domingo, 25 de novembro de 2012

MAMB TEM CATÁLOGO DEPOIS DE 25 ANOS DE FUNDADO - 19 DE MARÇO DE 1984


JORNAL A TARDE, SALVADOR, SEGUNDA FEIRA, 19 DE MARÇO DE 1984

MAMB TEM CATÁLOGO DEPOIS DE 25 ANOS DE FUNDADO

Capa do catálogo que chega atrasado
Depois de quase  vinte e cinco anos o Museu de Arte Moderna da Bahia ganha o primeiro catálogo do seu acervo. Um evento que ocorre com 25 anos de atraso. Seu atual diretor Francisco Liberato e membros da sua equipe estão eufóricos com esta façanha!
Realmente é um momento importante para o MAMB, mas que demonstra o descaso dos dirigentes que se sucederam na Fundação Cultural do Estado e outros órgãos que a antecederam e também, aqueles que diretamente estiveram à frente do MAMB.
Este acontecimento  não deveria nem ser comemorado porque é o maior estado de descaso público para com o seu patrimônio cultural e artístico.
Lembro que até há pouco tempo não havia no <AMB nem um livro onde as obras estivessem tombadas. O livro original desapareceu por encanto. Hoje, este trabalho já foi refeito estando catalogadas cerca de 480 obras de arte. Também denunciei o perigo que ronda o Solar do Unhão, um conjunto arquitetônico tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), devido a quantidade de fios expostos. O desgaste natura, acrescido da proximidade do mar poderá provocar um curto circuito com seqüências imprevisíveis. As coisas praticamente continuam como se nada disto fosse importante. É assim o MAMB vem atravessando estes vinte e cinco anos sem muitas razões para comemorações. Criado em julho de 1959, tendo como sua primeira diretora a arquiteta Lina Bo Bardi, O Museu de Arte Moderna da Bahia teve uma fase áurea como relembra o crítico Wilson Rocha, que apresenta o catálogo.
Foi uma fase marcada por um grande movimento com a realização de muitas exposições de artistas de renome nacional e internacional. Funcionava no foyer do Teatro Castro Alves e em 1963 foi transferido para o conjunto do Solar do Unhão, onde hoje se encontra.
Quando passei a participar mais ativamente dos movimentos de Arte da Bahia já encontrei o MAMB em mudança e sua decadência era visível. As dificuldades financeiras e de acesso ao museu são fatores sempre presentes que contribuem para afastar o público de seus salões. Não havendo motivação, como a realização de grandes exposições o seu acervo também sofreu o desgaste do tempo e principalmente a má conservação. Certa feita tive a oportunidade de ver quadros de Portinari, Djanira, Volpi e Tarsila do Amaral, dentre muitos outros, largados dentro de um armário umedecidos e corroídos pelo salitre. Nunca seu acervo teve uma ambientação própria que permitisse uma boa conservação!
Mesmo assim o MAMB vem atravessando este quarto de século como um Dom Quixote, teimoso e valente, querendo impor-se como uma instituição que merece respeito e que deve estar acima de qualquer querela pessoal. É preciso que o MAMB tenha uma presença mais ativa no meio artístico baiano. Sei que sua diretoria tem todos os predicados para que realize um trabalho gratificante, mas sei também que os recursos carreados para o MAMB são insuficientes. Preferem muitas vezes gastar milhares de cruzeiros com edições de livros de poetas ou cronistas que não merecem figurar em qualquer biblioteca de uma escola primária.
Esta tela de Djanira integra
o catálogo do Mam-Ba.
Mas, entre o apadrinhamento político e, assim, os livros saem e o MAMB fica esquecido com os caibros do telhado do prédio que o abriga e seu acervo apodrecidos. Este catálogo do seu acervo é bom lembrar, foi impresso graças à sensibilidade dos dirigentes da Construtora Odebrecht.
Por outro lado, este fato demonstra a iniciativa de Francisco Liberato, seu diretor e da artista plástica Zélia Nascimento que trabalharam a fundo para que este desejo de todos artistas e estudiosos da arte fosse realizado. Eles têm ainda que fazer muito pelo MAMB. Têm que reintegrá-lo à comunidade, têm que proporcionar uma maior participação dos baianos e envolver empresas públicas e privadas em suas atividades para que assim possa receber donativos e recursos que lhes garantam uma sobrevivência. Não entendemos o museu como uma coisa estática, parada, um mero salão que expõe seu acervo e obras de outros artistas que lá aparecem. Não é necessário um trabalho mais dinâmico.
Conheço as oficinas de arte que lá funcionam e já falei nesta coluna da sua importância. Mas, não bastam as oficinas. É preciso trabalhar mais e para isto o MAMB precisa de recursos, porque ele pode transformar-se num núcleo impulsionador do mercado de arte, através de uma produção orientada, através da realização de grandes exposições, de seminários e debates sobre assuntos ligados a arte.Quando recebo a programação de museus de outros estados fico triste ao comparar com as programações de nossos museus.As exposições são rarefeitas e muitas até insignificantes. Espero que este catálogo, que a meu ver, é o maior atestado de descaso público para com a instituição, que ficou durante 25 anos sem um catálogo do seu acervo o que seja o início de uma nova fase, uma retomada das atividades do MAMB.

