sexta-feira, 2 de novembro de 2012

LATINOS BRILHAM NA 19ª BIENAL SÃO PAULO (II) - 02 DE NOVEMBRO DE 1987.


SALVADOR SEGUNDA-FEIRA, 02 DE NOVEMBRO DE 1987.

LATINOS BRILHAM NA 19ª BIENAL SÃO PAULO ( II )

Fiz uma ligeira referência no artigo da semana passada sobre a presença dos latinos americanos na 19ª Bienal Internacional de São Paulo. Hoje, pretendo falar um pouco sobre algumas delegações de países latinos enfocando alguns de seus representantes. Para iniciar este trabalho podemos começar falando da obra de Gustavo Nakle, do Uruguai, que apresenta oitenta figuras quase de tamanho natural que gravitam entre os labirintos das três Estações: o Juízo Final, os Banheiros e o Paraíso. 
Ao lado, O Senhor absoluto que enxerga todo o beme todo o mal do Universo.
Na passagem do Juízo Final estão 24 figuras, pobres em cores, deliberadamente, sob às ordens de um Deus Superior, segundo explica o artista. A figura traz nas mãos um bode. Na passagem dos Banheiros encontramos um homem em completo estado de metamorfose passando para o estado vegetativo ou seja se transformando numa árvore-homem arborescente- em cujos galhos estão distribuídos pássaros antropomorfisados. No Paraíso, cerca de cinqüenta figuras, sendo 10 delas suspensas do teto, rodeiam uma gigantesca Árvore da Vida. Quase todas as figuras apresentam os órgãos sexuais transformados em frutos. Podemos sentir aí a presença da identidade religiosa tão fortes entre entre os povos do Terceiro Mundo. Uma influência que brota do inconsciente e, o artista, por mais que tente libertar-se com a introdução em profusão de órgãos sexuais que contrastam, e, até se chocam, com esta influência mística, mas vence a religiosidade diante do seu denso conteúdo.As figuras grotescas passam a ser vistas como abomináveis, enquanto os anjinhos de bochechas gordas dos templos religiosos são vistos dentro de uma ótica de beleza celestial e pureza.
A Argentina está representada por Luís Benedit, Américo Castilla, Gustavo López Armentía, Clorindo Testa e Antonio Seguí. O curador da representação portenha abre sua apresentação citando o escritor dominicano Pedro Henríquez Ureña: El ideal de justiça está antes que el ideal de cultura; es superior el hombre apasionado de justicia al que solo aspira a su propia perfeccion intelectual”. Fala ainda de que estamos acostumados a identificar sempre a utopia como uma fantasia impossível e que isto é muito falso. Ela (utopia) antes, de tudo se baseia na realidade do esforço humano. Cada uma das telas simboliza a própria utopia dos artistas, que partiram de uma imaginação que foi concretizada e continua a sua trajetória com a presença dos espectadores, cada um fazendo uma leitura diferenciada. Das obras expostas as que mais me interessaram foram as obras de Gustavo López Armentía com uma predominância do grafismo, onde a figura humana  aparece bem pequena em relação aos demais elementos que compõem as suas telas.
O Chile está representado por Patrícia Figueroa, Roberto Dannemann, Diego Hernández e Marcelo Larraín. Os trabalhos de Patrícia lembram os realizados por artistas cariocas da nova geração.São pinceladas espontâneas sem a preocupação em dar uma definição exata dos objetos focados, deixando que a imaginação prevaleça, baseada, certamente, que hoje em dia a máquina fotográfica faz o papel de transportar para a celulóide e depois para o papel as imagens de realidade que nos cerca. Ela enfoca a tragédia contemporânea, a corrida insana dos armamentistas, os mísseis fantasmagóricos que podem nos calar da noite destruir a humanidade. Já o Roberto Dannemann não gosta de ser considerado um conceitual, mas podemos dizer que tem uma pintura marcante pelos desafios que se propõe sem estabelecer conceitos ou paralelos. A intuição comanda a sua obra.
