sábado, 2 de junho de 2012

CALASANS NETO , ILUSTRADOR DE JORGE AMADO



TEXTO Reynivaldo Brito e Sérgio Matos


REVISTA NEON SETEMBRO 1999.

Numa tarde de sol em Itapuã, em seu atelier na Rua das Amoreiras, o gravador Calasans Neto, o espirituoso Mestre Calá, recebeu os jornalistas Reynivaldo Brito e Sérgio Mattos para uma entrevista qse transformou num descontraído bate-papo, intercalado com piadas e muitas recordações. Calasans falou de sua infância, dos seus primeiros passos no mundo das artes, destacando que começou sua atividade com pintor, no atelier de Genaro de Carvalho, onde aprendeu observando.Mário Cravo Júnior, com que fez um curso livre, também teve importante papel em seu aprendizado no que diz respeito á gravura em metais. Mas foi com gravura em madeira que se tornou conhecido em todo o país e no exterior, realizando inúmeras exposições. Não se limitou entretanto,a estas técnicas, pois o seu espírito inquieto e fascinado pela gravura o levou a experimentar, ao longo dos anos, várias técnicas:água-forte, água-tinta, buril, ponta seca, além da impressão em monotipia, técnica em que obtém efeitos extraordinários.

Além das gravuras, mestre Calá ganhou reconhecimento mundial como ilustrador e capista de livros, principalmente dos romances de Jorge Amado, “Teresa Batista” e “Tieta do Agreste”.
Calá acredita que a ilustração em livros lhe permitiu alcançar uma audiência variada. Além das gravuras, tem praticado também a pintura em cavaletes, apresentando traços delineados e cores fortes nas figuras de pássaros, baleias, cabras e sereias. Na foto de 1975 Calasans Neto trabalhando em sua prensa.
O gravador Calasans Neto tem o dom da simplicidade. Com poucos traços ele define a essência dos personagens que povoam o seu mundo pictórico. Ele transmite para o papel ou para a tela, quando estápintando, todo o sentimento brincalhão que normalmente deixa derramar quando está conversando com as pessoas que gosta. Vai contando seus casos e piadas e, neste clima de alegria, se isola em seu atelier,onde passa horas e horas diante das placas, cavando os sulcos que vã permitir a impressão de suas figuras no papel.
Pesquisando, descobriu que a placa de acrílico serve melhor de base para as suas obras porque é mais maleável para trabalhar com o buril,a ponta seca e outros instrumentos que lhe permitem criar. Além disto,
a placa de acrílico têm resistência e pode ser reutilizada dos dois lados. Calasans já está trabalhando com este novo material, inclusive uma exposição de suas últimas gravuras feitas nas placas de acrílico está acontecendo em Curitiba. Nesta entrevista ele revela que o que realmente lhe satisfaz é a gravura.

ENTREVISTA

Neon- Calasans Neto, fale um pouco de sua trajetória artística, desde o início, com o movimento que ficou conhecido como Mapa. Faça um apanhado de sua carreira até a sua atual fase.
Calasans Neto- O que eu posso lhe dizer é que sou baiano, baiano da gema.Nasci no bairro de Nazaré. Naquele tempo, se nascia em casa. De parteira.Mas como era filho de médico, nasci na maternidade Climério de Oliveira. Naquela época, Salvador era uma cidade agradável de se viver e acredito que devia ter cerca de 300 mil habitantes ou menos. Menos do que Feira de Santana em hoje em dia. Fui criado como todo mundo. Nasci de uma família normal, numa cidade que tinha uma missão de arte. Era um museu barroco á sua mão e serviço, vivo e a cores- entalhes,pintura de tetos etc. Minha casa ficava próximo ao Convento do Carmo e de Igrejas como o convento da Lapa, Santo Antonio da Mouraria,Desterro, São Francisco e outras.
A Bahia sempre foi um condado, vamos dizer assim, voltada para a arte religiosa.Então aquilo criou a possibilidade de um contato maior com a arte. Eu era uma criança normal e gostava de tudo aquilo que os outros gostavam na minha idade.Eu não acredito em negócio de menino lendo, sentado... Não. Menino é menino. Adulto é adulto. Era bola e tudo quanto era brincadeira de médico... Meu pai era médico,...exercendo a psiquiatria. A psiquiatria não era um dos cursos mais cotados.Se ganhava mais, se estudada mais. Estudar a alma humana é uma coisa complicadíssima. E meu pai era um homem que seguia o padrão da cidade e era um homem de certa notoriedade. Era professor de faculdade.

