quarta-feira, 1 de maio de 2013

SEIS MULHERES - 23 DE OUTUBRO DE 1976


JORNAL A TARDE,SALVADOR,  SÁBADO, 23 DE OUTUBRO DE 1976

           SEIS MULHERES NA GALERIA CANIZARES

A técnica de Rosa Alice
Xilo de Terezinha Dumet
Seis artistas estão expondo na Galeria Cañizares, na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia.Umas são professoras e outras alunas. No final um trabalho integrado e de qualidade. Carmem Carvalho com suas estamparias abstratas, Zélia Maria com suas cerâmicas, Terezinha Dumet e Hilda Oliveira com as xilos, Rosa Alice com bico de pena e Graça Ramos com uma técnica mista de colagem e desenho. Assim o visitante tem a possibilidade de observar trabalhos com várias técnicas concedidos por artistas que venceram a tão criticada barreira da academia. Estudar Belas Artes para alguns é considerado um sacrilégio.
A estamparia abstrata de Carmem Carvalho



Uma grande bobagem porque a Academia não ata as mãos, as pernas e muito menos a consciência de ninguém. A Academia dá ao indivíduo a possibilidade de desenvolver seu processo criador através a transmissão de experiências de seus mestres e das técnicas. O resto é um problema individual que depende exclusivamente da capacidade. Esta estória de arrotar que é autodidata, muitas vezes, visa apenas esconder deficiências de desenho e de manejo com o pincel. Elas não tem vergonha de dizer que pertencem à
Escola de Belas Artes. Muito pelo contrário, escolheram a própria galeria da Escola para realizar sua exposição, que foi uma das mais concorridas que tenho visitado nestes últimos tempos.
Foi dentro desta integração entre estas artistas que consegui reuni-las no último sábado á tarde na casa de Carmem Carvalho. Na hora marcada já estavam juntas falando de sua arte. è parte desta conversa informal que mantivemos que tentarei mostrar. Vejamos.
Zélia Maria é uma artista apaixonada pelas coisas vivas e naturais. Quando manipula o barro frio e úmido ela procura dar-lhe vida, concebendo formas arredondadas, porque nas coisas que tem vida as formas não são retas.
Retos são os espigões de concreto armado. O homem tem curvas, as árvores também e os demais animais. Daí suas cerâmicas refletem sua própria personalidade e é resultado do diálogo que se estabelece entre suas mãos ágeis e o barro, que ganha vida.
Ela risca o desenho que pretende jogar. Mas quando o jogo começa, o desenho é esquecido e vão surgindo as formas arredondadas. Uma prova de vitalidade de seus trabalhos é que observei durante a vernissage que todos queriam acariciá-los. O visitante não se contentava em olhar. Olhava de um lado para outro e de repente passava de leve as mãos em suas cerâmicas como estivesse acariciando uma coisa viva, uma coisa proibida. É como diz Zélia Maria um trabalho orgânico.
Carmem Carvalho está expondo estamparias. A idéia inicial era a padronagem que é uma repetição de formas.
Mas passou a observar que seus trabalhos poderiam ganhar e ganharam mais força se utilizasse um suporte adequado. Encontrou-o e o resultado foi uma série de trabalhos que tem muita unidade e força. Aqui o espaço é muito mais limitado em relação a padronagem. O suporte passou a funcionar como uma tela e dentro desses espaços limitados Carmem Carvalho conseguiu o que desejava. Sua atração são as formas abstratas, como que deseja expressar-se através de metáforas, uma fuga inconsciente da realidade que lhe cerca. É o problema do condicionamento social do artista que reflete na sua personalidade criadora.
Obra de Graça Ramos
Carmem não traça figuras de coisas definidas, mas se você examinar os seus trabalhos com cuidado encontrará uma série de formas bem definidas, como diz sua colega Graça Ramos. Sinto a necessidade em não definir as formas. Talvez devido a problemas interiores de uma repressão externa. Portanto ela se esconde atrás de suas formas abstratas. O abstrato está em todos nós. Se ela partisse para a figura, agora, certamente não estaria sendo autêntica com aquilo que deseja expressar.
Graça Ramos- Já a Graça tem a necessidade de definir as suas figuras e ás vezes desnudá-las. Uma vontade de criar e participar do agressivo. Um de sua própria personalidade expansiva. As cores e o próprio suporte que escolheu fogem de uma realidade palpável.
Cria um mundo de sonhos onde mulheres cavalgam motocicletas. Um mundo mágico, ás vezes nostálgico. É uma busca, uma projeção em cada um desses trabalhos expostos. Sempre vivo buscando, por que? Não sei. Sei apenas que tudo está e deve ser dito por meio deles.
Rosa Alice- Com seus bicos de penas. Um gosto pelo desenho e da figura humana. Uma transposição para o sonho de todo o homem que é voar. Assim com suas figuras de sexos indefinidos Rosa Alice voa para um local indefinido onde a liberdade está expressa nos cabelos revoltos. Um vôo cego como das gaivotas que buscam ni infinito dos oceanos algum porto seguro. Rosa Alice fala pouco e tem uma força de expressão muito grande.

Zélia Maria com suas cerâmicas
Gravadoras- restam as duas gravadoras: Hilda Oliveira preto e branco e Terezinha Dumet que utiliza cores em suas xilos. Hilda cujo trabalho já conheço de algum tempo, tem suas origens lá pelas bandas do São Francisco e há alguns anos atrás ela fez uma série de trabalhos sobre rendeiras, barranqueiros e outras figuras da região. Hoje sua xilo é mais trabalhada, mais rebuscada. É uma artista que dificilmente se adaptaria ao bico de pena ou a uma técnica mais leve. Porque seu temperamento agressivo é perfeitamente identificado com os instrumentos que manipula para sulcar a madeira de onde retira belas composições. Ela defende a gravura preto e branco, por ser mais clássica, por ser mais forte. O que não concorda Terezinha Dumet, de temperamento mais calmo e que joga as cores, conseguindo também belas composições.
A xilo rebuscada de Hilda Maria
No fim temos gravuras com muita expressão tanto a clássica como as xilos coloridas, mais leves. Usam o desenho, mas a força de seu trabalho está nas formas conseguidas.
Chego ao fim. Falando do trabalho de seis jovens artistas que estão perfeitamente integradas com suas técnicas, suas formas e seus instrumentos de trabalho. Mas principalmente seis artistas que juntas vão contribuir em muito para o desenvolvimento das Artes Visuais em nosso Estado, porque é preciso renovar. É preciso tomar lugar á mesa, onde pessoas estão banqueteando há mais de trinta anos, os frutos de um trabalho, que vem se repetindo, sem inovar.