DUAS CIDADES NA VISÃO DE GLADYS MALDAUM

Viaduto do Chá na visão da artista paulista Gladys Maldaum
Ela chegou mansa como uma simples acompanhante. Trazia uma pasta de papelão debaixo do braço. Imagine que fosse uma amiga da artista plástica Zélia Nascimento que veio ao meu encontro para falar do catálogo do MAMB. Com certa timidez abriu a pasta e retirou algumas fotos coloridas e outras preto e branco. Acompanhei aquele gesto com a curiosidade natural do jornalista. Para surpresa minha eram reproduções de bons trabalhos feitos em pastel oleoso por uma mulher que ama a paisagem urbana. Paulista, não podia deixar de retratar o Viaduto do Chá por onde passam num vaivém constante milhares de pessoas em busca do trabalho e de novas emoções. Por baixo do viaduto os ônibus e automóveis. Uma imagem de São Paulo forte e vibrante, que mesmo com seu coração sofrido, fruto de uma violência inconcebível, mais que ainda pulsa singelo, forte e belo nas imagens retidas por sua gente.
Mas, além de São Paulo, Gladys Maldaun nos traz imagens de Salvador.Não o Pelourinho, o Elevador Lacerda e outros elementos cartões-postais. Não! Ela observou outros ângulos de nossa Salvador. São imagens fixadas e vividas, não por uma turista que chega e fica enamorada. Mas por uma artista sensível que busca captar instantes da paisagem urbana por onde muitas vezes nós passamos e não paramos para observar. O importante disto tudo é que Glayds domina a técnica e este resultado de sua produção de trabalhos de São Paulo e salvador nos permite um confronto temo.
São dois momentos de alegria, dois momentos que revelam a sensibilidade. Sua exposição será aberta na próxima terça-feira, dia 20, no Solar do Unhão, Museu de Arte Moderna da Bahia, a qual recomendo aos que gostam e curtem arte.

NIKITA ESTÁ EXPONDO NA GALERIA DA ACBEU

O artista Nikita está expondo na galeria da ACBEU, na Vitória e tem apresentação de Ivo Vellame que fala de sua arte.Vejamos:“Nikita concentra a sua energia criadora na figura humana.Não trabalha com modelo vivo, enche os espaços com as figuras da sua imaginação, acredito, nascidos dos sonhos. Toda a sua pintura é dominada por um personagem, inquestionavelmente um personagem, a aparência da realidade.
Tamanha experiência somente se apanha nos grandes mestres da arte. Suas formas, suas jovens mulheres, sem  contornos nítidos, porque entregues à sua luz e sombra sensíveis, definem-se muito mais como manchas, uma vez que, o artista não tem a preocupação de mostrar as estruturas anatômicas das usas figuras. São formas picturais, definidas pela cor. Permitam-se acrescentar, trata-se de uma pintura tonal, porém na consciente colonista que dignifica os neutros, que explora o Henri Matisse. Suas mulheres quase sem rostos, de corpos sem volume palpáveis não tomam conhecimento de nós, espectadores que somos dos seus múltiplos gestos e posturas, visões fantasmas particular maneira de sentir Nikita, pleno vitalismo bergsoniano, onde a intuição e o sentimento justificam tudo.