Nós éramos letrados, mas éramos pobres. Naquele tempo a medicina era quase um sacerdócio. E principalmente, você sendo psiquiatra, ninguém ia ao seu consultório.Eu me lembro quando eu era ainda um menino, que os clientes iam se consultar à noite para que os parentes não soubessem que tinha procurado o Dr. Calasans.

Neon-Mas até hoje este preconceito ainda permanece.
Calasans Neto- É... Mas hoje já se tem uma formação psicanalítica.Quando se diz fulano é psiquiatra, já se aceita mais. Porém, você nunca viu rico maluco, rapaz! Rico é esquisito. Pobre é que é maluco.Pobre adoece, então é paciente... Naquele tempo a medicina tinha um cuidado com seus clientes.
Meu pai era diretor do Juliano Moreira, aqui na Boa Vista de Brotas.Na época ele trabalhava para o governo estadual e para o federal e quando veio Getúlio Vargas ele teve que fazer uma opção por um dos
empregos. Aí a pobreza bateu à nossa porta.Então, uma pessoa que dependia do emprego público, perdeu logo o que era melhor!Daí ele saiu da faculdade e melhorou.
Neon- E ele optou por qual Estadual ou Federal?
Calasans- Optou pelo federal. Não melhorou, mas equilibrou. Então o que é que sua mãe quer. Que você seja a imagem de seu pai. Mas, eu tinha mais ou menos uns 7 anos.Eu estava muito convalescente de uma poliomielite. E, quem tem irmã,atrai muito as camaradinhas, não é? E eu adorava brincar de cozinhar e
de médico, condizentes com a minha condição da época, não precisavacorrer. Nesse tempo as casas tinham quintal. Então, foi numa dessas,assim, que eu estava fazendo uma cirurgia... Estava fazendo coisas erradas.
Primeiro, porque pela falta de conhecimento da técnica cirúrgica e pela falta de conhecimento da família de que estava executando uma cirurgia.Quando o irmão da menina, que era nosso vizinho, olhou de lá. Era um
garoto de 14 ou 15 anos. Eu era um pássaro ferido, eu estava convalescente. Ele não teve nem piedade, saltou de lá e eu apanhei.Eu nunca tomei tanta porrada. Quando vai chegando minha mãe. Lá vem minha mãe. Mãe está sempre do lado da cria. O que é que eu estava fazendo lá?...Uma injeçãozinha, umas besteiras. Eu sabia que era uma coisa agradável, mas não sabia o que era. Aí minha mãe também resolveu mandar a porrada. Porque, não sei se era indicação de meu pai, eu nunca fui tratado diferente de minhas irmãs. Eu estava frágil. Mas isso foi bom porque me criou uma pessoa útil. Eu não fui tratado com carinho de uma pessoa que tinha atendimento especial... Eu era o caçula... Eu era menino normal. Gostava de tudo, procedia conforme as regras.

Neon- Você então decidiu fazer arte?
Calasans Neto- aí é que vem o negócio. Sendo de família pobre, fazer artes plásticas era coisa de um louco. Nenhuma mãe, naquela época, e hoje,tem outro caminho para os filhos. Aí é que está o negócio. Eram os outros, que faziam ela, lembrar. Ninguém barrou a minha trajetória.Fiz de tudo. Fiz até o 3º científico, mas ninguém me disse o que é que eu ia ser. Ia fazer vestibular para Arquitetura para tirar o negócio de arte da cabeça. Indiretamente era isso que eles queriam. Entãoparti para a briga, quer dizer, parti para a arte, ser um pintor profissional. Eu queria ser profissional. Por que não gosto de amador.Amador não presta nem para carregar um pincel para você.

