domingo, 12 de maio de 2013

VONTADE DE ESCREVER


JORNAL A TARDE, SALVADOR, SÁBADO, 24 DE SETEMBRO DE 1977


Uma obra de João Augusto
O pouco tempo que estive com João Augusto, pude sentir a sua imensa vontade de dizer coisas. Qualquer pedaço de papel é automaticamente preenchido com pensamentos e idéias que vão surgindo em sua mente criativa. A própria pintura de João é uma prova do que afirmo. Só que uma linguagem codificada em sua sofreguidão de falar. Num desses escritos ele diz que, a arte plástica jamais chegará a viver a era da Geografia, onde não mais existem acidentes a descobrir. As especulações, manifestações e movimentos oriundos de um objetivo conscientizado felizmente com duração efêmera, proporcionam enquanto força viva negativa, toda a gama de respostas pretendida pelo comércio corrupto da subarte.
Podemos depreender que estas afirmações de João Augusto revelam sua necessidade de falar e escrever coisas que muitas vezes não agradam a determinados setores. Chega ao ponto de fazer sua própria apresentação na mostra que abriu no último dia 21, na galeria da Pousada do Carmo, quando fez uma autocrítica, dizendo que reconhece que os anos que antecederam sua opção em tornar-se pintor de nada valem.
Queria passar uma esponja, lembrando apenas sua convivência com Bandeira e outros artistas brasileiros, que vivem na Europa. Foi á Itália e manteve muitos contatos com o Bernard Leclerc, um artista francês lá radicado, também um abstrato. Esteve em outros lugares sempre numa busca inconsciente. Uma busca que lhe trouxe de volta à Bahia, para esta exposição. Uma volta com vontade de dizer para que veio, percorrendo as redações dos jornais, fazendo seu relacionamento com os novos jornalistas, que não conhecia e com os encarregados das colunas de crítica de arte.
Desembaraçado e acima de tudo, demonstrando uma liberdade de ação, João Augusto apresenta suas telas e seus traços multiplicados. Uma caligrafia que deve ser decifrada por todos aqueles capazes de entender a sua angústia e a sua vontade inerente em se expressar, quer através dos seus escritos, quer através de suas telas.
Diz ele que a liberdade do inconsciente atinge geralmente na construção e elaboração da obra de arte, um alto grau de originalidade, fugindo às perfeições lógicas de forma, que julga o estágio ideal da criatividade. Parte assim para uma pintura longe do figurativo, porque é a revelação de um inconsciente incontido. Digo talvez contido, até o momento em que João não pega numa caneta num lápis ou num papel para traduzir as suas idéias.

DECORATIVA
De repente surgiu diante de mim um rapaz, que trazia um quadro.Não queria uma apreciação crítica, mas apenas "divulgar minha exposição", foi logo dizendo. Indaguei quando seria a exposição e respondeu que na primeira quinzena de dezembro.
Afirmou que criara um estilo próprio e desejava fundar uma galeria. Portanto, o rapaz estava realmente tropeçando em idéias, que certamente estão longe de uma concretização. Primeiro, sua exposição ainda está longe para uma divulgação. Depois não criou estilo, e sim, faz uns quadros que não merecem muita importância, porque não tem qualidade técnica. Poderiam ser comercializados por qualquer artista menor no Terreiro de Jesus, ou mesmo no Mercado Modelo. Finalmente, já pensa em fundar uma galeria com objetos comerciais, misturando sua função de artista (será ?), com de comerciante.
Fiquei surpreso, quando soube que é formado em Belas Artes e que já realizou 35 exposições.Por aí afora, ele afirma uma série de babozeiras que prefiro não reproduzir. Não tenho nada de pessoal contra este rapaz, mas chamo a sua atenção para que continue procurando o seu estilo, porque este que apelidou de estilo, nada mais é do que uma pintura sem definição, sem força, sem expressão. O Barouh precisa usar o vigor do seu físico para caminhar em busca de uma linguagem pictórica, que realmente mereça crédito. Talvez esteja entusiasmado com os elogios gratuitos de amigos e amigas, que os cercam nestes momentos de iniciação mais, que só servem para esconder a necessidade de uma crítica.
Outra curiosidade é que já passou por várias fases. Imagine se não tivesse passado por essas tais de fases. Seria evidente o fim. A tela seria capaz de chorar e as tintas escorreriam à mesma que fossem lançadas, como a chorar de tanta crueldade. O pincel ficaria careca e a greve estava estabelecida.