O Diego Hernandez deseja que “essa terrible energia que poseo se ponga a disposição de uma buena causa. Si sigo buscando la matéria prima em mi propia existência corro el riesgo de perderme definitivamente”, Suas imagens estão fora do alcance de nossa retina, do ponto de vista da normalidade. Mas o que é a normalidade? É uma postura de conceitos que se sobrepõem a imaginação. Diego faz uma verdadeira radiografia penetrando no centro de energia humana buscando captar novos espaços.
No entanto o que mais me sensibilizou foi o Marcelo Larraín porque o conjunto de obras que apresenta além da qualidade pictórica invejável nos transporta a reflexão. Cada tela é como um livro aberto impregnado de ensinamentos. Sua obra não pode ser vista simplesmente com uma visão contemplativa, pois comporta uma reflexão mais profunda do próprio conhecimento humano.
(Santiago, Chile, 1956) Em seu trabalho, estão sempre presentes as contradições sociais e a questão de poder na América Latina. Participou da 18ª BISP, dentro da mostra “Entre a Ciência e a Ficção”, com a instalação “Tancredinho Mon Amour”. No ano de 1985, Fez um levantamento fotográfico sobre as condições de vida e os conflitos em Serra Pelada. O resultado deste trabalho foi exposto em Nova York com o título “Welcome to the World”. Participou da Bienal de Veneza de 1986 e da Documenta de Kassel de 1987. reside em Nova York desde 1982.
A instalação que apresenta na 19ª BISP discute a produção brasileira de equipamentos bélicos dentro de nosso contexto político, econômico e cultural.É artista convidado da 19ª Bienal Internacional de São Paulo.
Paraguai - Os paraguaios Jorge Codas, Gabriel Brizuela, Lúcio Aquino, Félix Toranzos e Viviana Campos, todos apresentam um trabalho dentro da tendência contemporânea, fincados nas raízes de seu pequeno País. Viviana não se pode enquadrá-la dentro de uma corrente definida, diante de suas experiências no campo da pintura. Uma pintura de forte tendência abstracionista interligada por toda uma ambientação lírica.
Peru - O Antonio Máro representa o Peru.O pintor nasceu em Catacáos, lugar desértico, no norte do Peru, o que vem demonstrar que ele além de enfrentar dificuldades comuns aos demais latino-americanos num país do Terceiro Mundo ainda foi nascer numa região inóspita.
Com isto vemos em sua obra a sua determinação em representar os fantasmas que sempre o acompanharam desde a infância. Tem forte influência de Willi Maumeister, seu mestre europeu, além da cultura pré-hispânica. Sua obra mostra a persistência destemida de um criador com suas deformações e grandes manchas ricas em cor entremeadas de linhas. No final um conjunto harmônico, como frases soltas numa folha de papel branco, mas que se casam. Juntas tem a força e o lirismo de um poema multicolorido. Nesta inter-relação sobressai o pintor- poeta que gosta de grandes espaços.
O peruano Chávez com “Mitologias do Futuro” que, segundo Edouard Gilssant, existe provavelmente um lugar onde se encontram as trêmulas lembranças dos homens para se confundir e se fixar, cada uma no seu irrefutável mistério, todas numa só inquietante e solar claridade. As histórias convergentes dos povos reclamam este lugar focal, nosso imaginário reúne-se aí difusamente, nossas vontades buscam nele se nutrir. Não conhecê-lo ou advinha-lo nos paralisa. Se chegarmos a surpreender seu brilho, nossos trabalhos e nossos dias são assim multiplicados.
Labirinto, de Chaves, com  o imaginário de suas raízes.
Tenho dito por aí afora que o medo da morte é o suporte maior de toda a tendência ao imaginário religioso. O sonho em ter uma vida melhor é o consolo dos fracos. E o imaginário tem sido um traço marcante n humanidade, desde os tempos em que o feiticeiro da tribo utilizando de sua inteligência dominava o forte guerreiro. Com suas ameaças sobrenaturais e os guerreiros lhe prestavam obediência e o temiam. Assim, garantia o seu poder na tribo. Hoje, a coisa não é muito diferente. Aumentou o número de feiticeiros e as tribos se multiplicaram aos milhões. Mas tudo continua como dantes e este imaginário é uma marca forte na manifestação plástica.