Neon- Você tinha quantos anos na época?
Calasans Neto - Uns 18 ou 19. Eu ia passando na Barra e vi um pintor já consagrado, chamado José Pancetti, pintando uma marinha. Aí eu disse: vou ser pintor.

Neon- Pancetti... Sentado defronte o mar?
Calasans Neto - Era. Ali defronte à Pensão Guanabara, onde ele morava.Com um cavalete, com uma lâmina ao lado. Daí eu tinha uma coleção de selos e vi que pintar ao ar livre era uma coisa poética. Vendi a coleção de selos e comprei tinta. Num leilão comprei um cavalete desarmado, armei minhas tralhas e fui para o Dique do Tororó. Me deu a ousadia de querer fazer uma paisagem e não pude baseado numa coisa que não fazia. Aquela coisa bonita de se ver. Quem tinha um pouco de conhecimento já dava para saber que aquilo não era para quem quer aprender, e sim para quem tem conhecimento técnico pois, bulir com verde é perigoso.Era ousado pra cachorro! Aí fui!... Cheguei lá, mal botei minhas tralhas... foi um erro terrível! Ali já podia encerrar a profissão.Tinha umas mulheres no sobrado, que ficavam, lá de cima, a jogar cascas de bananas em mim. Só faltou isso, bicho, casca de banana,casca de manga... E o pior que também tinha um sacana mais adiante,esse era mais especialista ainda, pois com um espelho ficava projetando a luz do sol nos meus olhos. Não consegui fazer nada. Epara completar tinha também centenas de crianças em volta.

Neon- No primeiro dia?
Calasans Neto - Sim, no primeiro dia. Eu fechei minhas tralhas, peguei minhas tralhas e fui para casa repensar na minha vida. Eu não era um pintor de rua. Era um pintor de atelier.Ainda pintei duas paisagens no fundo da minha casa, eu via o São Bento. O São Bento tem uma cúpula bonita... Mas eu sentia a falta deconhecimento técnico. Eu me borrei um pouco, mas no contexto saiu o que eu queria.Eu estava orgulhoso de ter feito as pinturas, mas ainda estava orgulhoso de ter feito as pinturas, mas ainda estava naquele filão de estudar para não ser ignorante.Artista quando é ignorante é pior. Já é uma raça meio desgraçada.Analfabeto, piora.A falta de erudição é um fato. Você também não precisa ser erudito demais, mas também.... é como jogador de futebol. Você não podia ser Garrincha, mas também não podia ser como um Heleno de Freitas, que eram lembrados em posições opostos: o analfabeto e o erudito. Você têm que estar na média. Então, na média estava bom. Fazia algum coisa.Para um criador, as filosofias estéticas atrapalham e dão início a um policiamento filosófico, prejudicando a criação que vai pelo ralo.

Neon- E aí encerrou a sua carreira de pintor?
Calasans Neto - Não. Encerrei a carreira de pintor de rua.

