sexta-feira, 9 de novembro de 2012

MIGUEL DOS SANTOS ESTÁ NA GALERIA MULTIPLUS -29 DE SETEMBRO DE 1986

JORNAL A TARDE, SALVADOR, 29 DE SETEMBRO DE 1986.

MIGUEL DOS SANTOS ESTÁ NA GALERIA MULTIPLUS
O artista Miguel dos Santos retorna à Bahia mostrando o seu talento versátil na Galeria Multiplus.
O pintor, escultor e ceramista, Miguel dos Santos retorna à Bahia com uma nova exposição, desta vez na Galeria Multiplus. Conhecido dos baianos, Miguel trás a sua arte cheia de marcas da cultura popular na qual sabe andar por entre os caminhos misteriosos e os enigmas das manifestações religiosas.
O artista carrega consigo a marca de sua gente na medida em que vai colocando nas telas, nas paredes de suas cerâmicas e mesmo na sua escultura, elementos que deságuam necessariamente nesta interrelação.
As deformações das figuras são a prova de sua maturidade, do conhecimento do desenho e calcado em dragões e outros bichos que povoam as lendas sertanejas, das quais Miguel é um intérprete plástico, transformando essas histórias em elementos de sua obra. É, portanto, uma arte que está intimamente ligada ao povo, este povo que senta no chão na grande feira de Caruaru, em Feira de Santana e outros locais e ali expõe o pouco que produz para em seguida comprar o mínimo para garantir-lhe a sobrevivência. É este povo que dança e canta nas festas dos padroeiros de suas localidades e ali exprime o que de mais terno e verdadeiro possui. É esta gente que sofre com o descaso dos governantes que acorrem empolados na época de eleições. A arte de Miguel dos Santos tem cheiro de povo e no próprio sobrenome ele traz esta identidade, o que demonstra uma relação maior.
Sua exposição está na Galeria Multiplus, que fica no Morro do Gavaza, na Barra.Analisando a arte de Miguel, Clarival do Prado Valladares disse:
“Todas as imagens que concebe e faz são tiradas no fundo da alma coletiva que por ele passa, e prossegue. Sua escultura, modelada em cerâmica pintada, porém, se submete a uma outra solução plástica. É a depuração de sua pintura, realizada com um mínimo de elementos para a composição formal.
Não foge do compromisso arquetipal que é atendido, sempre através da síntese. Para a nossa interpretação, Miguel Domingos dos Santos é um intérprete do comportamento arcaico brasileiro, resultante do sincretismo católico-africano, iniciado com a colonização e ainda hoje aparente em determinadas áreas e em certos grupos sociais.
Ariano Suassuna, um dos maiores entusiastas da obra de Miguel, refere-se sobre sua pintura como “algo que entusiasma, povoando seus quadros a óleo, ou cerâmicas, de bichos estranhos: dragões, metamorfoses, cachorros endemoniados, santos, mitos e demônios- uma obra tão ligada ao romanceiro e por isso mesmo, tão expressiva da visão tragicamente fatalista, cruelmente alegre e miticamente verdadeira que o povo brasileiro tem do real”. E Walmir Ayala que “as mãos que hoje amoldam o barro ou pintam a convulsão sensual de um animal impossível transmitem o prazer e o domínio de uma vocação consciente e autodirigida.
Com ele, com Espídola, com Pindaro Castelo Branco, com João Câmara e Siron, com alguns outros jovens mestres da pintura enraizada no sonho (ou pesadelo) do povo, se faz a grande pintura  brasileira de hoje, em seu momento de mais inquietante resistência”.
Miguel dos Santos nasceu em Caruaru, Pernambuco, em 3 de novembro de 1944, mas desde 1960 reside em João Pessoa, que considera como sua terra de adoção e onde fez toda sua formação artística. Seus trabalhos já representaram o Brasil na Bélgica, Nigéria, Estados Unidos, Chile e Colômbia.

