A OXUM MAIS BONITA
O velho Carybé chegou apressado. Debruçou-se sobre o caixão de Mãe
Menininha, acariciou seu rosto com ternura despedindo-se da amiga, da
conselheira, da sacerdotisa que enfeixava todo o saber do candomblé que ele
tanto acredita e frequenta desde que aqui chegou. Vestido de branco, como
determina a religião, Carybé entristecido recolheu-se a um dos bancos, que
circunda o interior do Terreiro de Gantois, e com as mãos cruzadas entre as
pernas relembrava a Mãe Menininha rodeada de filhos e filhas de santo reinando
não apenas nos limites do Gantois, mas também em todos os recantos onde o
candomblé se faz presente. Respeitada e admirada, Mãe Menininha tinha sempre
nos lábios um sorriso, e era extremamente terna. Lembro das várias vezes que a
entrevistei para a revista Manchete, e mesmo para A Tarde, dos seus
ensinamentos, das suas palavras sempre otimistas para os que lá chegavam para
ouvi-la. Humilde, sempre dizia que “não sou aquilo que o povo diz, porque quem
tem força é Deus e os Orixás”. Mas, como sacerdotisa Mãe Menininha deixa uma
lacuna impossível de ser preenchida e esta expressão de Carybé eternizada nesta
foto de Arestides Baptista pode ser multiplicada por várias vezes porque é a
expressão de dor e de saudade que ficou entre os seus seguidores e admiradores.
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Nesta foto vemos Dorival Caymmi, Jorge Amado e Carybé com Mãe Menininha. |
Eu
não sou de candomblé, mas aprendi nos contatos que mantive com Mãe Menininha a
admirá-la pelo que ela expressava e pela áurea de sabedoria e bondade que
deixava derramar sobre todos aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-la.
Era difícil chegar até ela, porque suas filhas procuravam resguardá-la dos
incômodos e da curiosidade de turistas ávidos por souvenir. Já idosa, nada
mais justo do que protegê-la dos inconvenientes, e, também, para que pudesse na
tranquilidade do seu quarto continuar cultuando seus orixás. Foi-se a mais bela
Oxum da Bahia, a ialorixá mais doce e de maior sabedoria, deixando muitas
saudades. Aqui
ela sempre será lembrada principalmente, no dia 10 de fevereiro quando seus
parentes e amigos subiam ao Gantois para reverenciá-la na data do seu
nascimento. Menininha será sempre uma presença nesta Bahia mística cheia de
segredos e magia.
CARYBÉ
NO DESENBANCO

Não
se pode pensar na obra importante de Carybé sem esta ligação, sem esta presença
das coisas da Bahia. É como bom desenhista ele sempre soube captar, em poucos
traços, todo este clima mágico. Quanto ao candomblé, do qual é Ogan, o velho
Bernabó sabe respeitá-lo, cultuá-lo e referenciar seus sacerdotes e
sacerdotisas. Do alto de sua experiência de vida vai construindo esta obra
inesquecível e importante não apenas do ponto de vista plástico, mas também
documental, porque ele capta em seus desenhos situações que ocorrem nos
terreiros, nas feiras livres ou nas praias. São os pecadores, ao cavaleiros, os
vendedores ambulantes, os feirantes, as baianas com suas saias rodadas que
povoam o seu mundo pictórico baiano-africano. Com certeza Carybé, este
argentino que impregnou-se de baianidade, é o mais africano de nossos artistas.
CLARISSA
NA GALERIA DO ALUNO
A
estudante de Belas-Artes, Clarissa, atualmente auxiliando a coordenação da
Galeria de Arte da ACBEU, vai expor a partir do próximo dia 20, com vernissage
às 18 horas, na galeria do Aluno. Esta galeria fica na Escola de Belas Artes, e
é um espaço importante para os que estão iniciando na difícil profissão de
artista. A galeria está oferecendo ao autor do melhor trabalho apresento no
decorrer do ano letivo de 1986 uma passagem aérea para a Filadélfia com direito
a hospedagem e exposição montada.
A
jovem Clarisa usa materiais diversos, criando suas figuras fantásticas com uma
dose de humor, que chega próximo ao caricatural. Suas figuras quase sempre vêm
envolvidas em tons contrastantes. É como se ela tivesse por trás do picadeiro
de um circo brincando com marionetes. É um bom começo.
UM
PINTOR DE CALCULÉ QUE É SUCESSO NA PENSYLVÂNIA
O pintor baiano Fernando de Jesus Oliveira ou simplesmente Ferjó vai expor 15 telas, sendo quatro de 1,5 por
São
os retratos que permitem a sua permanência desde 74 nos Estados Unidos, um
mercado difícil e extremamente disputado e qualificado. Ferjó ao chegar lá
abandonou o casario baiano, quase primitivo, e passou a dedicar-se com mais
interesse aos retratos, que já vinha fazendo aqui com certa qualidade. Porém,
lá pode desenvolver esta faceta de sua carreira artística.
Agora
está expondo vários desses retratos na Roselyn Sallor Fines Arts, nos Estados
Unidos, e prepara outra exposição para Nova Iorque. Uma revista de circulação
em todo território americano acaba de fazer uma extensa reportagem sobre sua
obra. E, assim vai o Ferjó, natural de Caculé, ganhando espaço, pouco a pouco,
na medida em que também vai amadurecendo artisticamente.
A
figura humana é uma presença constante em sua obra sempre rodeada de elementos
vegetais ou objetos que servem para compor o quadro dando um aspecto
hiper-realista. Nesta temática ele extravasa suas emoções e fantasias colocando
asas em seres humanos, transportando-os para locais celestiais acompanhados de
todo um clima fora da nossa própria realidade. É nessas fantasias e neste clima
que voa o pensamento de Ferjó brincando com os personagens de suas estórias,
onde as fantasias conseguem amenizar este mundo caótico e violento. Ao seu
redor tudo torna-se bonito, entre as nuances de uma cor mais clara ou mais
escura, transportando também os espectadores nas asas de seus anjos em busca do
paraíso de sua imaginação.
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