domingo, 11 de novembro de 2012

A OXUM MAIS BONITA - 18 DE AGOSTO DE 1986

JORNAL A TARDE, SALVADOR, 18 DE AGOSTO DE 1986.

            A OXUM MAIS BONITA
O velho Carybé chegou apressado. Debruçou-se sobre o caixão de Mãe Menininha, acariciou seu rosto com ternura despedindo-se da amiga, da conselheira, da sacerdotisa que enfeixava todo o saber do candomblé que ele tanto acredita e freqüenta desde que aqui chegou. Vestido de branco, como determina a religião, Carybé entristecido recolheu-se a um dos bancos, que circunda o interior do Terreiro de Gantois, e com as mãos cruzadas entre as pernas relembrava a Mãe Menininha rodeada de filhos e filhas de santo reinando não apenas nos limites do Gantois, mas também em todos os recantos onde o candomblé se faz presente. Respeitada e admirada, Mãe Menininha tinha sempre nos lábios um sorriso, e era extremamente terna. Lembro das várias vezes que a entrevistei para a revista Manchete, e mesmo para A Tarde, dos seus ensinamentos, das suas palavras sempre otimistas para os que lá chegavam para ouvi-la. Humilde, sempre dizia que “não sou aquilo que o povo diz, porque quem tem força é Deus e os Orixás”. Mas, como sacerdotisa Mãe Menininha deixa uma lacuna impossível de ser preenchida e esta expressão de Carybé eternizada nesta foto de Arestides Baptista pode ser multiplicada por várias vezes porque é a expressão de dor e de saudade que ficou entre os seus seguidores e admiradores.
Eu não sou de candomblé, mas aprendi nos contatos que mantive com Mãe Menininha a admirá-la pelo que ela expressava e pela áurea de sabedoria e bondade que deixava derramar sobre todos aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-la. Era difícil chegar até ela, porque suas filhas procuravam resguardá-la dos incômodos e da curiosidade de turistas ávidos por souvernirs. Já idosa, nada mais justo do que protegê-la dos inconvenientes, e, também, para que pudesse na tranqüilidade do seu quarto continuar cultuando seus orixás. Foi-se a mais bela Oxum da Bahia, a ialorixá mais doce e de maior sabedoria, deixando muitas saudades.
                                  Nesta foto vemos Dorival Caymmi,Jorge Amado e Carybé com Mãe Menininha.
Aqui ela sempre será lembrada principalmente, no dia 10 de fevereiro quando seus parentes e amigos subiam ao Gantois para reverenciá-la na data do seu nascimento. Menininha será sempre uma presença nesta Bahia mística cheia de segredos e magia.

CARYBÉ NO DESENBANCO

Carybé tem sua obra apresentada numa retrospectiva no Núcleo de Artes do Desenbanco, que está completando 20 anos de fundado. A exposição intitulada “As artes de Carybé: pintura, desenho, gravura e escultura”, por si só já demonstra a desenvoltura do velho Carybé que tem seu trabalho muito ligado as coisas da Bahia, a sua gente simples, marcada por uma presença africana.
Não se pode pensar na obra importante de Carybé sem esta ligação, sem esta presença das coisas da Bahia. É como bom desenhista ele sempre soube captar, em poucos traços, todo este clima mágico. Quanto ao candomblé, do qual é Ogan, o velho Bernabó sabe respeitá-lo, cultuá-lo e referenciar seus sacerdotes e sacerdotisas. Do alto de sua experiência de vida vai construindo esta obra inesquecível e importante não apenas do ponto de vista plástico, mas também documental, porque ele capta em seus desenhos situações que ocorrem nos terreiros, nas feiras livres ou nas praias. São os pecadores, ao cavaleiros, os vendedores ambulantes, os feirantes, as baianas com suas saias rodadas que povoam o seu mundo pictórico baiano-africano. Com certeza Carybé, este argentino que impregnou-se de baianidade, é o mais africano de nossos artistas.

                     CLARISSA NA GALERIA DO ALUNO

A estudante de Belas-Artes, Clarissa, atualmente auxiliando a coordenação da Galeria de Arte da ACBEU, vai expor a partir do próximo dia 20, com vernissage às 18 horas, na galeria do Aluno. Esta galeria fica na Escola de Belas Artes, e é um espaço importante para os que estão iniciando na difícil profissão de artista. A galeria está oferecendo ao autor do melhor trabalho apresento no decorrer do ano letivo de 1986 uma passagem aérea para a Filadélfia com direito a hospedagem e exposição montada.
A jovem Clarisa usa materiais diversos, criando suas figuras fantásticas com uma dose de humor, que chega próximo ao caricatural. Suas figuras quase sempre vêm envolvidas em tons contrastantes. É como se ela tivesse por trás do picadeiro de um circo brincando com marionetas. É um bom começo.

UM PINTOR DE CALCULÉ QUE É SUCESSO NA PENSYLVÂNIA


Ferjó ao lado de três trabalhos que expõe na Galeria O Cavalete esta semana

O pintor baiano Fernando de Jesus Oliveira ou simplesmente Ferjó vai expor 15 telas, sendo quatro de 1,5 por 2 metros na Galeria O Cavalete a partir do dia 22. São trabalhos hiper-realistas fruto de sua experiência na Pensylvânia, nos Estados Unidos onde reside desde 1974. Sua formação na Academia de Artes daquela cidade transformou este pintor que antes fazia trabalhos primitivos num hiper-realista de mão cheia, principalmente nos retratos. Ferjó é capaz de deixar boquiaberto o mais experiente cultor das artes com seus retratos onde o artista capta as expressões quase como uma máquina fotográfica. Só que ele consegue dar mais plasticidade enriquecendo os seus trabalhos com um clima fora do real.
São os retratos que permitem a sua permanência desde 74 nos Estados Unidos, um mercado difícil e extremamente disputado e qualificado. Ferjó ao chegar lá abandonou o casario baiano, quase primitivo, e passou a dedicar-se com mais interesse aos retratos, que já vinha fazendo aqui com certa qualidade. Porém, lá pode desenvolver esta faceta de sua carreira artística.
Agora está expondo vários desses retratos na Roselyn Sallor Fines Arts, nos Estados Unidos, e prepara outra exposição para Nova Iorque. Uma revista de circulação em todo território americano acaba de fazer uma extensa reportagem sobre sua obra. E, assim vai o Ferjó, natural de Caculé, ganhando espaço, pouco a pouco, na medida em que também vai amadurecendo artisticamente.
A figura humana é uma presença constante em sua obra sempre rodeada de elementos vegetais ou objetos que servem para compor o quadro dando um aspecto hiper-realista. Nesta temática ele extravasa suas emoções e fantasias colocando asas em seres humanos, transportando-os para locais celestiais acompanhados de todo um clima fora da nossa própria realidade. É nessas fantasias e neste clima que voa o pensamento de Ferjó brincando com os personagens de suas estórias, onde as fantasias conseguem amenizar este mundo caótico e violento. Ao seu redor tudo torna-se bonito, entre as nuances de uma cor mais clara ou mais escura, transportando também os espectadores nas asas de seus anjos em busca do paraíso de sua imaginação.
Que os anjos de Ferjó continuem proporcionado momentos de tranqüilidade, e que o belo, sempre seja cultuado, para que assim possamos atravessar este mar tormentoso que se tornou as cidades neste final do século, e que, sobrevivendo, possamos conviver com suas fantasias.