Neon- Somente a de rua. A casca da banana lhe tirou da rua.
Calasans Neto - Mas, o fundamental é uma coisa que se chama a estrela.Quando sua estrela está brilhando.Quantos talentos você já se viu perder?Quantos? É que a estrela não brilhou para ele. Ele não acompanhou a estrela.Também não teve uma coisa: que é canalizar a sua energia para aquilo.Se não acertar na primeira, se não ganhar dinheiro... Dinheiro nunca me seduziu.O que me seduzia era o meu pensar. No caso, eu tinha comida, dava para cobrir as minhas despesas. È isso que eu não entendo rapaz. Minha mãe tinha duas pensões. Ela já estava com duas pensões deixadas por meu pai. Mantinha os filhos em um bom colégio e eu tinha uma vida mais ou menos confortável. Mas, era pensão, não era aposentadoria.Pensionista, que é a desgraça da desgraça... Mas isso não vem ao caso...Um dia peguei as minhas tralhas e fui passando pelo Hotel da Bahia.Tinha lido uma reportagem que tinha um pintor baiano, chegado da Europa onde passou anos, chamado Genaro de Carvalho. Isto é que era homem. Aí, eu era do Dois de Julho (Colégio), passei lá e criei um laço de conhecimento. Neste exato momento ele pintava o maior painel em área da América do Sul sobre festas populares. Era executado em tempera a ovo. Este painel está até hoje. Fiquei impressionado. ...Era uma ousadia retada! Ele pediu que levasse alguns quadros e me convidou para aparecer em seu atelier que funcionava num casarão antigo, na esquina da Avenida Sete com a Rua do Cabeça onde hoje está  uma agência do banco Bilbao. Eu estava tão impressionado que contei minha vida a ele, que me acolheu e deixou que o acompanhasse durante o seu trabalho.Tinha que observar tudo e dali ir criando.Ele não tinha tempo de parar para ensinar.

Neon- E aí o que aconteceu?
Calasans Neto- Aí ele me chamou e disse: “ eu vou lhe dar esse cavalete.Você não vai trabalhar não. Você vai trabalhar comigo”. Era uma natureza morta que estava fazendo. Ele pegou este quadro e colocou na vitrine da Loja Correia Ribeiro. Ele era decorador também. ...E eu sabia que tinha que trabalhar. Foi aí irmão, que ganhei uma missão honrosa.Aí achei que era retado, que era um gênio. Mas não era porra nenhuma.Daí, comecei a pintar. Ia sempre lá, mas continuava fazendo minhas maluquices e ele orientando. Devo bastante a Genaro que foi quem botou pincel na minha mão.

Neon- As experiências com as gravuras?
Calasans Neto - Eu não estava tendo diálogo com o material. Precisava ter diálogo com o material. Na pintura, você vai pintando e ela vai aparecendo.Na gravura não. Ela é mais complicada....Aí comecei a fazer gravura, mas não queria partir de peito aberto.Ah! Isto dá outro capítulo!

Neon- Mas você começava a ser conhecido na cidade?
Calasans Neto- Eu já tinha uma, certa notoriedade porque, quando, na década de 50 participei do Mapa com Glauber Rocha, Paulo Gil Soares, Fernando da Rocha Peres a coisa foi tomando rumo.Mas a gente era ligado por uma coisa que é a coisa mais importante que era a Arte Amizade. Glauber Rocha não era meu amigo. Glauber veio de herança. Eu era amigo da irmã dele, Aninha que morreu de leucemia aos 11 anos. Hoje Salvador é uma cidade grande. Naquela época éramos considerados malucos, estranhos. Éramos naquela época adolescentes. É compreensível porque nós estávamos trabalhando com uma coisa que não era comum na época, que era a teatralização da poesia moderna e teatralizada. O que er

Neon -   Fale da sua amizade com Vinícius de Moraes.
Calasans Neto - Vinícius era uma pessoa doce. Tratava as pessoas de filhinho ou filhinha. Tinha uma paciência retada.Lembro de uma viagem que fizemos para a Europa e íamos nos separar em Paris... Naquela época, era 1976... Ele tinha um medo de viajar retado. Achava que avião tinha que ser jumbo, porque não cai. Aí eu estou me lembrando de outra coisa: primeiro ele mandava fazer um macumba, porque tinha medo de viajar de avião. Mas Gessy Gesse tem uma falta de educação gastronômica. Ela chega num outro país e quer comer comida da Bahia. Não pode! Jogador faz, mas ela não pode. Ela levava uma quentinha a tiracolo. Quer dizer, portátil. Levava azeite de dendê, farinha, camarão seco, tudo. Mas acontece é que não é sólíquido. Os líquidos e sólidos eram a mesma coisa. Ela pegava azeite e misturava com outras coisas e botava dentro da mala... Vinícius tinha mandado fazer vários ternos para a viagem. O alfaiate foi indicado por mim, pois costurava no método inglês todo de pesponto aparente. eram roupas de alpaca italiana. Escolhi para tal missão meu amigo Samuel Pitanga, que ale, de tudo gostava de poesia e sabia poemas inteiros deCarlos Drumond de Andrade.Os três ternos eram verdadeiras obras primas da alfaiataria, mas Gessy Gesse colocou o dendê na mala e tudo tinha virado papa. Telefonamos para Antonio Olinto, que morava em Londres, pedindo a ele queindicasse uma lavanderia especializada em tirar manchas. Mandamos os ternos de Vinicius e os gringos devolveram dois dias depois alegando que a substância que manchou os ternos, segundo o laboratório, eradesconhecida.O poeta com sua paciência de Jó foi comprar outros ternos para usar em suas andanças pela Europa. Quando chegou aqui a empregada lavou os ternos com sabão de coco e tirou as manchas.

