quarta-feira, 6 de junho de 2012

WALDELOIR RÊGO E SUAS JÓIAS E ESTAMPARIAS

ARTES VISUAIS
Jornal A Tarde em 30 de Novembro de 1971
Texto Reynivaldo Brito


Como disse Jorge Amado, Waldeloir Rêgo é "o preferido dos Orixás, aquele que sabe e tem o direito de saber - é o dono dos segredos. O moço baiano nasceu e se formou com a proteção de Senhora e Menininha, defendido por todos os lados".
Etnólogo famoso está entre os três estudiosos que mais conhecem candomblé no País, mas é, antes de tudo, um joalheiro afro-brasileiro de muito talento, ourives de Oxum e joalheiro de Yemanjá. Artista sério, já ganhou um prêmio da Academia Brasileira de Letras pelo seu livro "Capoeira de Angola/ Ensaio Sócio-Etnográfico", assunto do qual conhece todos os meandros. Na foto Waldeloir Rêgo pintando seus tecidos com motivos afros.
Suas jóias exóticas enfeitam, hoje, colos e pescoços de algumas das mais bonitas mulheres do País e do estrangeiro. Mas, não contente com isto, Waldeloir Rêgo investe incansável no terreno da estamparia. I.D
Waldeloir Rêgo disse que a Bahia tem uma grande fama de celeiro de arte, mas no fundo são as mesmas pessoas que fazem seus trabalhos há algum tempo. "Não há realmente renovação de valores. Quanto a "igrejinha" se existe, eu não conheço, nem participo dela ou delas. Procuro me comunicar com todos: os já consagrados e aqueles que começam. Acho no entanto, que é muito cômodo o indivíduo cruzar os braços e acusar outros artistas, já consagrados, de criarem "igrejinhas". O que é preciso - prossegue enérgico - é que esta gente trabalhe e faça coisas boas.

                                                          CRIAÇÃO

Waldeloir é um criador nato. Tanto nas estamparias como nas jóias existe uma liberdade de criação.O artista dispõe não só de formas mas também de elementos ricos em cor . Suas estamparias são dotadas de um cromatismo alegre e ao mesmo tempo místico dentro do complexo afro-brasileiro, já assinalados pelo escultor Mário Cravo.
"Vejo na obra de Waldeloir um renovador, mesmo sem renegar as suas raízes. Examinando -se a sua evolução nos últimos 9 anos constata-se facilmente a progressiva liberação dos condicionamentos litúrgicos presentes nas suas primeiras experiências, datadas de 1962, pois ali se encontravam o cristal e a cerâmica, exatamente os mesmos adereços de nosso candomblé. Já em 1968 a prata começa a se expandir como componente quase que fisiológico da sua joalharia, chegando a ser em 1969, predominante. Mesmo as experiências concomitantemente levadas a efeito pelo artista durante o período, na área do "silk-screen", evidenciam que suas preocupações primeiras condicionadas pela liturgia do candomblé,vinham, pouco a pouco, sendo liberadas das cadeias do imediatismo superficial, permitindo mostrar-nos a sua capacidade de produzir objetos realmente oriundos de atividade criadora".

                                                         O HOMEM

Waldeloir Rêgo nasceu a 25 de agosto de 1930,em Salvador e ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, porém não chegou a concluir o curso. Foi ai que começou a escrever os primeiros artigos, resultantes da pesquisa das coisas e do povo da Bahia, culminando com a publicação do livro "Capoeira Angola / Ensaio Sócio-Etnográfico"que foi premiado pela Academia Brasileira de Letras, com o prêmio Josë Veríssimo, para Ensaio e Erudição, em 1968.
Ao sair da Faculdade de Direito voltou-se para as artes plásticas onde continua até hoje produzindo coisas belas. Participou em 1966 da Primeira Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia; em 1967 do III Salão de Arte Contemporânea de Campinas; em 1968 do XVII Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro, e da Segunda Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia; em 1969 participou do XVIII Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro e em 1970 do XIX Salão Nacional de Arte Moderna e expôs na Galeria Bonino, ambas no Rio de Janeiro.
Ganhou o Prêmio Nacional de Artes Decorativas, na Primeira Bienal Nacional de Belas Artes da Bahia, Medalha de Ouro no Terceiro Salão de Arte Contemporânea de Campinas e o Prêmio Isenção de Júri e Medalha de Prata do XIX Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
Waldeloir persegue uma temática afro-brasileira e sua atividade criadora vem se desenvolvendo na confecção de jóias artísticas, e pintura sobre tecido, pelo processo "silk-screen", em seu atelier próximo ao Convento do Desterro.
Nas jóias utiliza a prata e pedras semi-preciosas, e formas nascidas da recriação de detalhes de armas, insígnias, fôlhas sagradas e dos próprios utensílios de adorno dos deuses afro-brasileiros ou usados em seus rituais, vai elaborando seus colares, gargantilhas, anéis e pulseiras.
Certa vez afirmou o crítico de arte do Jornal do Brasil, Walmir Ayala, que Waldeloir Rêgo "é um exemplo de alto nível, nesta concepção da jóia como objeto precioso, por suas invenções de espaço, por sua aproximação à liberdade arquitetônica da escultura que é cada dia mais uma arte habitável. Só que as jóias de Waldeloir Rêgo habitam o corpo e pousam com a graça e a agressividade das coreografias do candomblé, na imagem de um colo, de um pescoço ou de um pulso".

                                         IGREJINHA

O artista é contra as "ïgrejinhas" tão reclamadas pelos novos artistas plásticos baianos que se acham prejudicados. Diz ele: "em primeiro lugar, falar de artes plásticas na Bahia é um negócio difícil e delicado sobretudo porque não há uma movimentação artística satisfatória em nossa terra e mesmo renovação de valores, como está acontecendo em outros centros do sul do País.
Existe uma falta de informação geral. O artista baiano em sua grande maioria está desinformado ou melhor está totalmente por fora porque não sabe o que está ocorrendo e se fazendo de novo em termos de artes, não só no eixo Rio-São Paulo como no exterior.
Tudo aqui - continua - fica no ouvi falar. É por esta e por outras razões que acho de suma importância a Bienal de São Paulo porque ali nós ficamos sabendo o que ocorre não só no Brasil como no exterior. É um contato necessário para o artista plástico".

Nota: Waldeloir Rêgo faleceu aos 71 anos no dia 21 de novembro de 2001