quarta-feira, 14 de novembro de 2012

DEPOIS DO MURO DE BERLIM , BEL BORBA PINTA EM NOVA IORQUE - 12 DE OUTUBRO DE 1987.


JORNAL A TARDE, SALVADOR, SEGUNDA-FEIRA , 12 DE OUTUBRO DE 1987. 

DEPOIS DO MURO DE BERLIM , BEL BORBA PINTA EM NOVA IORQUE
O artista baiano Bel Borba colocando o seu painel num tapume da cidade de Nova Iorque
O artista Bel Borba está realmente empenhado em tornar cada vez mais popular o seu trabalho. Já pintou painéis nos muros do Rio Vermelho, Graça, Pernambués, em Itabuna, Ilhéus, Berlim (o famoso muro que separa as duas Alemanhas) e, agora, faz mais um painel, desta vez na 2º Avenida, East Village, em Nova Iorque. O nosso Bel é uma pessoa que gravita a 100 por hora. Fala rápido, pensa rápido, porém, tem uma característica própria do baiano descansado. Dorme muito e quase sempre chega atrasado nos horários de seus compromissos. Ao chegar atrasado, dá uma larga risada e desculpa-se pelos “minutinhos” que fez seus amigos esperar. E tudo fica numa boa.
Certamente a produção de bel é uma das mais importantes desta geração 70, que chegou e já faz presença no mercado de arte e nas galerias. A sua temática é muito atual e enfoca problemas urbanos e conflitos sociais vividos por este mundo conturbado. Não importam as fronteiras, pois, hoje, estamos irmanados, de mãos dadas mesmo, enfrentado toda espécie de pressões, discriminações e intoxicações. Vejam vocês quem imaginava que a distante Chernobyl tivesse a ver com a gente? Mas agora, já em Goiânia, em pleno centro deste Brasil imenso, várias pessoas são vítimas da irresponsabilidade e estão contaminadas com o tal do Césio 137, o que significa estar sob efeito de radiações.
Portanto, a comunicação é responsável pela união dos elos e diminui as distâncias. Talvez, por isto que Bel tenha viajado para Berlim e lá deixado o seu protesto contra aquele muro infeliz que separa uma nação e que é guardado por pobres homens com suas metralhadoras prontas a disparar. Sai de Berlim, e volta a Salvador e, de repente, o inquieto Bel vai para Nova Iorque, em pleno coração da cidade, protestar com seu painel contra o apartheid e o intitula de “O Dominó da África do Sul. Um jogo de peças pretas”. A mensagem serve também para os norte-americanos porque lá também o racismo é uma presença muito forte, principalmente nos estados do sul.
Ele pintou o painel em grandes folhas de papel e depois descobriu um tapume e copiou para que os habitantes de Nova Iorque pensem um pouco sobre esta discriminação.
Bel está com um grande projeto de colocar vários painéis de costa a costa do País, começando por São Luís e indo barrar em Porto Alegre.
Ele pretende cobrir pelo menos uma dez capitais mas, antes, vai expo-los aqui.
Antes de concretizar este projeto, para o qual está procurando patrocínio, ele vai expor trabalhos de grandes dimensões   de 3 x 2 metros; de 1,5 x 1,5 metros; de 5,80 x 2,10 metros, na galeria do Teatro Municipal de Ilhéus a partir de 13 de outubro. Uma boa oportunidade dos ilheenses apreciarem a obra de Bel Borba.

NOVAS PROMESSAS OFICIAIS NA ÁREA DAS 
ARTES PLÁSTICAS.

Chegou tarde. Porém, como diz o povo, “antes tarde do que nunca”. Espero que o nunca seja afastado. Na realidade, o projeto que tardiamente o Secretário de Cultura do Estado assegura que colocará em prática, ainda estar no plano dos sonhos e das promessas. Como neste país planejamento a longo prazo significa que a obra nunca será executada; tenho muita desconfiança que a bienal baiana será revitalizada, que haverá mapeamento e apoio ás produções do interior, que será criado um Centro de Referência de Artes Plásticas no Solar do Unhão, e, finalmente, que vão ser realizadas grandes exposições coletivas de arte contemporânea produzida aqui. Projetos necessários e reclamados por todos nós que acompanhamos o movimento de arte na Bahia. Nada disso é novidade.
Lembro que denunciei a discriminação com relação às artes plásticas em detrimento de outras manifestações, principalmente a música, da qual o atual secretário é integrante, quando do lançamento do Projeto Feira de Arte. Agora recebo um release com estas promessas. Mas o protesto valeu, porque foi um alerta. Quanto ao apoio à produção de arte originária no interior, infelizmente, tenho quase certeza que serão premiados os peemedebistas, petistas e outros em  detrimento de outros artistas, que antes eram governo, e, portanto, beneficiados, e agora serão esquecidos. São lados de uma mesma moeda e a arte vira política e gangorra nas mãos de pseudos intelectuais.
A prioridade do Departamento de artes Plásticas da Fundação Cultural, segundo Zivé Giudice, é para ações mais coletivas.
Como afirma ele, poucos eventos significativos no campo das artes plásticas se realizaram na Bahia depois das bienais, a não ser alguns salões esporádicos, mas que não tiveram continuidade.
 Assim, a produção contemporânea, especialmente a partir da década de 70, se ressente da falta de intercâmbio com os outros centros, a não ser alguns casos esporádicos de artistas individuais que tentam esse diálogo por iniciativa própria. O que nós precisamos é estabelecer o diálogo com os outros centros e com a própria comunidade de forma mais incisiva e com certa regularidade para o próprio desenvolvimento das artes plásticas.
A realização de exposições coletivas para permitir uma amostragem da nossa produção, assim como o intercâmbio com outros centros não significa que o artista individualmente, não tenha vez no Departamento de Artes Plásticas, conforme esclarece o diretor. “nós vamos atender, dentro do possível, às solicitações individuais. O departamento, inclusive, realizará regularmente concursos de projetos para exposições individuais”. Independentemente desse concurso, todos os artistas podem participar, dar sugestões e contribuir com as ações coletivas do Depap, inclusive participando das exposições coletivas. Para isso, ocorrem reuniões quinzenalmente, às terças feiras, às 17 horas, no terceiro andar da Biblioteca Pública, barris, aberta aos artistas plásticos interessados.

      O MUNDO SOLITÁRIO DE FERNANDO LISBOA
Foto de Arestides Baptista
Fernando Lisboa, 25 anos, estudante de Arquitetura sempre teve a vocação para a arte, particularmente para a pintura. Começou desenhando aos cinco anos e vem-se dedicando insistentemente ao que define como”um exercício interessante”. Seus trabalhos baseiam-se no realismo fantástico, segundo afirma,”procuro sempre através dos meus quadros, expressar a solidão e as angústias do homem moderno na tumultuada sociedade urbana.”
Essa temática tem muito a ver com o próprio artista, que se diz uma pessoa inquieta, na busca incessante de novas descobertas e ao mesmo tempo marcada pelas dificuldades, pela tristeza e também pela solidão. Ela afirma que sabe dos problemas que irá enfrentar ingressando definitivamente na vida artística. Mas entende que com esforço e vontade os empecilhos poderão ser superados.
“Na verdade, não conheço bem o mercado de arte da Bahia.Imagino que terei dificuldades. Todavia, tenho também pleno desejo de vencer e quando a persistência é mais forte, acabamos por ultrapassar as barreiras. Lembra. Ele vai expor dia 22 na Galeria de Arte Viva do farol Praia Center.