Neon – Hoje você se considera um homem realizado financeiramente?
Calasans Neto  – Como eu disse antes, dinheiro para mim tem a função de me dar conforto. Eu tenho umas coisas. Então, eu me dediquei mais, há dois anos, à gravura, onde ganho menos, mas eu tenho outro mecanismo de sobrevivência, livros etc., etc...

Neon – Quer dizer que hoje, como você já tem estabilidade econômica, pode se dedicar mais à gravura?
Calasans Neto– É exatamente isso. Então, por exemplo: o ministro Rafael Greca passou por aqui pela Bahia e a mulher dele d. Margarita, que é presidente da Fundação Cultural de Curitiba, ficou impressionada com meu trabalho e me convidou para fazer uma exposição em Curitiba. Então em vou fazer agora, dia 30 de agosto, com a presença do ministro. Uma exposição que vocês vão ver agora em primeira mão. ( E passou a mostrar as peças que, este mês, estarão participando da exposição de Curitiba, além de explicar como as produziu). Trabalhava com cobre e ai descobri, por um acaso, que fazendo o mesmo trabalho em folha de acrílico como esta ( exibiu uma placa de acrílico) ela oferecia a mesma resistência da folha de cobre. Esta é uma nova experiência que eu vou começar a divulgar antes que apareça algum pai para a criança.Em acrílico a gente trabalha melhor porque o material é mais maleável.Na outra, a de cobre, posso usar ácido, mas nessa placa você não pode porque é acrílico. Eu vou lhe mostrar as duas matrizes. Os procedimentos são iguais. ( Calasans passa a mostrar como desenvolve seu trabalho com a placa de acrílico). Tá vendo aqui... Para você trabalhar em ponta seca e buril – o buril é uma ferramenta bacana.Elas é uma haste e na ponta tem um triângulo de aço. O cabo, como eles chamam, é meia-maçaneta ( ensina como pegar a ferramenta)... Está vendo como é fácil? ( E usando a ferramenta vai dando os traços na placa de acrílico). Tá cortando, estão vendo. E a ponta seca é como um lápis. É um contorno de um lápis. Você vai cortando e tudo que você faz ela vai gravando. Descobri, por um acaso, que o acrílico tem na impressão a mesma veludagem do cobre...

Neon – Você usa os dois lados da placa de acrílico, não é...
Calasans Neto - Não. Só uso as duas faces no cobre.

Neon- No acrílico talvez a gravação fique até mais perfeita, não é verdade?
Calasans Neto - Fica! Você vai ver (pega uma placa já gravada e pede para passarmos a mão para sentirmos os sulcos) que nesta placa os sulcos são mais profundos.

Neon- Todas estas gravuras (as que estavam sobre a mesa) já foram feitas com placas de acrílico?
Calasans Neto - Foram. Veja que os sulcos do papel ficam mais definidos e não partem, mesmo colocando mais pressão na prensa. Aquela máquina que você está vendo ali (diz apontando para a máquina), ela tem uma pressão correspondente a seiscentos quilos... (e Continuou explicando): Depois de esculpir o desenho, pego a chapa de acrílico e passo uma espátula com a tinta e boto ela pretinha. Em seguida limpo a chapa com folhas de jornal...

