terça-feira, 13 de novembro de 2012

CARL BRUSSEL PREPARA UM LIVRO E NOVA EXPOSIÇÃO - 14 DE JULHO DE 1986

JORNAL A TARDE, SALVADOR, 14 DE JULHO DE 1986.

CARL BRUSSEL PREPARA UM LIVRO E NOVA EXPOSIÇÃO

Lembo-me que certo dia fui apresentado ao pintor Carl Brussel. Um senhor refinado que ao lado da esposa D. Yola falou sobre seu trabalho. No primeiro contato pude perceber que Brussel não era um pintor de domingo, mas um profissional disposto a dedicar-se de corpo e alma ao seu ofício de pintor. Tempos depois recebi uma comunicação de que ia morar no Rio de Janeiro, levando consigo toda uma bagagem de muitos anos de trabalho e dedicação à arte. Foi-se Brussel, porém, nunca perdeu o contato com a Bahia e também com este colunista que vem acompanhando a sua trajetória através de leitura de criticas nos jornais do Sul e mesmo nos catálogos que esporadicamente chegam às minhas mãos de novas exposições do artista.
Acima o artista Carl Brussel com sua esposa D. Yola  numa de suas exposições no exterior.
Lavadeiras, óleo sobre tela 80 X 60cm
Filho de pais suecos, Carl Brussel nasceu aqui em 1915 e ainda criança viajou para a Europa, onde estudou com vários professores. Hoje, sua arte sofre influência marcante dos cubistas e a qualidade é indiscutível, pois domina bem a técnica e sabe equilibrar as cores e formas. No casario, nas marinhas, nas figuras do Carnaval, nos pescadores, Brussel mostra sua capacidade criativa e que é um pintor amadurecido e que conhece o seu ofício. Sua arte brotou e sobreviveu a todas as dificuldades mesmo quando dedicava-se a atividade comercial, era quase que arrastado para a pintura, e quando aposentou-se, começou a dedicar-se com mais intensidade. Agora ele prepara um livro sobre sua obra e uma nova exposição no Rio de Janeiro.

É verdade que sua origem e sua formação européia contribuíram até inconscientemente para a escolha dos tons, e, também, proporcionaram uma certa organização na sua vida de artista.

Ele está longe de ser um artista apenas de momentos de inspiração. Brussel é um artista organizado que trabalha com firmeza em busca da perfeição, vencendo as dificuldades que vão surgindo.
Integrando o cubismo dentro de sua temática onde subexistem as coisas simples e populares. Consegue elevá-los para um campo mais grandioso, livrando-se dos perigos de realização de uma arte menor. Alcança esta façanha devido ao domínio do desenho e da técnica que vem imprimindo as suas obras.
Segundo Walmir Ayala; “Em alguns momentos a empostação social vê-se resolvida em telas formalmente mais compactas, talvez indicando novos caminhos, revelando a inquietação criadora de um pintor em plena fase de evolução. Estes exemplos são raros e intrigantes neste conjunto, e apenas acenam com a audácia de novos rumos de experimentação. De qualquer forma, no que existe de mais abrangente e global, a qualidade técnica e a riqueza do conteúdo nos concedem uma pintura que não erra”. Diria que Brussel é um pintor intimista e isto nos é revelado nas cores terrosas e acinzentados, na expressão de suas figuras envolvidas por espaços geometrizados. Pierrô, óleo sobre tela 55 X 46cm. Vemos a qualidade das obras do artista.
Nas marinhas ele demonstra a solidão e a beleza singela dos azuis que envolve este mar da Bahia. Interpreta situações á sua maneira e mesmo quando o Carnaval, é tema em sua obra, Brussel enquadra seus personagens e os envolve numa atmosfera de calmaria, muito diferente da realidade onde as pessoas estão pulando e gritando.
Esta é a essência do seu universo pictórico rico em técnica, em criatividade e que tem marcas de um grande pintor o que pode ser constatado nas transparências, na sintetização das cores, nas linhas de seu desenho e na sua capacidade de compactar as figuras em espaços geometrizantes. Com sua abnegação, com sua disposição em busca de novos horizontes acredito que Carl Brussel dentro de pouco tempo nos brindará com uma obra pictórica de grande importância para a história da arte deste País.

IVONETE DIAS MOSTRA NA ÉPOCA A BELEZA DO SERTÃO

Já escrevi que depois do desaparecimento de João Alves a arte primitiva na Bahia experimentou um grande vazio até a chegada de Ivonete Dias, esta paraibana que residiu muitos anos no interior do nosso estado e que tem alma e jeito de baiana. Ela explode em cores e alegria, enfrentando dificuldades e desconfortos, carregando consigo lembranças e pedaços do sertão nordestino, tão lembrado nestes períodos eleitorais e tão esquecido, quando os vencedores sentam nas poltronas fofas de seus gabinetes ou andam pelas ruas asfaltadas das grandes cidades em seus luzentes opalas pretos. Ela enfoca os lugarejos que ficam bem longe, com suas ruas empoeiradas, onde nas pracinhas crescem o mato e os porcos disputam com jumentos restos (restos mesmo!) do pouco que sobrou. Os campos e as flores, os mandacarus com suas espadas em punho enfrentando os raios do sol causticante e o juazeiro que teima ao lado dos umbuzeiros em permanecerem verdes como a indicarem que é possível se viver naquelas bandas. Lá se vai a nossa Ivonete com seu vestido de chita enfeitando de flores para ver de perto as lavadeiras da fonte, as mulheres remendando os lençóis já gastos pelo tempo. Também na hora das festas, do São João, da Santa Missão, do Natal, hora de vestir o melhor traje e dançar na pracinha ou nas casas mais abastadas. Uma lembrança que também carrego comigo, porque tenho nas veias, esta saga do nordestino que é forte e enfrenta os perigos que vão surgindo pela vida com destemor.
É por estas e outras razões que escrevi no catálogo que antes de visitar a exposição de Ivonete na Galeria Época a partir do dia 17 você deve ver uma mulher, que sozinha, representa muitas horas de palavreado e de linhas a linhas em defesa do feminino. Sendo mulher, Ivonete com a pouca instrução que tem é um símbolo desta luta, sem ser engajada em qualquer movimento feminista.
Sua luta, como de muitas outras nordestinas, não tem trégua e agora ela explode em cores vivas mostrando a beleza deste Nordeste. A forma ingênua de compor a sua obra está por trás carregada de significados, os quais é preciso enxergar.
É preciso conhecer um pouco da vida novelesca de Ivonete Dias para sentir a força da expressão de sua arte. É uma arte simples e ingênua que conseguiu sobreviver depois de mil peripécias e problemas que a artista vem enfrentando com garra, para manter acesa a chama de sua sensibilidade.
Lembro com saudade da alegria de minha amiga Ivonete Dias.
Mesmo assim me surpreende a singeleza do seu traço, a limpeza de suas cores e principalmente, a temática que lembra um álbum onde foram recolhidos excepcionais flagrantes da vida simples do interior, Sei que existem muitos primitivos baianos, alguns de qualidade, mas posso assegurar que Ivonete Dias está no patamar mais alto.