quinta-feira, 15 de novembro de 2012

JENNER FAZ POEMAS QUANDO PINTA A PAISAGEM BAIANA -17 DE MAIO DE 1986.

JORNAL A TARDE, SALVADOR, 17 DE MAIO DE 1986.

JENNER FAZ POEMAS QUANDO PINTA A PAISAGEM BAIANA
Bahia , uma lição de harmonia nesta paisagem baiana pintada pelo sergipano Jenner Auiusto
Basta abrir o catálogo da exposição de Jenner Augusto e observar as ilustrações que a gente fica logo duplamente satisfeito. Primeiro, pela abordagem da paisagem baiana, e segundo pela maestria deste pintor. Sentimos a satisfação que estamos diante de um dos mais importantes pintores de sua geração que continua resgatando para a posteridade estas imagens calmas e belas que somente as pessoas com sensibilidade conseguem captá-las com todos os elementos que as compõem. A leveza dos azuis dos céus e a espuma do mar contrastando com a negritude desta gente baiana, sofrida e forte que enfrenta seu dia a dia retirando do mar seu próprio sustento. São os pescadores e até mesmo os barraqueiros que vivem de vender bebidas e guloseimas àquele que vão banhar-se nos muitos quilômetros destas praias .E doutro lado da Cidade os casebres que se amontoam à beira ou mesmo dentro do mangue com suas cores fortes e até acinzentadas refletindo no espelho fétido dessas águas onde quase não há vida. Em seguida desfilam as baianas de acarajé com seus trajes marcados pelas rendas e saias rodadas, fruto desta herança africana. Surgem as lavadeiras retirando a sujeira das vestes dos seus fregueses e finalmente, no horizonte desponta a Cidade Baixa com o Forte de São Marcelo erguido ao centro do mar guardando toda esta beleza que se espraia por toda esta Baía e terra adentro.
Lavadeiras do Abaeté, elementos poéticos na labuta diária
Diria que Jenner é o mestre da paisagem baiana. Somente consegue captar toda esta atmosfera tropical sem cair no lugar comum. Na junção do casario com a própria natureza ele constrói um mundo pictórico que engrandece a paisagem . Na suavidade de suas cores ele vai registrando a paisagem e deixando implícito o seu interesse pelo social, na medida em que nos mostra a própria labuta desta gente simples. A propósito escreveu certa vez Jorge Amado que “na pintura de Jenner há um permanente interesse social, o artista jamais se encontra desligado de seu tempo e de seu meio ambiente. Problemas, dores e lutas refletem-se em sua obra, tanto quando a paisagem e a luz.
É uma pintura harmoniosa, o que percebemos no gesto de suas figuras, na disposição de outros elementos, como os barcos, o casario, as igrejas. “Tudo dança e canta obedecendo a batuta deste artista sessentão que continua jovem e procurando sempre acompanhar o que está acontecendo a sua volta, sem falar na sua civilidade, no trato com as pessoas”.
Escrevi certa vez que Jenner é um homem em paz com a vida. Sua obra rica em sensualidade é resultado do seu papel de intérprete da paisagem e da gente baiana. “Entendo que ninguém soube captar tão bem, a alma da gente baiana, como este sergipano”. Estas palavras integram o catálogo juntamente com apreciações de Wilson Rocha, Mirabeau Sampaio, Olney Kruse dentre outros.
Não existem temas desgastados. Existem artistas bons e artistas ruins. Um artista ruim aniquila qualquer temática e técnica. Um grande artista engrandece qualquer temática com o uso perfeito da técnica. Ai está a diferença na abordagem de uma temática como o faz Jenner Augusto com a paisagem baiana, a qual já foi utilizada como tema por inúmeros artistas bons e ruins. No caso de Jenner a paisagem é abordada com muita sabedoria e o resultado é esta belíssima exposição que ele fará na Galeria Época, no Rio Vermelho, de 14 a 24 de maio.
Sinto também a sua identificação com as coisas simples desta terra cheia de graça e poesia. Jenner é um poeta da cor. Ele faz poesia quando está pintando a Bahia. Cada quadro seu tem elementos que são intrinsecamente ternos e líricos, os quais no passam uma sensação de paz e harmonia.


REFLEXOS DE ANA BARBUDA ESTÁ NA GALERIA DO ALUNO

Ana Barbuda com um dos seus trabalhos  da exposição
Esta é a primeira exposição de Ana Barbuda que está aberta na Galeria do Aluno, na Escola de Belas Artes da Ufba. São trabalhos de uma iniciante, mas que já mostram que tem talento e que é necessário apenas continuar trabalhando com seriedade.
Ânimo não falta a Ana. Ela transborda felicidade por estar fazendo aquilo que gosta. Esta sua exposição intitulada Reflexos é toda montada em cima de objetos comuns na maioria vasilhames – garrafas, taças, copos, etc – que são presença diária na vida profissional de Ana Barbuda. Antes de estudar na Escola de Belas Artes já trabalhava com decoração, principalmente de aniversários. E a influência desta atividade está patente na escolha da temática.
Só que ela sabe utilizar bem simplificando as formas em poucos traços e conseguindo efeitos realmente de qualidade.
Mas esta sua nova abordagem foi antecedida por paisagem mais tradicionais .”Houve um rompimento com tudo aquilo que vinha fazendo. Isto foi possível graças ao ensinamento de desenho e pintura que tive na Escola”. Esta afirmação de Ana vem reforçar a necessidade de uma orientação quer seja acadêmica, quer seja regular, quer seja de um pintor, ou artista mais experiente. Foram observações de seus professores que conseguiram orientá-la em outra direção. Ela escolheu o guache para manifestar suas emoções e confesso que fiquei satisfeito com alguns trabalhos.Inclusive é possível a gente sentir a sua evolução quando examinamos um trabalho feito a mais tempo com os mais recentes.
Portanto, é só uma questão de continuar trabalhando com o entusiasmo que ela deixa transparecer. Sua mostra tem 18 trabalhos, sendo seis deles de maior tamanho. Ela usa muita cor em pinceladas soltas , que dão um efeito muito bonito de volume e reflexos.