domingo, 5 de maio de 2013

LYGIA MILTON A PINTORA DO SILÊNCIO


JORNAL A TARDE , SALVADOR, SÁBADO, 27 DE AGOSTO DE 1977

               


Seria alguém capaz de pintar o silêncio, isto é transferir para a tela toda a atmosfera que envolve um lugar silencioso?Se alguém me fizesse esta pergunta eu acertaria: Lygia Milton. Ela consegue com suas linhas retas e com o horizonte longínquo traduzir todo o silêncio que poderíamos encontrar numa rua, numa casa ou numa sala. Uma pintura que deixa o observador tranqüilo e descansado. Até suas árvores desfolhadas não demonstram ou traduzem a destruição, mas a solidão tão necessária aos intimistas, a solidão tão buscada hoje em dia quando as individualidades são mutiladas e invadidas. Lygia no entanto, não deixa transparecer com todos que conversa esta solidão, que parte da sua inconsciência. Não quero dizer com isto que seu trabalho seja concebido na base da improvisação, ao contrário, é uma obra pictórica cuidadosa, feita com requinte e vontade de acertar.
Como estamos vivendo este fim de século com uma invasão do oriental, poderíamos dizer que sua pintura carrega algo de metafísico que transpõe a realidade. Até mesmo os casarios e as desgastadas marinhas ganham nova vida nas telas de Lygia que agora parte para colocar figura humana. O que chamo a atenção é que as figuras escolhidas por Lygia se encaixam perfeitamente àquela ambiência do silêncio.
São mulheres com rostos indefinidos, vestidos com longas roupas a olhar o horizonte que desponta de uma janela ou mesmo que se descortina numa praia. Imóveis, tudo imóvel. As paredes retilíneas com as cores contrastantes e sombreamento.
Não posso dizer que as árvores desfolhadas estejam secas na expressão da palavra. Elas parecem traduzir vida, só que uma vida solitária. Lygia Milton tem um extenso curriculum com várias exposições coletivas e individuais.

                     GUEL E SUAS MARINHAS

Estão expostos na Galeria Panorama duas dezenas de telas do artista Guel, que continua andando em busca de um amadurecimento artístico.
Não podemos dizer que são trabalhos  prontos, acabados e que encontrou por fim a sua personalidade artística. Não, ele próprio faz questão de dizer que esta mostra poderia ser intitulada estudos, o que traduz exatamente o que pensei quando estive visitando-o em seu atelier no Rio Vermelho.
O que existe em Guel falta na maioria dos artistas jovens baianos.Uma grande vontade de criar. Trabalha com horários definidos. Evidente que não como um executivo porque o ato de criar não pode ficar preso a nada. É um ato livre e espontâneo. Porém, Guel fica horas e horas trabalhando e examinando os seus quadros. Este artista tem muitos caminhos a seguir em busca de um estilo e conseguirá dentro em breve porque é disciplinado. Isto é uma das coisas mais importantes para quem está começando, buscando. Não quero dizer que os trabalhos ora apresentados tenham pouco valor. Pelo contrário, gostei dos trabalhos mostrados por Guel que sai do spray e volta-se para o  pincel com toda força de sua juventude. As marinhas trazem algo de novo, porque ele não está simplesmente preocupado em transportar a paisagem. Mas em levar á tela uma marinha carregada de abstrações e as figuras funcionam como um elemento a mais enriquecendo o trabalho.
Outra coisa que quero falar de Guel é a sua humildade em ouvir as críticas, as ponderações daqueles que vem acompanhando os seus passos. São passos firmes, porque tem consciência do que deseja fazer.
As cores utilizadas também me chamaram atenção porque tem uma certa homogeneidade. Os vinte quadros devem ser vistos numa seqüência porque assim o espectador terá uma idéia do desenvolvimento de seu trabalho.
Estamos acostumados a ver barcos e marinhas.Os amadores quase sempre elegem os barcos e as marinhas para sujar as telas. Contribuem para o desgaste dessas temáticas. Como fazem com o casario os pintores de rua que expõem no Terreiro de Jesus. Verdadeiros enganadores que vivem ás custas de turistas menos avisados. O plano de Guel é outro. Esta acima desses amadores e enganadores. É um profissional.
Um artista que pensa e realiza dentro de suas naturais limitações, que a cada dia vão sendo diminuídas. A medida que trabalha com as cores e novos instrumentos de trabalho ele está desenvolvendo suas  habilidades. Um desenvolvimento de habilidades consciente em busca de uma realização íntima, focada em sua sensibilidade de artista.
Espero ver ainda este ano outra exposição de Guel para ter uma melhor visão do seu crescimento. Já podemos falar em Guel artista. Em Guel que sai do spray e vem com o pincel em punho. Num artista que vem crescendo em sua maneira de criar e ver as coisas que estão acontecendo ao seu redor.

                 NINNA BARR NA PETITE GALERIE


A vivência com a natureza serviu de inspiração constante para a criação de Ninna Barr que a partir do próximo dia 30 estará expondo na Petite Galerie, no Rio de Janeiro. Estudou na Escole des Beauz Arts, em Géneve onde ganhou uma medalha de ouro e com várias exposições individuais já realizadas esta artista transpõe hoje para seu vocabulário gráfico-eletrônico materiais que encontra como sementes, gravetos, folhas e flores acrescentando outros materiais originários da industrialização e no final surgem trabalhos de qualidade. Uma junção perfeita de materiais originários da natureza e da industrialização como a demonstrar a necessidade de um equilíbrio entre a natureza, que deve ser conservada, e o desenvolvimento que deve prosseguir. Estamos portanto diante de um artista criativa, de uma artista que conhece os materiais e os utiliza com maestria.
Suas obras parecem que são códigos a serem decifrados por todos aqueles que tem oportunidade de vê-las.O critico Walmir Ayala que faz a sua apresentação nesta exposição diz que sua obra pode ser entendida como construtivismo lírico, é o que faz esta pesquisadora paciente e informada criando uma linguagem que pode ser discutida, mas nitidamente pessoal e objetiva. A síntese de todo o momento, ao qual recusa a insistente agressividade, assoma na limpeza espiritual daqueles signos cheios de interferências comunicantes que hoje se alteiam como árvores severas, ou monumentos ascendentes á sobrevivência do espírito e da essência natural da condição humana num tempo bárbaro.