Neon- Mas você não passa não é rolo?
Calasans Neto - Não. Não existe mais rolo aqui. ...Pego uma espátula com a tinta...

Neon- Você mela a placa de acrílico toda?
Calasans Neto - Toda. Pra tinta entrar no sulco. A tinta tem que entrar nosulco. Aí eu venho com as folhas de jornal e limpo toda a placa. Ela fica limpinha. Mas isso você já fez 10, 15 vezes. Mas a tinta permanece dentro do sulco.

Neon- E quando submetida à pressão só grava o que tá dentro do sulco?
Calasans Neto - Exato. A tinta só entra no sulco, porque o resto a gente limpa. E quando passo o jornal para limpá-la eu não retiro a tinta dos locais cortados. Ela não sai. Boto o papel em cima. Boto o feltro em cima. Dou uma pressão da Porra! ... e a gravura está pronta...

Neon- O papel penetra no sulco.
Calasans Neto - É. Aí é que tá o segredo. É por isso que tem quem não gosta de fazer. Agora, na madeira é o inverso, você tem que cavar para ficar em auto-relevo. Aqui é o contrário. Ele sai em baixo e a impressão é perfeita.E a tinta pega.

Neon- Calá, faça uma análise sobre como está o mercado de arte hoje na Bahia.
Calasans Neto - O mercado de arte na Bahia é difícil porque não tem parâmetro, porque arte é um supérfluo.

Neon- Você quer dizer que a arte não é um gênero de primeira necessidade. É isso?
Calasans Neto - Exato. Você só vende se o mercado está flutuando quando está sobrando dinheiro nas mãos dos compradores. Porque você não vai tirar do colégio de seu filho, do supermercado para comprar arte. Você
pode ser feliz, levar a vida toda sem comprar um quadro. Mas, você tem médico, você tem isso, Você tem aquilo. Você tem obrigações. Por isso a arte é um produto dependente do momento. Você não pode ter a
certeza de que vai vender neste ou naquele mês.

Neon- È isso mesmo. Em primeiro lugar sempre estão às necessidades básicas e qualquer pessoa vive sem ter a necessidade de adquirir um quadro por exemplo. É por isso que a arte depende dessas oscilações?
Calasans Neto - É. É por isso que em artes plásticas o melhor é não ser best-seller, porque eu conheci pintores que vendiam como água. Daí vinha uma crise e eles tinham que reduzir os preços. São pessoas que se viciam com um orçamento muito alto. Eu não. Meu problema é meu e de Auta Rosa. Somos dois adultos e podemos até passar sem algumas coisas.Mas tem artista que tem família, tem não sei o quê e aí a coisa entra numa crise. O trabalho do artista é uma cultura elaborada. O artista não pode parir quadros. Exatamente por isso o artista tem que ter o cuidado de viver com conforto e sem luxo e acima de tudo com muita dignidade.

Neon- Quem é que você aponta com destaques da nova geração de artistas baianos?
Calasans Neto - Olha compadre, é difícil...

Neon- Por que? Não tem gente despontando?
Calasans Neto - Tem. Tem muitos. Mais muita gente não agüenta o tombo emuitos desistem. Eu já vi isso várias vezes. E posso também cometer injustiças, citando uns e deixando de citar outros. Essa coisa é muita perigosa. E artista é uma raça ‘filha de mãe’.Reynivaldo sabe como é. Eles são muito ciumentos, principalmente quando você fere os sentimentos. Você dá uma entrevista e esquece o nome de um sujeito... Ah! È guerra pra toda uma vida.

