Afirmou que depois do modernismo, nada mais aconteceu em termos de respeito aos artistas que foram surgindo. Na sua opinião, “isso dificulta o aparecimento de novos valores. As pessoas saem da cidade para fazer respeitar o seu trabalho” (Colaboração de Eduardo Jasmim Tawil.)

          UMA EXPOSIÇÃO DA INFLUÊNCIA PORTUGUESA

Para organizar os seis grupos de estudos que vão fazer a pré-seleção das obras de artes brasileiras a serem incluídas na exposição Circulação das Formas na Arquitetura dos Países de Expressão Portuguesa, no período de 1557 a 1816, promovida pelo Ministério da Cultura da França, esteve no Brasil o professor Pierre Leglise-Costa, catedrático da História da Arte do Brasil e de Portugal.
Antes de viajar a Paris, Leglise-Costa, um francês, filho de brasileiro, que morou em Portugal 15 anos e atualmente radicado na França, explicou que em nosso país foram criados grupos de estudos em São Paulo, no Rio, em São Luiz, em Salvador e em Belo Horizonte que vão apontar os objetivos, as peças artísticas, as maquetes, as fotografias e o material iconográfico que junto com os de Portugal, da África, da Índia, da China e da Malásia vão reconstituir a história da dominação portuguesa do século XIV ao XVI.
“A nossa idéia”- acrescentou, é a de mostrarmos ao público francês uma noção exata do que foi a denominação de Portugal e a influência que este país teve em séculos passados, assunto, que sabemos, é completamente desconhecido dos estudantes e até de alguns estudiosos franceses. “A exposição, que deverá ser itinerante vai ser montada, primeiro, na capela de Salpetriere, uma construção do século XVII, em Paris”.
Segundo ele, a exposição vai mostrar, também, a influência do mundo ocidental no oriental e vice-versa: “Escolhemos 1557 porque a partir deste ano, que coincide com a fundação de Macau e com a morte do rei D. João III, o império português já estava consolidado e sua cultura influenciava decisivamente todas as colônias. E resolvemos abranger o período até 1816, que é o ano da chegada ao Rio da Missão Francesa e o da morte de D. Maria I”.
A exposição, que vai se tornar possível graças a uma proposta apresentada pela Associação para o Desenvolvimento de Estudos e da Cultura de Portugal e do Brasil, em França.

   OBRAS DE JEAN COCTEAU SÃO EXPOSTAS EM PARIS

Paris (AFP) - Execrado em vida pelos mais intransigentes “enciclopedistas” do momento, Jean Cocteau, uma das grandes figuras do parnasianismo francês deste século, renasce das suas cinzas em Paris com uma exposição gráfica de suas obras que é, ao mesmo tempo, uma original e desconhecida visão do mundo das artes e das letras.
Auto-retrato de Jean Cocteau
No entanto, o interessante desta exposição - Jean Cocteau e as Artes Plásticas -  realizada no Pavilhão das Artes do Centro Pompidou, não são os seus afrescos ou os seus cartazes para os ballets russos de Diaghilev, mas a história do começo de sua carreira, lá por volta de 1910, em modestas revistas ilustradas da época.
E quando, por exemplo, Cocteau dedica-se a poesia, ao jornalismo a edição e a música, freqüenta Catulo Mendes, Apollinaire e Max Jacob e, dispensado pelo exército na Primeira Guerra Mundial, escreve O Discurso do Grande Sonho fundando com Paul Iribe a revista A Palavra, onde assina seus desenhos e cartuns com os pseudônimos de Japh e Jim. Cronologicamente, Cocteau nasce antes para o desenho do que para a poesia, apesar de em suas primeiras obras o peso específico da prosa ou dos poemas parecer desbancar o desenho. “Os poetas, dizia em álbum intitulado exatamente Desenho, não desenham, desatam a escrita para em seguida reatá-la de forma diferente”.
Em Ópio, relato ilustrado de uma de suas curas de desintoxicação, ele confirma a sua notória pré-disposição pelo desenho e pelo expressionismo e seu marcantes gosto pelo insólito e pelo fantástico, muito antes de abordar a arte mural que será finalmente a expressão plástica dos últimos 15 anos de sua vida. Édipo e Orfeu são as duas maiores figuras de sua mitologia pessoal, não é provavelmente por influência da Grécia do que da do surrealista italiano Giorgio de Chirico, mas são indubitavelmente os seus desenhos eróticos os que mais impressionam e atraem o público, notoriamente interessado no lado pecaminoso de sua vida.
Durante 12 anos, de 1951 até a sua morte no dia 11 de outubro de 1963, Cocteau escreveu o dia-à-dia de sua vida, que festivamente chamou O Passado Definido. Antes, num relato autobiográfico que escreveu sem maiores pudores, embora não o tenha assinado, o autor de O Sangue dos Poetas, assumiu perante si e a sociedade a sua condição de homossexual.