sexta-feira, 23 de novembro de 2012

UM TRIO DE GÊNIOS MARCOU A PRESENÇA DA CATALUNHA - 21 DE JANEIRO DE 1984.

JORNAL A TARDE, SALVADOR, 21 DE JANEIRO DE 1984.

UM TRIO DE GÊNIOS MARCOU A PRESENÇA
DA CATALUNHA
Miró vivia quase isolado produzindo 
Paris (AFP)- De todos os pintores do século XX, o espanhol Joan Miró, que morreu no último dia 25, aos 90 anos, em sua casa de Palma de Majorca, foi sem dúvida o único, junto com o francês, Matisse, que manteve contato com as novas gerações de artistas.
De Jackson Pollock a Tapies, são muitos os pintores contemporâneos que reconhecem o que devem a este eterno pesquisador da arte, cuja evolução só terminou com a sua morte.
Na verdade, em cada retrospectiva, Miró desejava que as suas novas obras marcassem um equilíbrio com as anteriores, pois temia ser considerado um pintor oficial, um pintor de passado. A pintura gestual, a arte da harmonia, a abstração lírica devem muito a um artista que jamais deixou de repetir que “a pintura está em decadência desde o tempo das cavernas”. Homem simples, Miró escondeu-se toda a sua vida atrás de seu trabalho. Ao contrário de Pablo Picasso, sua vida praticamente não deu motivos para piada. Pequeno, frágil, o rosto redondo e delicado, Miró sempre cuidou da sua pessoa como um Dandy, e nada demonstrava o artista revolucionário que fixou como objetivo no início de sua carreira, “assassinar alegremente a pintura”.
O primeiro período de Miró foi marcado por um profundo senso do detalhe. Pinta a Catalunha, os vinhedos, as terras lavradas, as fazendas, os pássaros, as montanhas distantes. Nessa época, Miró já estava em busca de um vocabulário e nestas cenas agrícolas Marcel Duchamp descobriria “um sentido marcado da intensidade irreal”. O escritor Hemingway comprou de Miró o quadro mais representativo deste período: “La Granja”. “Há nesse quadro, dizia Hemingway, tudo o que se sente quando se está na Espanha e, também, tudo o que se sente quando já não se está mais e se gostaria de estar. As personagens de seu  país natal transformam-se em criaturas de contos de fadas, em símbolos. A árvore, o caracol, a lagartixa têm uma alma”.
No entanto, foi em Paris que nasceu outro Miró. Numa pequena galeria da esquina da Rua Vavin e Di Boulevard Raspail, o pintor catalão viu vários quadros de Paul Klee que o fizeram compreender que existia outra coisa além da pintura. A partir deste momento os quadros de Miró serão as imagens de seus sonhos. Em 1930, ele declarou: “Não desenho mais coisas reais”.
Neste momento, Miró começou a remontar o curso do tempo, a volta à infância da arte e inventa uma linguagem muito simples feita de símbolos: o pássaro, o sexo feminino, as estrelas, o sol, manchas de cor sobre um fundo branco. Com esta linguagem limitada a sua obra escapa de qualquer definição e progressivamente conquista o mundo.
O enterro de Miró com  todas as pompas oficiais.
Como escultor Miró criou personagens estranhos, mulheres com cabeças de pássaros, monstros bons que revelam a riqueza de seu universo mental. Miró abordou todos os estilos, e a cerâmica encontrou um meio de se expressar particularmente rico. Miró não se renovou em seus temas, mas nas técnicas com as quais se expressou. Aos 80 anos fez o seu primeiro vitral e sua escultura e realmente a obra mais característica de sua velhice. O êxito, a notoriedade não modificaram a simplicidade de um homem que, no final de sua vida, contemplando a sua obra, por ocasião de uma grande mostra retrospectiva, dizia: “Trabalhei honestamente, não fui uma prostituta como muito outros pintores”.
Esta ausência de vaidade, esta recusa a cumprir um papel, deixaram livre a sua capacidade de ser infatigável artesão.
Quando fazia uma litografia ou um desenho, Miró, jogado no chão, passava com delicadeza um dedo na pintura: “Se fizer isto com o pincel, é o fim”, comentava o velho pintor.
Esta pintura gestual cada vez mais negra foi a última descoberta deste pudico pintor que nunca quis lamentar-se, mas cujo universo estrelado não parava de escurecer.
A marca  do gestual de Miró 

As retrospectivas se multiplicam e Miró compõe uma série de obras novas para cada uma delas.
Após uma segunda retrospectiva no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (1959), Miró expõe na Tate Gallery, de Londres (1963), em Barcelona (1968), em Munique (1969), em Cleveland e em Paris (1974).
Em 1975 inaugura em Barcelona a Fundação Miró, organizada por seu amigo José Luís Sert, arquiteto da Fundação Maeght. O núcleo da coleção é formado por telas reunidas por Joan Prats, também amigo do pintor, ao longo de sua vida. Miró completa o magnífico acervo de 150 telas, gravuras e desenhos.
Nos últimos anos, cansado e freqüentemente adoentado Miró continua trabalhando sempre e avançando permanentemente em sua obra. Só a morte, aos 90 anos, conseguiu interromper essa incansável busca.