Neon- Quando você, começou você encontrou dois ou três artistas,pessoas mais experientes, que lhe orientaram e você aprendeu. Alguém aprendeu com você? Alguém aprendeu suas técnicas ou lhe procurou?
Calasans Neto - Já. Alguns como Sérgio Rabinovith, Guel Silveira e outros que ainda hoje aparecem. Eu não tenho muito jeito para professor. É difícil. Por exemplo: eu entendi, esses dois entenderam, outros não.Quem quer aprender tem que ver como é que eu faço. Ou ele entra no meu circuito ou não vai aprender nada. Não vou ficar paparicando didaticamente... Senão eu ia para a Escola de Artes para ser professor.Não era a minha vertente. Eu não nasci para isso... Para ser professor. Não tenho o dom de ensinar, pois precisa de abnegação e não de criação.

Neon- Talvez você não tenha esse dom de ensinar, não é Calasans? Mas tem gente que tem.
Calasans Neto - Tem gente que tem. Eu conheço. Genaro de Carvalho tinha. E não ensinava. Ele só mostrava como fazia. O camarada que se virasse.

Neon- Uma vez eu (Reynivaldo comentou) cheguei ao atelier de Genaro,defronte do Hotel da Bahia e ele estava cortando uma batata. Daí eu perguntei: Genaro o que é isso? E ele respondeu: estou estudando aqui para fazer uma gravura. Em seguida começou a explicar. Aqui é a largura, não sei o quê...
Calasans Neto - É, eu nunca fui de ensinar. Eu não tenho muita paciência nem tendência....

Neon- Atualmente está havendo um movimento cultural na Bahia que está atingido o mundo das artes como um todo... Como é que você está vendo isso?
Calasans Neto - Aí é que tá. Nós agora vamos entrar no mérito do negócio. A Bahia hoje é um estado muito independente, mais do que era no meu tempo. Eu via turistas que chegavam- colecionadores de São Paulo, do Rio-, então 80% do que eu conseguia vender era para esse povo.

Neon- Vendia para fora?
Calasans Neto - Era. Vinte ou dez por cento era vendido para as pessoas daqui da Bahia mesmo. Hoje a situação inverteu. Hoje a própria Bahia absorve meu trabalho.

Neon- E esta procura está dobrando sua produção?
Calasans Neto - É. E isso está acontecendo na música, no teatro e na própria literatura. Você mesmo, não é Sérgio Mattos, não dorme no ponto. Você luta por seus livros.

Neon- Como você está considerando este movimento cultural que a Bahia está vivendo hoje dentro do contexto cultural do Brasil?
Calasans Neto - Um processo normal. Vejo a Bahia como um estado que tem uma riqueza cultural muito grande. Mas a gente só precisa do Estado para uma coisa- para a educação. Cultura você constrói. Você tendo isso-educação e saúde, o resto você faz. Hoje um menino lá nos Alagados faz um bloco, um negocio de lata e vira um fenômeno internacional.

Neon- Como é que ver os meios de comunicação da Bahia. Têm dado alguma contribuição ao desenvolvimento da cultura baiana.
Calasans Neto - Hoje mais para a música, porque o público é muito maior do que para as artes plásticas, por exemplo, ou para a literatura Você pega um jornal hoje e vê: “Daniella Mercury, não sei o quê, não sei o quê”.Muitos artistas ficam retados. Reclamam porque a imprensa não está dando espaço para as pinturas deles. Mas aí irmão, você tem que se lembrar que o maior público é gente que manja mais de Daniella Mercury do que nós. Porém, aqui para nós, isto é injusto.

Neon- As artes plásticas sempre foram mais elitistas. Sempre foram...
Calasans Neto - Ah, é Eu tenho um público bem pequeno. Eu não posso cobrar de fulano de tal. Não posso. Um escritor, por exemplo, não digo nem a poesia, porque a poesia tem um público ainda menor. O público que lê poesia é um público mais especializado. Por exemplo, das minhas amizades e das pessoas que conheço só uma que lê poesia e compra livros de poesia. Auta Rosa conhece Flor Bela Espanca mais do que qualquer pessoa. Ela é uma especialista. Ela tem todos os seus livros,fotos, biografia, além de estudos críticos. Já foi a Portugal para conhecer o local onde ela nasceu, Évora, e visitou a cidade onde ela morreu, Matosinhos, perto da cidade do Porto. Quer dizer, então esse pessoal lê.E, eu sou do tempo que ainda se lia poesia. Em toda escola se lia,toda mocinha lia Olavo Bilac, e não sei mais quem...Eles liam. Hoje já não se lê tanto porque houve um afastamento. A poesia se tornou muito mais hermética para esse pessoal.