Porto Rico - Quero falar dos portorriquenhos, tão discriminados em New York e outras cidades americanas para onde procuram fugir da miséria estabelecida em seu pobre país. Porto Rico trouxe Luiz Afonso, Myrna Báez, Raimundo Figueroa, Domingo Garcia, Antonio Martorell, Arnaldo Roche, Júlio Rosado Del Valle, Nelson Sambolin e Jaime Suarez.
A solidão de uma mulher despida e seu gato, de Myrna Báez.
Luiz Afonso, Myrna Baez, Antonio Martorell e Nelson sambolin estão de certa forma aglomerados porque, embora pertençam a gerações diferentes, são gravadores. Além é claro de apresentarem uma certa identidade na temática de suas obras onde personagens solitários nos levam à reflexão da solidão do ser humano diante da sociedade e do mundo que nos rodeia. Já Domingo Garcia e Júlio Rosado Del Valle são mestres da pintura expressionista e da nova figuração que está acontecendo em todo o mundo. O Jaime Suarez é um ceramista-escultor.
México - David Alfaros Siqueiros (Camargo Chihuahua, México, 1896- Cuernavaca Morelos, México, 1974).Chegou à cidade do México em 1907 para estudar com os padres maristas. Ingressou na Escola Nacional de Bellas Artes em 1911. Colaborou com o constitucionalista La Vangardia em 1913 e, no ano seguinte, entrou para o Exército.
Constitucionalista, chegando ao posto de capitão. Seguiu para a Europa com uma bolsa de estudos em 1919, fixando-se em Madri e em Paris, onde conheceu Diego Rivera, Retornou ao México em 1922.Seu trabalho vem sendo exposto desde 1925.
Entre suas principais individuais constam: 1944, El drama de La Guerra em La Pintura Mexicana, Palácio de Bellas Artes, México, DF; 1950, XXV Bienal de Veneza; 1953, Exposicion de Arte Mexicana-Tate gallery, Londres; 1956, Exposicion de Arte Mexicana, Antiguo Palácio Imperial de Pequim; 1958 Primeira Bienal Interamericana de Pintura y Gravado-Palácio de Bellas Artes, México, DF;1962, obras Maestras Del Arte Mexicana; Petit Palais, Paris.
Realizou, entre outras, as seguintes individuais: 1933, Siqueiros- Círculo de Bellas Artes, Montividéu; 70 Obras Ricientes, Museu Nacional de Bellas Artes, México, DF; 1962, David Alfaros Siqueiros, Emabixada do México, Tóquio. Seu primeiro mural “Los Mitos”, data de 1922 e foi feito no Colégio Chico da Escola Nacional  Preparatória. Inaugura uma longa lista de murais que refletem suas preocupações políticas. Entre suas obras figuram: O Enterro do Operário, 1923, Escola Nacional Preparatória, Cidade do México; Chamado da Liberdade, 1924, Escola Nacional Preparatória, Cidade do México; América Tropical Oprimida e Destroçada pelo Imperialismo, 1932; The Plaza Art Center, Los Angeles; Morte ao Invasor, 1940, Escola México de Chillas, Chile; Alegoria da Igualdade e Fraternidade das Raças Branca e Negra e Novo Dia das Democracias,1943, Havana, Cuba.
Exerceu intensa atividade política como soldado constitucionalista, publicando artigos em revistas e editando periódicos, proferindo conferências, organizando sindicatos de artistas e movimentos de operários. Sua militância custou-lhe o exílio em 1933 e várias vezes a reclusão ao cárcere.
 São apresentadas na 19ª BISP quatro pinturas feitas entre 1935-1956: Chichen Itza, Exposição da Cidade, Antenas Estratosféricas e Aeronave Atômica, onde aborda os avanços científicos da época, transitando entre o real e o irreal. Nesse processo, restaura as grandes cidades maias devastadas pelo conquistador, atribuindo-lhes um esplendor diferente do que tiveram e esboça visões do futuro semelhantes a pesadelos determinados pelo poder destruidor, representado pelo avanço tecnológico.