sábado, 2 de junho de 2012

FLORIANO TEIXEIRA E SEU OLHAR CRIATIVO

ARTES VISUAIS

REVISTA NEON, AGOSTO DE 2000.
Texto Reynivaldo Brito


Nunca é demais para se falar de um grande artista.

Principalmente quando se trata de Floriano Teixeira este marahense, meio cearense e meio baiano que durante toda a sua vida dedicou-se a pintar as peraltices das crianças e a sensualidade das mulheres. Sem esquecer do artista ilustrador dos romances de seu amigo Jorge Amado.

Lembro de sua exposição retrospectiva quando esteve na redação de A Tarde à minha procura e tivemos uma longa conversa sobre sua obra, sobre esta exposição que vinha lhe sensibilizado bastante. “Faço o que tenho vontade de fazer e estamos conversados”. Disse como sentenciando que aquela era a sua tarefa na terra: pintar. E, como poucos, exerceu esta atividade até os últimos dias de sua vida pródiga. Criou um universo plástico inconfundível e vigoroso, belo e lírico, poético e sutil.

"Não dito regras e não as sigo. Faço o que me dita a vontade, a minha consciência. Se há uma mensagem em meus quadros, essa mensagem é de amor e paz. Não me incomoda quando alguém me chama de romântico, sou poeta. Sim, sou um poeta romântico”.

Frase que colhi da conversa que tivemos em outubro de 97, que traduz um pouco a sua produção. Esta maneira delicada de pintar que Floriano nos deixou enche de orgulho todos aqueles que admiram e gostam de sua arte. Este sentimento de liberdade que expressou, renega qualquer regra que pudesse interferir na sua liberdade de criar.
Livre, como os muitos pássaros que desenhou, definindo em poucos traços a leveza do seu vôo.
Mas, não posso esquecer do voyeur que era capaz de numa só tela retratar três ou mais situações. Com seu olhar poético o artista pintava cenas íntimas de casais em pleno ato de amor, mulher se despindo ou simplesmente se penteando com seios nus diante de um espelho. Este voyeur derramava poesia em cada tela que concluía.

E as cores? Inconfundíveis. Nos muitos anos que dedicou à pintura a cor foi sempre um elemento inconfundível em sua produção. E, certamente a luz forte do Nordeste deve ter influenciado, principalmente depois do contato com a literatura amadiana.
Quando lhe “ sugeriram”que mudasse para cá, houve uma verdadeira campanha liderada por Jorge Amado, que enviou uma carta para o então reitor da Universidade do Ceará, onde trabalhava, para que o liberasse.
Vindo para a Bahia ilustrou Capitães de Areia, Dona Flor e Seus Dois Maridos e muitos livros de vários escritores, inclusive de Glaciliano Ramos
Um dos melhores textos sobre Floriano foi escrito pela talentosa Myriam Fraga em 1984. Além de grande poetisa, ela soube transportar para a escrita a poética pictórica do artista. Vejam este pequeno texto tirado de um trabalho bem maior. “Andarilho contumaz, na vida e na obra, passeou por várias escolas, percorreu caminhos que foram do cubismo aos quadrinhos,ilustrações, caricatura, muralismo, tudo passou pelo cadinho de seu talento sempre aberto a novos experimentos.”
Ela falou ainda do”...seu incurável romantismo. Um mundo onde o pecado existe, bonito e desejável, e a redenção é somente a beleza; buscada, perseguida, sofrida, capturada”.
Não existe pecado naquele sentido do mal. Existe como bem ressalta Myriam a beleza que explode em cores fortes e alegres nos momentos em que ressalta a grandeza de uma fruta tropical, a ingenuidade de uma criança soltando pipa ou na sensualidade de uma mulata brejeira. O fino traço de Floriano sobreviverá a muitas gerações porque é eterno.

Leve, como o soprar da brisa num dia de lua cheia à beira mar, ele vai navegando pelos sentimentos.

As obras de Floriano nos convidam a descobrir coisas, detalhes. Não nos conformamos com uma simples olhadela. A leitura não acontece rapidamente porque, ao nos depararmos com uma tela de Floriano, somos levados a demorar um pouco mais admirando o seu traço. É preciso contempla-las com vagar porque cada minuto vai sendo sucessivamente mais prazeroso do que o outro. As cores são inconfundíveis e fecham a composição.
Suas telas são atemporais e quando as examinamos nos parecem flashes que espoucam naquele instante mágico da criação e que suas telas ainda necessitassem de pequenos retoques para estarem concluídas. Apenas uma visão.
Elas estão prontas para serem contempladas pro resto da nossa existência.
O diplomata John Dwyer escreveu”... o mundo de Floriano é um mundo em formação,um mundo onde não há um, porém muitos centros. E um mundo onde não há só a mão de Deus ou de um pintor ou de um autor. É um mundo em contato com outros mundos, em estado perene de gestação, que se desdobra sobre si mesmo em um esforço de criação”.
Este pequeno texto de Dwyer vem corroborar o que escrevi acima, evidente com outra visão. Este descobridor do sentimento humano e da essência da paisagem baiana, tanto nos instantes em que pintou telas com pinceladas largas e definitivas, mas também quando se dá o luxo de minituarizar cenas com sua fértil imaginação.
Floriano era uma dessas figuras doces que povoam o universo artístico baiano. Um desenhista de mão leve que riscava o papel com a suavidade de uma pluma. Um voyeur que criou cenas íntimas de mulheres nuas no chuveiro, deitada numa cama, tirando a roupa ou casais fazendo amor. Muitas vezes, numa só tela, colocava duas ou mais cenas desses " flagrantes” saídos de sua imaginação. Também seu traço elevou a sensualidade das mulheres que pintava com suas curvas perfeitas e cores precisas.
Fino no tratar, Floriano acumulou nos anos de ofício a sabedoria dos mestres.
Tanto nas formas e nas cores utilizadas pelo artista, que demonstram, além do conhecimento técnico, uma precisão cirúrgica. Não existe exagero, não existe a gratuidade. Tudo está devidamente equilibrado em toda a sua produção.
Portanto, sua morte é uma perda irreparável para a cultura baiana, porque ele estava em plena maturidade de sua arte.