quinta-feira, 2 de maio de 2013

COTIDIANO DA GENTE SIMPLES DA BAHIA FIXADO POR CARYBÉ - 04 DE DEZEMBRO DE 1989


JORNAL A TARDE,SALVADOR,  SEGUNDA-FEIRA 04 DE DEZEMBRO DE 1989

COTIDIANO DA GENTE SIMPLES DA BAHIA FIXADO 
Barqueiros em sua labuta diária enfrentando o mar 
POR CARYBÉ

"Gosto de gente, de bichos, da terra. Cada coisa tem uma linguagem própria, através da qual pode ser expressa.O mural, a pintura a óleo ou a têmpera vinil: tudo são formas para fixar meu trânsito por esse mundo." São palavras do velho Carybé, um homem curtido pelas viagens por este mundo afora e,  que ao invés de fixar, como fez Pierre Verger o cotidiano através da lente da máquina fotográfica, escolheu o pincel como ferramenta. Nos 22 anos de fundação de A Galeria, o marchand Valdemar Szaniecki promoveu no MASP uma exposição de Carybé Agora esta mostra estará a partir do próximo dia 6 no Escritório de Arte da Bahia. É o encerramento das atividades dessa galeria e conforme explica seu proprietário Paulo Darzé, Não poderíamos deixar de trazer esta importante exposição à Bahia, como uma forma de homenagear o público baiano, ávido de eventos dessa magnitude, e este grande artista, que há 40 anos vem descrevendo e revelando, na tela, os hábitos do povo e as paisagens da Bahia.
Carybé envolvido pela fumaça do
 charuto pensa numa próxima tela
Suas figuras são marcadas por poucos traços e pinceladas que definem a forma e a postura. Com quase 80 anos e cerca de 40 anos dedicados á arte, Carybé continua firme, produzindo, e acima de tudo espirituoso. Argentino de nascimento, incorporou toda a espiritualidade do baiano gozador, brincalhão, capaz de fazer piada com tudo. Contam que Hector Júlio Paride Bernaboh resolveu assinar Carybé pensando tratar-se do nome de um peixe. Porém, o seu amigo, desde o primeiro instante que chegou ao Brasil, Rubem Braga, descobriu que Carybé é o nome de uma papa de milho para mulher parida.
Uma obra está sendo ultimada para ser distribuída pela Odebrecht, onde vocês  vão ficar sabendo muitas coisas sobre este homem que adotou a Bahia como sua segunda terra-mãe. Nascido em Lanus, na Argentina, em 1911, ele passou a infância na Itália e veio para cá em 1920. Estudou na Escola Nacional de Belas Artes do Rio e depois na Escola de Artes Decorativas, em Buenos Aires. Esteve aqui na Bahia em 1938, enviado por um jornal de Buenos Aires. O jornal faliu e acabou ficando seis meses aqui na mais completa miséria. Acabou voltando várias vezes, finalmente se fixou em 1950.
Além de gostar de gente, Carybé tem uma paixão desenfreada por santos antigos e candomblé. É filho de Oxossi, Obá de Xangô e presidente do Conselho de Obás no Axé do Opô Afonjá. Sua arte fixa a gente simples da Bahia que é a presença nas páginas imortais do nosso grande escritor Jorge Amado, ambos estão intimamente ligados com a paisagem, a gente e as coisas da Bahia. Sua temática é fruto dessa mistura de brancos, pretos e índios, nessa miscigenação responsável por uma cultura diferenciada do resto do País, pela sua magia, pela sua sabedoria malandra, capaz de instrumentalizar as pessoas para enfrentar com firmeza ditaduras, crises econômicas e depois explodir uma vez por ano atrás de dezenas de trios elétricos ou mesmo dançar de novembro a março nas inúmeras festas que se realizam em vários pontos da cidade.
Uma cena do cotidiano de Carybé

Diz Jacob Klintowitz que Carybé é uma espécie de prodigo nacional. Ele é o artista que registrou de maneira extensiva  e expressiva os ritos do candomblé, observou a vida dos mitos africanos no Brasil e descreveu em detalhes de conhecedor a história e os hábitos das entidades. Apenas  a realização desse trabalho e inventário, sem igual do mundo inteiro, bastaria para colocar esse artista em nossa história visual e e conferir significativa importância cultural e antropológica ao seu feito.
Diria ainda que Carybé não apenas fixou o candomblé, mas todas as manifestações populares da Bahia. A puxada de rede, nos tempos em que a orla marítima era farta de xaréus, e outros peixes; as feiras livres, as festas de largo, o comércio nos portos de Água de Meninos e da Rampa do Mercado Modelo, os capoeiristas, enfim, ele nos apresenta artistas que fixaram nas paredes das pirâmides e nos papiros antigos as manifestações de suas épocas. Portanto, além do valor plástico, a obra de Carybé tem uma importância fundamental, por seu papel documental.

                        ARTE EM SÉRIE DA FAZARTE

A Galeria Fazarte está promovendo até o dia 09 de dezembro a I Feira Baiana de Arte em Série, com participação de mais de 30 artistas plásticos baianos que vêm trabalhando com o múltiplo.
A arte em série, como gravuras, serigrafias, cerâmicas é de fácil acesso, tomando como princípio a sua reprodução sem a perda do valor artístico.
A iniciativa da Fazarte em abrir espaço para a arte em série, criando um evento que pretende ser anual, tem tudo a ver com a forma de ser e pensar dos artistas que fazem da entidade uma vida ativa de atelier coletivo.
Um espaço que hoje representa não somente uma galeria, mas também um Show-room de peças assinadas da produção individual e coletiva dos artistas Hilda Maria Sônia Regina e Zeca Araújo, como também daqueles que se integram á filosofia do espaço e buscam a Fazarte para exposição de sua arte e escoar sua produção.
Hoje são muitos os artistas que trabalham com o múltiplo, colocando ideias geniais num adesivo, numa camiseta, reproduzindo no papel com a gravura, a fotografia, utilizando da serigrafia, da cerâmica, como muitas das formas de expressão em tantos e tão diversos suportes que estimulam a pesquisa.
A história da Fazarte começa com a criação de um atelier coletivo, onde artistas Hilda, Sônia e Zeca trabalham, pesquisam e fazem de uma geração nova que vivencia a troca de experiências, envolvidas com diversas propostas, abertos para desenvolver suas criações nas fachadas, nas ruas, muros e murais. Produzindo em ateliers suas idéias, estes artistas despontam no cenário para a conquista do espaço do artista plástico.
Até 09 de dezembro a Fazarte abre sua Galeria para a I Feira Baiana de Arte em Série, que pretende ser uma grande exposição da produção artística desses artistas que assinam cerâmicas, gravuras, serigrafias, camisetas, entre outros.
Na programação da Feira, atrações voltadas para o público, como a participação da Orquestra Sinfônica da Bahia através do Projeto Camerata Para Todos.
Entre os artistas expositores estão Hilda Maria, Sônia Regina, Zeca Araújo, Graça Ramos, Denise Pitágoras, Nildão, Ray Viana, Ângela Salomão, Fátima Tosca, Alessandro Carmem Carvalho, Jane Lídia, Márcia Abreu, Regina Costa, Zau Seabra e outros que dão peso a produção das artes plásticas da Bahia.