quarta-feira, 6 de junho de 2012

MESTRE RESCÁLA: UMA VIDA DEDICADA Á ARTE

 ARTES VISUAIS
 Texto Reynivaldo brito






Era um mestre no seu ofício de pintor e o maior restaurador da Bahia.

Faleceu anteontem, ( dia 08 de janeiro de 1986) às 21 horas, na Clínica Ckeck-up. O professor João José Rescála foi sepultado às 17 horas, de ontem, no Cemitério Jardim da Saudade, com grande acompanhamento de seus alunos, amigos e parentes. Com o desaparecimento do mestre Rescála a Bahia perde não apenas o mais importante restaurador que, nos últimos anos, contribuiu significativamente para salvar grande parte do seu patrimonio cultural, mas também um artista invulgar e uma das pessoas mais ternas que já passaram pela Escola de Belas Artes. Um homem de espírito desarmado, doce, sempre disposto a transmitir aos novos e velhos companheiros de ofício os mistérios da arte de pintar. É conhecido que normalmente os mestres não ensinam a seus alunos o "pulo do gato", os segredos da profissão, porém isto não acontecia com o mestre Rescála que estava sempre despojado para repassar aos outros aquilo que aprendera no silêncio das sacristias das igrejas ou mesmo nos salões majestosos dos palácios. Paciente, ele trabalhava em silêncio, e na sua humildade nunca soube desfrutar de sua grandiosidade, porque faltou-lhe o que sobra em muitos – a disposição de buscar notoriedade. Conheci de perto o mestre Rescála e posso aqui atestar a sua docilidade, a sua disposição em falar sobre a sua obra, porém, com muita tranquilidade enquanto ia acendendo um cigarro atrás do outro. Era um artesão porque cuidava dos detalhes e dos materiais com a mesma dedicação daqueles artesãos que tanto nos fazem falta. Criterioso, sempre tinha uma palavra de alento para os jovens que se inquietavam com a demora do sucesso. Como um monge ia construindo o seu mundo pictórico. Rescála não pode ser visto apenas como um grande restaurador. Rescála era também e, principalmente, um pintor que soube como ninguém documentar a Bahia antiga com sua gente calma andando por ruas quase desertas. Sua obra é o reflexo da própria tranquilidade do mestre Rescála que orientou gerações e mais gerações.

PROFESSOR EMÉRITO

 Lembro-me quando em 1983 Dr. Jorge Calmon recomendara que queria uma boa cobertura de uma solenidade na Reitoria. Tratava-se da homenagem da UFBA àquele que dedicou grande parte de sua vida na formação de novos artistas. Assim das mãos do também já falecido, professor Fernando Macedo Costa o mestre João José Rescála, aos 73 anos de idade, e 31 anos de ensino recebia o título de Professor Emérito. Foi uma sessão concorrida e o auditório da Reitoria estava repleto de ex-alunos, amigos e parentes. Uma homenagem justa, e contou com a aprovação unânime do Conselho Universitário, que homologara uma decisão da própria Congregação da Escola de Belas Artes. Coube a professora Ana Maria Leite da Silva, traçar o perfil do homenageado. Ela que recebera tantos ensinamentos do mestre não teve dificuldades de dizer em público que falava com grande emoção e alegria “do homem, do mestre, do restaurador e do grande amigo”. O mestre Rescála nasceu em 8 de janeiro de 1910, no Rio de Janeiro. Descendente de libaneses, enfrentou quando criança, as dificuldades e até discriminações no meio em que vivia, mas nada o afastou da sua inclinação natural de abraçar a arte.Por motivos financeiros não pôde ingressar na Escola Nacional de Belas Artes, porém, frequentou com assiduidade o Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro e, em 1928, já realizava a sua primeira exposição, ocasião em que recebeu a medalha de prata. Daí foi um trilhar de sucesso. Conseguiu por volta de 1928 entrar definitivamente na Escola Nacional de Belas Artes. Em 1931, participou do grupo que criou o Núcleo Bernadelli, contrário à discriminação e paternalismo que imperava naquela época nos chamados salões oficiais. Fico a lembrar como teria sido a participação do mestre Rescála, porque o seu temperamento não era próprio ao debate, às disputas. Preferia sempre trabalhar no silêncio do seu atelier e sempre recomendar um acordo, sempre disposto a acalmar os ânimos.