      CARMEM PENIDO TEM OS CHAPÉUS COMO TEMA

O chapéu foi no século passado e no início deste uma peça indispensável na indumentária de homens e mulheres. Existe uma variedade infinita de chapéus, tanto masculinos como femininos. Na maioria das vezes o homem utiliza como proteção contra o sol e a chuva e as mulheres preferem usá-lo como elemento de enfeite. O certo é que o chapéu está presente na nossa cultura de várias formas. Lembremos do vaqueiro com seu chapéu de couro, do gaúcho com o de abas largas, o lavrador com seu inseparável chapéu de palha e assim por diante. Nas sociedades industrializadas o chapéu foi substituído nas fábricas e outros locais de trabalho por resistentes capacetes de fibra e plástico. Por falar em capacete, lembremos dos militares que não esquecem os seus quepes e também seus capacetes. Este elemento tão presente nas sociedades que Carmem Penido escolheu como temática. Carmem e seu Álbum de Família.
Só que seus chapéus são aqueles utilizados nas casas de famílias abastadas e que são presença indispensável nas cabeças das pessoas que aparecem nas fotografias amareladas dos álbuns de família. Carmem pinta apenas os elementos principais e dá destaque aos chapéus. Uma pintura sóbria e tenho certeza que no decorrer do tempo vai perder um pouco da figuração, como forma de mostrar sua determinação em busca de uma arte mais identificada com o seu tempo.
Carmem enxerga por trás dos rostos sorridentes dos integrantes das fotos de álbum de família os dramas escondidos, as tristezas contidas, enfim a individualidade destes personagens distantes. Ela está expondo na Galeria do Aluno.

               AS FRUTAS “VIVAS” DE JOCELMA BARRETO

Sob o impulso de sua juventude Jocelma Barreto empunha o pincel e começa a ocupar os espaços vazios da tela com movimentos gestuais onde a espontaneidade prevalece. È um diálogo mudo, mas acima de tudo colorido e que transmite vida. As cores variadas estão perfeitamente de acordo com o gesto. Suas frutas não estão simplesmente em estado de repouso numa cesta ou em cima de uma mesa. Elas parecem movimentar-se no intuito de ocupar todos os espaços disponíveis. Ao lado Jocelma e suas pinceladas gestuais.
“Eu sinto tão vivas estas trutas!”, reage Jocelma quando alguém lhe sugere que seus trabalhos são naturezas-mortas. Através das frutas ela pensa no cotidiano e na ocupação dos espaços por estes elementos que vibram na sua expressividade. A princípio pintava telas pequenas, mas as frutas exigiram espaços maiores, e agora, já querem até ultrapassar estes espaços, quem sabe, em busca da tridimensionalidade.
Jocelma quer fazer livremente o seu trabalho, dando ênfase ao seu gesto. Nesta relação com as frutas ela transcende em busca de motivações da sua própria existência. Jovem, certamente vai deparar-se com outros elementos, que igualmente vão lhe sensibilizar, e quem sabe até, possibilitar novas formas de expressar as suas emoções.
A exposição de Jocelma chama-se “Pomares”, e está aberta a partir do dia 30 até 10 de outubro, na Mab Galeria de Arte, que fica na Rua Guanabara, 187, na Pituba. É mais uma programação da Galeria do Aluno, porém, como os funcionários da UFBa, Vão entrar em greve, ela resolveu levar suas obras para a Mab. Uma boa opção, por sinal.

           A UNIÃO DA MÚSICA COM A PINTURA 


Ainda é tempo de visitar a exposição de Túlio Resende no Museu de Arte da Bahia, a qual vai até amanhã, onde ele mostra algumas telas concebidas recentemente. Ele apareceu na redação, acompanhado de seu irmão que é músico, um violinista de mão cheia. Túlio é mais falante, enquanto Roberto Rezende, um pouco mais moço, é meio caladão. Sentou-se defronte a mim e só falou quando foi provocado. São bons dois artistas, ainda jovens, com grande futuro pela frente. O que é preciso é muito trabalho para desenvolver cada vez mais suas potencialidades, plástica e musical, respectivamente. Ao lado uma obra de Tulio Resende.
As cores de Túlio são fortes e quentes. Ele pinta quase sempre figuras humanas ou animais em momentos de solidão. Suas telas recentes também nos dão idéia de que túlio pretende resgatar momentos do cotidiano das pessoas sem a preocupação em documentá-los, mas acima de tudo de passar a sua visão de plasticidade.
Pinta dentro de um estilo que lembra os grandes mestres, inclusive mostrando bons conhecimentos de desenho.
Para ele “o pintor é mais companheiro da solidão que o próprio vento e além disso percorre a intimidade do espaço, perfura-o, maculando-o até revelar a sua ambigüidade”. Estas palavras de Túlio, vem exatamente comprovar a sensação que sentir ao fazer uma leitura da sua obra. Esta sua solidão não é afetada com a presença do irmão, porque Roberto é um músico, e pelo que deixa transparecer é um intimista que conversa com as cordas do seu violão.