Neon- Entretanto os poetas passaram a escrever letra de música e o pessoal que lia poesia está curtindo mais a música com boas letras,não é?
Calasans Neto - Que é uma vertente mais barata. Então, voltando ao negócio,é esse o fenômeno. Não é? Resumindo a história: não posso me queixar porque a vida me deu mais do que me tirou. Mas, eu também colaborei porque trabalhei, não é? Hoje é fácil Hoje é uma coisa maisdemocrática. Hoje você tem 500 espaços para mostrar o seu trabalho.Quando eu comecei não tinha.

Neon- Hoje você faz até o contrário: se nega a expor.
Calasans Neto - É bota banca. E hoje tem o problema da inversão de valores.O trabalho de um artista que está começando é mais caro do que as chamadas ‘putas velhas’

Neon- Mas sabe o que é isso Calasans, isso é desinformação.
Calasans Neto - Eu acredito

Neon- Às vezes tenho, conversado (diz Reynivaldo) com artistas iniciantes e digo: Rapaz o seu preço está muito caro. Você não tem ainda essa presença no mercado para cobrar este preço. Alguns não aceitam...
Calasans Neto - Mas ele não vai pra lugar nenhum. Sempre mantive as coisas em conta, porque para mim é mais importante eu ver um trabalho meu na parede da casa de uma pessoa do que dentro de meu atelier. Estou certo ou errado?

Neon- Está certo. Deixe registrado aqui o seu recado para os artistas mais novos.
Calasans Neto - A primeira coisa que tem de fazer é se trancar e trabalhar.Porque não pode deixar aquela coisa aberta sabe como é? Mesmo os consagrados têm que trabalhar. Isto porque conheço muitos que para botar banca dizem: “ Ah não tenho quadro...”, Vou contar uma coisa: dinheiro não resolve nada, mas ele não tem ideologia. Você não pode ter ideologia com dinheiro. Eu vou contar um caso, que foi uma das experiências da minha vida. Existia uma senhora, quando eu morava na rua 8 de Dezembro,na década de 60, mais ou menos, que eu tinha uma antipatia gratuita por esta criatura. Salvador era uma cidade pequena, você conhecia todo mundo.Esta senhora era mulher de um homem importante. Ela falou com uma pessoa amiga minha que queria comprar um trabalho meu. E eu,precisando de dinheiro óbvio-, roendo beira de pinho, como se diz.Respondi que não tinha trabalho pronto. Só botando empecilho para a mulher. Um merda, um lenhado botando banca. Aconteceu que, quem era governador era Luís Viana Filho e d. Juju me pediu um quadro para leiloar, para um bingo beneficente. Dei o quadro.Sabe quem o tirou? Aquela mulher. O resultado foi que fiquei sem vender. Isso é coisa de amador. Ter raiva de fulano, porque não vai vender... Profissional não tem isso. Profissional tem quer trabalhar com honestidade e viver dignamente do fruto do seu trabalho.

Neon- O que é que você considera mais importante em sua vida?
Calasans Neto - A coisa importante de minha vida foi a chegada de Auto Rosa para mim e nestes 36 anos de convivência só me trouxe alegria. Ela é quem traça o rumo da minha trajetória com régua e sextante. Às vezes ela ganha, outras perde. Acho que perde pouco. Sou fácil de se conviver. Sou monogâmico e amoroso. Nos, beijamos na boca apesar dos 36 anos de vida comum. Dizendo isto digo tudo e tem mais, ela me dá direção e luz.