MAIS UMA VÍTIMA
Estou cansado de falar sobre o amadorismo existente em determinados setores culturais da velha Bahia. Já falei diversas vezes da necessidade de uma estrutura, de instrumento de apoio no momento da realização de exposições, especialmente com relação aos artistas de fora. Mas, nada foi feito e a Fundação Cultural continua fazendo suas vítimas. Desta vez foi a artista Zorávia Beltiol, gaúcha, que saiu de sua cidade com a esperança de um sucesso. Acontece que jogaram a artista na Galeria da Pousada do Carmo, os convites quase não foram destinados soube da exposição devido um telefonema que recebi e não cuidaram da divulgação. Trazendo 40 gravuras de qualidade, abordando uma temática perfeitamente cansada com xilo Zorávia merecia um tratamento adequado e a altura de seu talento como profissional. Fiquei espantado quando cheguei a Galeria e lá estavam menos de dez pessoas em volta da artista. É bom  lembrar que ela já expôs em vários museus e capitais de países estrangeiros. Tem um curriculum rico em exposições, todas com sucesso. O seu insucesso vai acontecer logo na Bahia, da qual esta afastada há cerca de 10 anos, porque o amadorismo ainda impera nos dirigentes dos órgãos culturais do nosso Estado. Quando uma artista qualquer vai expor numa galeria ou museu oficial precisa do respaldo administrativo e do relacionamento das pessoas que ocupam cargos. Do contrário, e devido ao pouco tempo que os artistas dispõem a mostra ficará entregue às moscas, o que reflete numa imagem negativa para Salvador. Parece coisa de politicagem, porque outras exposições de artistas menores, mas relacionados socialmente, tudo saiu às mil maravilhas...

                         O ALEMÃO DIETER JUNG

O artista plástico alemão Dieter Jung, que inaugurou, no Instituto Cultural Brasil-Alemanha, uma exposição incluindo trabalhos de desenhos, hologramas e gráficas de vídeo-computador, e está ministrando um curso sobre Crítica Cinematográfica, na Biblioteca do ICBA.
Na coleção de retratos, que exibe na exposição, Dieter Jung refere-se  à  energia brutal dos rostos que transitam na Broadway. Alguns retratos da série são resultados de incompletas experiências ocorridas ali, retratos que os proprietários não quiseram pagar; pedidos por crianças que só queriam brincar, outros são feitos por ele mesmo, utilizando o vidro-computador.
As técnicas holográficas foram descobertas pelo físico Dennis Gabor, com base em seus estudos sobre intensificação da energia para microscópios eletrônicos. As possibilidades do emprego da holografia se estendem as mais diversas áreas, desde a computação, ás técnicas de comunicação e ao armamento radioativo. É a técnica de gravação empregada para a produção de uma imagem tridimensional. Para isto é usado um aparelho de lazer que funciona como fonte de luz. O holograma é o registro das interferências das fontes de luz do laser, refletidas pelo objeto de gravação, com outro raio coerente incluindo sobre a chapa do filme.
Dieter Jung estudou na Alemanha Teologia e Belas Artes fez estágios e lecionou em diversos países do Mundo, entre os quais o Brasil. Desde 1965 fez inúmeras exposições coletivas e individuais principalmente em Berlim, Rio de Janeiro, Nova Iorque, Paris, Itália e Salvador.

                                   PAINEL

DANÇARINO E PINTOR- Foi aberta no dia 22 no Museu de Arte Moderna a exposição de Clyde Morgan, um grande dançarino que tem seu trabalho voltado para cultura afro-brasileira. Como não poderia deixar de ser, suas pinturas estão calcadas nesta temática. São trabalhos feitos entre 1966 e 1972 que representam um pouco de sua história.

MANOEL NETO- Está expondo na Galeria Le Dome. Um pintor de marinhas, casarios e tipos populares.

PRIMEIRA INDIVIDUAL- "Realmente me sinto incapaz de falar sobre minha pintura de um ângulo crítico-analítico. Creio que o mais sensato seria apresentá-la apenas como produto, cria de uma pessoa inquieta, preocupada com as limitações imposições de seu meio, em seu tempo. Não é critica, não é denúncia. É clima."
"Opressivo talvez para alguém cuja formação intelectual faz co que sofra e se angustie pelo momento histórico em que vive. Se fosse poeta, certamente seria marginal e não pela forma ou pela estrutura, que me preocupariam menos que o discurso e o sons de fundo. A pintura então tem uma intenção direta à emoção, sem se preocupar com celebrações herméticas e procurando ser tão bela quanto o permite a técnica de que disponho e cujo estudo só me impulsiona no sentido da busca, do retrato psicológico o momento vivo". Assim fala Luiz Carlos Coelho Cruvinal, de Goiás, que está expondo na Galeria Panorama. Falarei depois sobre o seu trabalho. Foto.

WANDA DO NADA- As grandes e expressivas esculturas de Wanda do Nada estão na Galeria Do Garrafão, no Largo da Matriz, em São Paulo, numa mostra coletiva que reúne trabalhos de pintura, batik, escultura e cerâmicas. Participam Aécio, Aidil, Dilmah, Edi, Ivo Melo, Jacob Rissin, Marlô, Rivera, Sauro de Col, Tio Hok Tjay, Wanda do Nada, Walde-Mar, Irany Calheiros, Celso Berton e Ruth Tarasantchi. Wanda lutou com muitas dificuldades para levar seus trabalhos volumosos e de qualidade para São Paulo.

ESCULTORES- Já anunciei na semana passada a mostra de Tati Moreno e Margarete de Moura. Eles estão expondo desde ontem na Galeria O Cavalete, no Rio Vermelho.