                                                       NAMORADO DA BAHIA

Em 1937 com a obra “Retrato de meus pais”, recebeu o maior prêmio dado aos artistas naquela época. O prêmio de viagem pelo Brasil, tendo escolhido o Norte e Nordeste. Foi aí que começou sua grande paixão pela Bahia, tendo mantido contato com o diretor da então Escola de Belas Artes, Manuel Inácio de Mendonça Filho, que mais tarde o convidou para lecionar em Salvador. Portanto, o convite lhe foi feito em 9 de maio de 1952 para ocupar a cadeira de Teoria da Restauração e Conservação da Pintura. Ganhou a Bahia, porque nos anos que aqui viveu, o mestre Rescála foi um inimigo do descaso, dos cupins, das traças, dos insensíveis que estão a postos para destruírem as obras de arte. Como um Don Quixote de espátula e pincéis em punho ele ia calmamente restaurando e descobrindo beleza! Quantas e quantas pinturas estavam escondidas por baixo de grossas camadas de tinta e sujeira. O mestre Rescála ia removendo-as com carinho, com muito cuidado e competência.Ao lado deste trabalho ele cultivava a cátedra. Depois de concursos bem sucedidos, além de professor, foi diretor, vice-diretor, presidente de bancas examinadoras e chefe de departamento da Escola de belas Artes. Ainda na sessão solene quando recebeu o título de Professor Emérito da UFBA, ele disse ser um eterno namorado da Bahia. Lembrou de Mendonça Filho, que o convidou a viver aqui, ressaltou o desempenho da Escola de Belas Artes ao longo do anos, “dos seus relevantes serviços nos planos artístico e cultural desta terra.”Não esqueceu de seu velho companheiro Alberto Valença “de sensibilidade apurada, um dos maiores pintores contemporâneos do Brasil”.
 Na reprodução acima uma pintura do mestre sobre as lavadeiras da lagoa do Abaeté.

NÃO SOU ACADÊMICO

 Ele reagia quando alguém o classificava de acadêmico. Quem conhecia sua trajetória pictórica e sabia dos seus ideais jamais o classificaria de um acadêmico, com todo o significado que esta palavra encerra. Ele foi um dos fundadores da Arte Moderna que acima de tudo foi um dos que produziu trabalhos visando à modernização da arte brasileira. Junto com Edson da Mota, Djanira, Da Costa, Jordan Oliveira, Miguel Santiago e Pancetti o mestre Rescála foi um dos cabeças deste movimento modernista. Talvez por residir na Bahia, e estar, portanto, fora do grande mercado de arte é que sua grandiosidade ainda não foi espalhada em todo o país. Dizia que era professor por acaso. Modéstia do mestre, porque desde que freqüentava o Núcleo Bernadelli que muitos jovens o procuravam para saber como pintar. Disse-me certa vez que no Núcleo Bernadelli onde conheceu Pancetti, que era então sargento da Marinha, “nós exercitávamos pintar com modelos ao vivo e fazíamos muitos croquis para assim podermos dominar o desenho. Não acredito que alguém seja um grande pintor se não sabe desenhar”. Veja que lição para os jovens! Ninguém pode ser um grande pintor sem saber desenhar ! E, quantos andam por aí querendo ser pintor sem saber desenhar coisa alguma. Esta lição do mestre Rescála deve ser tomada com muita seriedade para que esses possam se dedicar ao desenho como o primeiro passo de uma carreira pictórica.Também ensinava que os jovens não devem limitar-se aos trabalhos da escola. “É preciso treinar, pintar e desenhar sem parar para dominar as formas e cores”. Falando sobre a arte brasileira e sobre um de seus expoentes Cândido Portinari, disse: “Quando iniciávamos o nosso núcleo recebemos muito apoio de vários setores renovadores do Rio de Janeiro. O Movimento Modernista ganhava corpo, também em São Paulo. Naquela época Portinari estava na Europa e quando retornou já havia acontecido a Revolução de 30 – lembrou Rescála. Os vitoriosos deram-lhe todo o apoio necessário para que prosseguisse o seu trabalho que resultou numa obra monumental”. Como podemos observar, o mestre Rescála foi testemunho de grande parte da história recente da arte brasileira e um de seus protagonistas. Sempre esteve longe das trombetas e das noites grã-finas. Preferia o seu atelier e o convívio da sua família. Disse certa vez, “esta história de que sou acadêmico é maldade que fazem comigo. Eu já passei por várias fases e hoje faço uma arte que tem uma personalidade própria. Uma pessoa que entende de arte – argumentava – é capaz de identificar um quadro de minha autoria. Isto é importante para o artista. A personalidade de sua obra.Mas eu nunca poderia ser uma acadêmico, pois além de fundados do Núcleo Bernadelli que incentivou e produziu obras modernistas, também participei do Salão nacional de Arte Moderna que era onde as expressões mais importantes do modernismo brasileiro expunham os seus trabalhos”. O mestre Rescála deixou transparecer, numa entrevista publicada em A Tarde em 1976, o seu protesto quanto à procura gratuita do sucesso: “Ganhei vários prêmios nestes salões e deixei de participar porque estava pornográfico. Estão confundindo arte moderna com pornografia. Uma fotografia de uma revistinha dinamarquesa funciona muito melhor, se o problema é o erotismo. Acho esta tal de arte erótica uma imoralidade e muitos talentos estão sendo desviados. Aqui na Bahia temos exemplos que são de conhecimento de todos...

