domingo, 5 de maio de 2013

UM CRÍTICO


JORNAL A TARDE SÁBADO, 04 DE JUNHO DE 1977

                 

É difícil a tarefa de criticar, embora muitos pensem ser fácil e gratuita, provoca  comentários favoráveis, quando são feitos elogios e, desfavoráveis, quando é negativa. Mas evidente que temos que criticar para separar os bons e verdadeiros artistas dos ruins. Evidente que isto gera, quando em vez, alguns deslizes e mesmo o imperativo do gosto onde quem faz a crítica. O que interessa no momento é a presença em Salvador de John Edwin Canaday consagrado crítico norte-americano que ora visita o Brasil e veio para inauguração da exposição. O Brasil Visto por Ethel Easton Paxson ,de 1916 a 1921.
Quando de sua passagem pelo Rio de Janeiro ele concedeu uma entrevista a Liana Moreira, de O Globo que transcrevo por considerar ilustrativa para todos nós que nos interessamos pelas artes. Ele tem setenta anos e aposentou-se recentemente de sua função como crítico do New York Times. Acredita que a crítica profissional fez muito mais mal do que bem ás artes nos últimos 30 anos. É uma posição discutível, tendo em vista o papel que exerce a crítica na divulgação e orientação daqueles que gostam e adquirem obras de arte. Por serem longas as perguntas de Liana vou apenas transcrever algumas das respostas do Sr. Canaday. Vejamos:
"Picasso era uma força da natureza. Mesmo assim, quando ele começou, ninguém lhe deu atenção. E quando eu digo ninguém não estou deixando os críticos de fora. Eles também não perceberam que estavam diante de um gênio. Eu acho realmente que a pintura sofreu muitos prejuízos nos últimos 25 ou 30 anos, graças aos críticos. Eles estimularam movimentos muito artificiais.
O certo seria o artista apontar o caminho e o crítico segui-lo. Mas o que acontece é exatamente o contrário. Nos últimos 30 anos os críticos colaboraram com os artistas apontando novas direções. Com isto apareceram movimentos como a minimal art, a arte conceitual, o colorfield painting, todos artificialismos. O colorfield painting,  é bonito se olhar, aquelas telas enormes cobertas de um tom laranja com um pouquinho de amarelo de repente. Mas é puro artifício.
Diz ainda Canaday que sem dúvida nenhuma foi a pop art, o movimento pop teve uma grande importância porque trouxe a arte de volta ás suas ligações com o cotidiano. Foi um movimento de resultados comparáveis ao Realismo francês da metade do século XIX. Dentro do movimento pop o trabalho que mais me agrada é o de James Rosenquist. O Andy Warnol não é mais um artista. Hoje ele é apenas uma personalidade profissional.
Acha que a art pop trouxe a arte de volta ao nosso mundinho do dia a dia. O hiper-realismo tirou a arte de uma posição elitista que ela vinha tomando, graças a incapacidade do grande público de compreendê-la. O abstrato era para uma meia dúzia de pessoas. O hiper realismo é para todo mundo.
Para ele os críticos sobrevivem porque as pessoas não tem confiança em seu próprio julgamento. A função de crítico levaria a sério, é muitíssimo limitada. Nas conferências que venho fazendo, abordo o papel do crítico, tanto em relação ao público quanto em relação ao artista. Antes de mais nada, o crítico tem a obrigação de escrever de forma tal, que qualquer pessoa tenha todas as condições para compreender. Evidente, que está sua posição de uma linguagem voltada para o público devemos procurar fazer. É muito fácil para algumas que se arvoram  a críticos, principalmente em Salvador escolher uma palavras bonitas nos dicionários e largar. Muitas vezes sem o sentido lógico, sem permitir inclusive á formação de uma imagem sobre o que escrevem. Quando iniciei esta coluna tive a primeira preocupação em atingir a todos, especialmente, os novos artistas e novos colecionadores. Aplico a minha experiência jornalística de escrever com objetividade, e, usando na medida do possível, palavras fáceis de entendimento. Poderia utilizar uma veborréia com trajetos e um palavreado, mas não levaria a nada.
Esta posição de John Canaday é da mais alta importância e vem dirimir uma série de dúvidas com relação a certos trechos que encontramos nos catálogos de exposições de artistas baianos.
Quanto ao vídeo-tape como arte ele afirma que é televisão, e, como televisão, não me entusiasma como meio para transmissão de arte.
Acho que o veículo não é apropriado. Creio que a única maneira de mostrar arte através do vídeo-tape está ligada a algo bem diferente do que eu estudo: a arte dramática.
Falando sobre o mercado da arte disse que não diria que o mercado de arte americano é corrupto. O que existe é uma competição terrível. Este é o grande problema. Em nova Iorque existe uma quantidade inimaginável de bons pintores.
Você pode ser um grande pintor e não conseguir encontrar uma única galeria que mostre os seus quadros.
Uma vez  conseguida a galeria, o pintor terá que entregar 30% do valor do quadro á galeria. Isso é tudo.
Nova Iorque começou a liderar as arte e as idéias em geral depois da Primeira Grande Guerra. Atualmente, com a velocidade das comunicações, as idéias pululam por todos os lugares ao mesmo tempo. O que ocorre hoje em dia é que Nova Iorque continua sendo uma cidade muito estimulante.
Mas já não se pode falar em liderança ou centro internacional das artes."

