domingo, 18 de novembro de 2012

EXPO REÚNE 149 DESENHOS DO MESTRE DI CAVALCANTI - 28 DE ABRIL DE 1986

JORNAL A TARDE, SALVADOR, 28 DE ABRIL DE 1986.

EXPO REÚNE 149 DESENHOS DO MESTRE DI CAVALCANTI


Os desenhos de Di Cavalcanti estarão expostos a partir de amanhã, no Núcleo de Artes do Desenbanco. Esses desenhos integram a grande coleção do Museu de Arte Contemporânea, da Universidade de São Paulo, que possui 504 originais do mestre.
Cento e oitenta deles foram reunidos no ano passado num luxuoso volume patrocinado por uma empresa de engenharia.
A coleção foi doada ao Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1952, pelo próprio DI Cavalcanti, e depois foi cedida ao Museu de Arte Contemporânea, assim mais de 10% do acervo deste museu são de obras do grande modernista. Quatro anos depois ele morria, aos 79 anos de idade, consagrado em todo o País, e até no exterior, como aquele que mais deu ás mulatas.
O pintor das mulatas belas e roliças, com seus semblantes faceiros e atraentes. Di sabia festejar este espécime, fruto da nossa miscigenação onde não existe lugar para os ismos que tanto prejudicam o relacionamento humano.
O desenho na obra Di Cavalcanti sempre chegou primeiro, como acontece, inclusive com os bons artistas. O desenho é a base, o fundamental, para o surgimento de uma pintura que vai tomando forma, não obedecendo rigidamente ao que foi traçado inicialmente, mas os primeiros traços representam um caminho. Di Cavalcanti sempre esteve desenhando. Lembro-me que certa vez tive a oportunidade de entrevistá-lo na então Galeria Círculo, que ficava no Corredor da Vitória, quando ele pegou um pedaço de papel em que fazia minhas anotações e fez um desenho e me presenteou. Guardei tão bem guardado este desenho que já tentei achá-lo e não consigo. Sei que está entre os meus papéis e tenho a esperança de encontrá-lo intacto. Mas, o que me ficou foi o seu gesto terno, de um artista consagrado diante de um jovem repórter. Sim, porque de lá para cá já se passaram alguns anos.
Destaco, também, a sua predileção pela mulher pela beleza da mulher brasileira que está enaltecida nesses 149 desenhos que foram feitos entre os anos 20 e 50 e agora nos serão mostrados. Conheço boa parte da coleção do Mac e posso assegurar aos leitores desta coluna que esta é uma boa oportunidade de conhecê-los, de admirar a genialidade do traço de Di Cavalcanti. O seu despojamento, a sua capacidade de definir as formas em poucos traços.
Os desenhos estão agrupados nesta mostra de acordo com a temática : Retratos e Caricaturas, Carnaval e Vida Noturna, Tipos Populares e Temática Social, Paisagens, Estudos para Painéis, Cenários e Estudos para Cartazes e Capas, Fase de Paris, e Dimensão Poética. Esses trabalhos foram executados em grafite, crayon, nanquim, pastel, guache, aquarela e scraper board. E esta mostra vem a propósito dos seus 10 anos de falecimento e nos apresenta três décadas de grande produção do artista.

OPINIÕES

Reprodução de uma foto do mestre Di Cavalcanti
Para Aracy Amaral esta exposição possibilita uma real avaliação sobre a atuação e produção de Di Cavalcanti, enquanto artista e homem no cenário cultural brasileiro, durante 30 anos. “Como pesquisa e documentação -afirma Aracy- reflete também o desejo de irradiação desse trabalho para um público mais amplo, tal como se deve esperar possa ser a atividade de um museu universitário, cuja contribuição maior é servir à comunidade, articulando-a com as artes.”.
Diz ainda que “como um sinal constante em sua produção, entre a presença do humor como raiz de sua comunicação primeira, o lírico e o social, Di Cavalcanti desenvolveria seu fazer artístico, extremamente pessoal entre os modernistas”.
Inquieto, instável, curioso, ligado á sua terra e sua gente, irregular em sua obra, aberto a informação internacionalista que foi buscar na capital francesa de 1923 a 25, amadureceu como profissional a partir desta estada e, como vários outros de sua geração, não se preocupou em seguir modas de artes em sua variação vertiginosa. Por sua vez, o Expressionismo marcou seu desenho, ancorado no social, sobretudo nos anos 20 e 30, conforme se pode ver nesta coleção.
Quando falamos do desenhista, este espírito crítico de livre exame, que teve o mérito de também ter sido o mais brasileiro dos artistas, passamos ao texto do critico Mário Pedrosa, que o destaca como “o primeiro a trazer para a pintura a gente dos morros, a gente dos subúrbios, onde nasceu o samba.
Sendo o mais brasileiro dos artistas, foi o primeiro a seguir que entre o interior, a roça, o sertão, a avenida, “o centro civilizado”, havia uma zona de mediação, o subúrbio, onde vive o autóctone da grande cidade.
A exposição será inaugurada às 18 horas, de amanhã, no Salão de Exposições do Núcleo de Artes do Desenbanco, permanecendo até o final de maio, aberta das 9 às 19 horas.

   GALERIA DO ALUNO CRIA ESPAÇO PARA ESTUDANTE

Cinco alunos da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia: Andrea Hollangel, Gustavo Maron, Marília Ferreira, Miguel Bittencourt, Maso e Teresinha Borges vão apresentar suas produções na Galeria do Aluno que será inaugurada hoje sob o título Botafora.
O programa da galeria prevê exposições individuais quinzenais de alunos e a pauta já está completa até abril do próximo ano, o que demonstra a sua viabilidade.Toda esta programação está sendo idealizada e coordenada por Maria Adair que está realmente movimentando os alunos interessados em produzir.
O programa prevê também um intercâmbio de estudante de arte entre as escolas de Belas Artes da UFBa, e Universidade da Pensylvânia. Já está prevista a vinda de um estudante da Tyler School of Art Temple University de Philadelphia, no próximo ano para expor seus trabalhos e será escolhido um aluno da EBA que irá para os Estados Unidos.
Este projeto merece aplausos porque o aluno é incentivado a mostrar o seu trabalho e cria o hábito de produzir e receber as críticas à sua produção. É o caminho tortuoso da afirmação dos que iniciam na carreira, e precisam de espaço e orientação para enfrentar posteriormente o mercado.
Diz Maria Adair que “a certeza desta afirmação e a ausência em Belas Artes de um espaço em que o aluno possa mostrar o seu trabalho durante todo o ano letivo, sem discriminação ou seleção de qualquer espécie, é que me levou a pensar na criação da Galeria do Aluno e a escrever um projeto de exposições que apresentei e submeti à apreciação da direção da escola”. O seu projeto foi aprovado e começa a ser executado. É preciso que não fique apenas restrito a Maria Adair, mas que outros professores também dele participam indicando alunos e incentivando àqueles que mais se destacarem.
O local é a área de circulação no velho prédio central da escola, o que possibilita que qualquer pessoa que chegue à escola aprecie os trabalhos dos alunos. É um local, portanto, de passagem obrigatória, o que garante público para exposições.