SEU GRANDE IDEAL

 Além do ensino e da restauração, Rescála se deliciava com a pintura. Dizia que era o seu grande ideal. “Jamais deixei e não deixarei de pintar”- sentenciou certa vez, e assim prosseguiu até a hora de sua morte. Mesmo doente continuava pintando. E, é preciso que as gerações futuras vejam em Rescála , em primeiro lugar, o grande pintor que ele foi e depois o restaurador e o mestre. Sempre que podia chamava a atenção para não confundirem a sua obra como de cunho acadêmico. “Pinto ou faço uma arte mais objetiva onde surge com grande força a figuração, mas nunca me chamem de acadêmico. O que sou na realidade é um pintor de costumes, um realista lírico. O realismo se faz de várias formas e eu tenho a minha própria. Agora, quando faço retratos quero ser acadêmico, isto não desmerece ninguém. Porque o retrato é a documentação que faço e tem que ser parecido com as pessoas que pinto”. E abria o seu leque mostrando quanto era democrata, quanto de bom ele era e como defendia o direito de cada um ser aquilo que deseja ou fazer aquilo que mais o agrade. “Quanto ao meu conceito de liberdade de expressão é abrangente. O artista pode ser moderno ou acadêmico ou clássico porque ele escolheu esta opção . É um problema individual, de sentimento. Se não faz o que gosta é um falso. É dentro deste pensamento que realizo o meu trabalho. Meus quadros são concebidos nesta linha de pensamento e ação.”

 O CIDADÃO

- Outra homenagem que lhe prestaram os baianos foi a concessão do Título de Cidadão de Salvador pela Câmara Municipal em 1982. Foi uma cerimônia informal em sua residencia que o carioca de nascimento recebeu a homenagem dos baianos que tanto os admiram. Trinta anos de Bahia, já era tempo de mudar de cidadania. E no dia, com a sua doçura, mostrava-se preocupado em informar ou esclarecer a todos, especialmente aos jornalistas presentes que estava recebendo a homenagem em casa por recomendação médica. A doença já prejudicava suas ações e seus parentes estavam, de certa forma, preocupados para que ele não se emocionasse com muita intensidade. O velho coração do mestre já estava cansado de tanta emoção, já estava aos poucos diminuindo as suas atividades.

 OS DEPOIMENTOS DE SEUS ALUNOS E AMIGOS:

SANTE SCALDAFERRI : Rescála era um homem manso. Um excelente professor e a Bahia deve não apenas na parte cultural do patrimônio, mas acima de tudo as suas técnicas. Era nosso consultor. Ainda guardo um caderno de suas observações que sempre estou consultando quando tenho dúvidas. E complementa : “A técnica da encáustica que uso para fazer os meus trabalhos me foi ensinada pelos mestre Rescála. Seu desaparecimento deixa uma lacuna muito grande na Bahia cultural”.