              DALÍ ESTÁ ADOENTADO E QUER MORRER

Em 1979 Dalí ainda exibia muito vigor
Pujol, Espanha (UPI)- O pintor Salvador Dali quer morrer.Debilitado e deprimido, o mestre do surrealismo espanhol se enclausurou num velho castelo onde agoniza pensando na imortalidade, na teoria matemática e na banalidade humana.
Dono ainda de seu próprio destino, o mestre escolheu três amigos para serem testemunhas de seu lento caminhar para a morte.
Estes amigos -o pintor catalão Antonio Pixol, o historiador da arte francês Robert Descharnes e o advogado espanhol Miguel Domenech- o suportam, reverenciam e ocasionalmente o enganam.
Dali não quer visitantes no castelo. Com 79 anos de idade, ele aprecia sua solidão, sua depressão e seu tipo original de gênio ou de loucura.
Durante uma rara entrevista no castelo de Dali, Pixot, Descharnes e Domenech falaram de seu amigo com afeição e também com tristeza. Desapareceram os vestígios do impetuoso empresário de espetáculos que se deleitava com suas chocantes esquisitices, desapareceu seu impulso criador. Desde a morte de sua mulher Gala no dia 10 de junho de 1982. Dali não saiu mais do castelo Gala, morreu com 91 anos.
O castelo, que Dali deu a sua mulher, é um verdadeiro santuário dedicado a sua memória, com a inicial do nome de Gala em todas as portas. O salão principal apresenta no teto abobado sobre uma espécie de altar há um crucifixo envolvido em folhas de alumínio, uma espada e um revólver.
Gala, trajando um vestido longo e esvoaçante e com as asas de anjo, aparece sobre as nuvens em cima da porta do quarto.
Em frente à entrada principal do castelo, há uma porta pintada que não leva parte alguma ou pretende levar ao infinito.
Dali, recentemente proclamado Marquês de Pujol, jamais se atreve a visitar seus súbitos, camponeses ocupados demais com seus porcos e seus filhos para se impressionarem com o drama do pintor, que há 18 meses vive oculto no castelo, pendurado como uma cidadela junto ao bucólico povoado, no Norte da Espanha.
Os dias e as noites do pintor estão confinados ao seu quarto e as duas pequenas salas, cujas janelas estão perenemente fechadas. Seu próximo passeio pelo castelo poderá ser quando for levado a cripta construída no porão, para fazer para sempre ao lado de Gala.
Os amigos de Dali dizem que a saúde do mestre, embora delicada, tem sido estável e que ele não sofre nenhuma doença grave, embora pese apenas 48 quilos. A imprensa disse que ele sofre da doença de Parkinson e de arteriosclerose.
“Pouco a pouco ele vai definhando” disse Domenech . Pitxot acrescenta que o mestre está sofrendo”.
Nenhum de seus três amigos – um deles pelo menos está sempre no Castelo, consegue levantar-lhe o ânimo e o instinto criador.
“Ele se refugia em seu silêncio, em suas elucubrações ou nos poucos desejos desejos de fazer alguma coisa”, disse Pitxot.
“Dali está sempre muito consciente de seu próprio pensamento”, diz Pitxot. “Suas obras sempre exprimem suas experiências mais íntimas e transcendentais.Agora ele está muito confinado em si mesmo, dentro de suas paredes, dentro do seu mundo interior, contemplando seu lento processo – eu não diria de desaparecimento, mas sim de abandono das coisas vitais”, disse Pitxot.

Esta obra  obra mostra a sua grandeza
Dalí um dos mais ricos artistas vivos , é atendido dia e noite por quatro enfermeiras que se revezavam ao seu lado. A aversão de Dalí em receber visitas tem origem em parte à sua vaidade: “ele não quer que ninguém o veja neste estado”.Ele quer também viver isolado depois de uma vida vivida inteiramente aos olhos do público.
Pitxot disse que quando a saúde de Dalí começou a definhar há alguns anos, ele se preparou mentalmente para a morte e agora deseja morrer.
Raramente evoca as lembranças do passado, pois “ estas lhe causam sofrimento”. Só lamenta não ter entendido a teoria Matemática – um de seus desejos insatisfeitos. No mês de março, o matemático norte americano Thomas Banchoff , da Universidade de Rhode Island , veio visitá-lo. Apesar de tudo isto “Dalí é um homem surpreendente”, diz Pitxot. Algumas de suas frase ainda causam espanto por sua lucidez, seu brilho. Ele é um homem de verdade, um humanista, um arrogante humanista”.
Embora ainda haja muita procura de obra do famosos pintor, ele não está mais interessado em produzir ou vender. “ Não me aborreçam com estas pequenas misérias”, diz a seus amigos.
Um estúdio localizado dentro do Castelo há grande número de obras de Dalí que futuramente serão transferidas para uma Fundação que ele e seus amigos estão criando perto de Figueiras, sua terra natal. Por enquanto, um destacamento da guarda civil espanhola vigia permanentemente o precioso estúdio do pintor.