            MUSEU OU CENTRO DE ARTE POPULAR

Cinco mil pessoas já visitaram no Rio de Janeiro a exposição composta de peças afro-brasileiras muitas das quais foram recolhidas em nosso Estado. Por isto a galeria Sérgio Millet, da Funarte bateu o recorde de visitantes em outro espaço de tempo obrigando aos promotores do evento a prorrogá-lo até 10 de junho.
O grande destaque são dos dez orixás representados em manequins, portando os trages rituais de Exu, Ogum, Oxossi, Omolu, Ossãe, Oxum, Xangô, Iansã, Yemanjá e Oxalufan acompanhados de seus ornamentos simbólicos.
Uma completa coleção da Panos da Costa, de origem africana e baiana confeccionados por Abdias, esculturas e símbolos do candomblé, de autores anônimos, além de estatuetas em marfim representativas dos mitos angolanos constituem outro destaque da mostra.
Dentre as esculturas de marfim figura uma representando Zumbi, divindade comum aos candomblés de Angola, Congo do Brasil, que é o deus da fertilidade e da criação.
Mas o que nos importa de perto é a capacidade criativa do artesão encarregado de perpetuar através de suas mãos calejadas e hábeis toda uma gama de utensílios que são usados como ornamento ou dentro de uma simbologia religiosa.
O Abdias que fica horas e horas em frente ao tear tecendo os famosos Panos da Costa é uma dessas figuras. Outros são quase anônimos que labutam diariamente com o barro, metal e fibras criando as cartinhas, as esculturas de Exu, e as braçadeiras. São pessoas do povo que vivem diretamente ligadas aos cultos e as pessoas que deles participam.
Portanto, é um trabalho integrado e feito com amor e fé em certos preceitos de suas seitas e religiões.
Já tivemos em Salvador um Museu de Arte Popular onde figuravam centenas de peças, sendo que a maioria pertencia a colecionadores.
Deixaram as peças sem a conservação devida e por isto as peças foram sendo retiradas paulatinamente por seus donos. O que não entendo é que a Bahia é talvez o estado mais rico em arte popular e não possuímos um museu, uma sala com este material reunido em maior ou menor quantidade. É um apelo que faço aos dirigentes da Fundação Cultural para que não fiquem apenas editando ou reeditando livros e deixem de lado tão importante setor, inclusive para o nosso turismo que começa a crescer. Fico imaginando também, como as pessoas são tão displicentes ao ponto de deixar dentro de caixotes empoeirados o acervo do Museu de Arte Moderna.
Mas, o que levanto é necessidade da realização de um estudo de uma pesquisa, feita por gente responsável de nosso artesanato. O baiano de modo geral quando fala em artesanato lembra a figura de um turista com uma figa ou um patuá nas mãos. Nada disto. Temos instrumentos, indumentárias e toda uma gama de objetos que são verdadeiras obras de arte. A cerâmica e a escultura são talvez mais ricas em relação à tecelagem, porém esta também é muito importante. Surge portanto uma medida a médio prazo e confio que as pessoas que agora tenham a sensibilidade em pensar que estamos relegando o setor a um plano secundário. A arte popular tem o mesmo valor que a arte feita para uma cama da mais intelectualizada.
Antes de tudo é feita por gente que sente a necessidade de criação com muito mais pureza.

                      PAINEL

CORDEL - Quero falar também da importância dos gravadores que ilustram os livretos de cordel. Alguns de aguçada sensibilidade, que poderiam obter imenso sucesso de mercado, caso fossem promovidos como merecem.
Agora mesmo foi lançada uma Antologia de Literatura de Cordel, editada pela Fundação José Augusto, entidade cultural do Rio Grande do Norte, com patrocínio da Shell. Com 330 páginas e uma tiragem de 20 mil exemplares, a obra contém 60 títulos de estórias rimadas dos principais poetas populares do Nordeste, com excelentes ilustrações de gravadores nordestinos.
A Antologia foi organizada por Sebastião Nunes Batista, que classificou os poemas de acordo com os diversos círculos da Literatura de Cordel, dividindo-os em: maravilhoso, gigantesco, heróico, religioso, moralizante, cômico, satírico, histórico e circunstancial.
Esta Antologia reproduz um acervo de subsídios e indicativos para pesquisas em lingüística, sociologia, comunicação de massas, artes visuais o antropologia.
Segundo os historiadores é oriunda das folhas volantes portuguesas a literatura de cordel, que apareceu em Lisboa por volta de 1895.
Trazida pelos portugueses para o Nordeste, encontrou aqui condições plenamente favoráveis, frutificando em seu ambiente sócio-cultural. Dizem ainda que a palavra cordel é devido os folhetos serem amarrados em cordéis, para exposição em locais públicos.
As xilogravuras são de autores dos Estados da Bahia, Rio Grande do Norte, Ceará, Pernambuco, Paraíba e Alagoas.
ADERBAL- o artista Aderbal Rodrigues esteve expondo no Rio Grande do Sul, vinte telas a óleo, mostrando um pouco do candomblé e seus orixás. Alguns desses trabalhos serão mostrados numa futura exposição, que fará juntamente com a ceramista Nilza Barude na Mini Galeria da Associação Cultural Brasil-Estados Unidos.( Foto)

ROMANTISMO- Uma escultura de metal refinado fosco e que representa o Caminhante sobre o Mar Enublado, do pintor Caspar David Friederichs. A escultura foi feita por August Ohm, que pretende erigir o monumento em homenagem ao romantismo alemão.