CALASANS NETO: Não fui aluno do mestre Rescála, mas durante o período que utilizava o atelier de gravura da antiga Escola de Belas Artes que funcionava na Rua do Tijolo, a sala de gravura ficava vizinha da sala de restauração onde ele trabalhava. Aí tive a feliz oportunidade de conhecer um dos homens mais competentes dentro do seu ofício, fazendo um trabalho que eu não conhecia, um trabalho que só as pessoas abnegadas e providas de espírito superior conseguiram fazer que é a restauração. Por intermédio desta vizinhança conheci um pintor que desassociava a sua arte de restaurador a de criador, que era o mestre Rescála. Convivi alguns anos junto a ele e pude sentir a grandiosidade não apenas do criador, mas do ser humano que ele era. Sempre gentil e nunca escondendo aos alunos os mistérios do seu ofício.

CARYBÉ:Rescála era uma pessoa que mais mereceu o título de mestre. Foi como pessoa, como artista e como professor um exemplo para as futuras gerações. Começou com Pancetti na arte moderna, não do ano de 1922, mas no movimento modernista do fazer, do realizar através do seu próprio ofício. Ele foi um dos que deram força ao modernismo, responsáveis por seu prosseguimento no Núcleo Bernadelli, do qual foi fundador, e de lá saiu para restaurar e salvar o patrimônio da Bahia. Era um grande técnico e a ele devemos a ressurreição do Convento de Santa Teresa, do Solar do Unhão, de palácios e muitas igrejas. Ele sabia restaurar e pintar como ninguém. Era um homem doce. Sempre pronto para responder com civilidade e carinho a qualquer dúvida. Diversas vezes o procurei para tirar dúvidas e sempre recebia lições. Cada consulta era uma aula de técnica e sabedoria.

MIRABEAU SAMPAIO: O velho Mirabeau Sampaio ainda não sabia da morte de seus amigo Rescála. Na qualidade de jornalista lhe telefonei para tomar o seu depoimento, na certeza de que ele já tinha recebido a triste notícia. Porém, Mirabeau continuava falando como se ele estivesse vivo. Daí perguntei se tinha sabido do ocorrido e Mirabeau entristeceu. A voz ficou um pouco embargada e disse: “Vejo o mestre Rescála com muito respeito. Era um grande técnico e mais do que isto um grande artista! Nada de improvisação na sua obra. Tudo era feito com responsabilidade. Sabia como ninguém a arte de pintar. Só se pode fazer elogios ao mestre Rescála! -desabafou Mirabeau. "Eu admirava muito ele. Não havia uma pessoa de tão boa vontade e tinha muito que transmitir. Tinha alegria quando a gente telefonava para esclarecer uma dúvida.”.

 CARLOS BASTOS:Tinha muita admiração por Rescála. Lembro que uma empresa o chamou para fazer a restauração dos dois painéis de minha autoria e nunca lhe pagou. Ele recebeu aquela atitude condenável com resignação. Uma vez pintei o seu retrato no painel da Assembléia Legislativa, mas o fogo devorou tudo. Acho que ele era mais um restaurador que pintor e assim formou uma escola de bons restauradores baianos. Como pessoa humana era sensacional, uma doçura de pessoa.

JACY BRITO ( MARCHAND ): Por várias vezes Jacy fez exposições com trabalhos de Rescála. Para ela o mestre deixa uma perda indiscutível para a Bahia. Trabalhava na discreção, no silêncio. Quantas coisas importantes foram salvas por Rescála! Professor de várias gerações artistas. Não tinha as trombetas do sucesso tocando para ele, embora fosse um dos grandes mestres da pintura da Bahia. Como professor, o que ensinou a várias gerações vai permanecer para sempre.

 ZIVÉ GIUDICE: O professor Rescála era uma dessas pessoas carismáticas. Detinha a sabedoria do tempo e sempre assediado pelos alunos curiosos, a resgatar-lhes as dúvidas. A sua presença na Escola de Belas Artes da UFBA. Sempre tranqüila e disponível, conferia àquela instituição conceitos que só os grandes mestres conseguem.

IVO VELLAME: O professor Ivo Vellame colega do magistério de Rescála também ressaltou as qualidade do mestre dizendo: “Estou muito sentido com o desaparecimento do professor Rescála. Ele era uma dessas figuras raras, que de vez em quando surgem na terra. Além de ser um mestre no seu ofício de pintar era uma criatura humana indescritível. Sempre atento para servir, sempre tinha uma palavra de carinho para com aqueles com quem convivia. A Bahia perdeu um grande mestre da restauração e da pintura. Mas suas obras serão perpetuada porque é grandiosa