segunda-feira, 27 de maio de 2013

RAYMUNDO AGUIAR : A VITALIDADE NO MUSEU


JORNAL A TARDE SALVADOR SÁBADO, 4 DE SETEMBRO DE 1977



Raymundo Aguiar com um
de seus bisnetos
Com oitenta e dois anos de idade o velho mestre Raymundo Aguiar continua lúcido e produzindo uma arte de alto nível. Sua produção é vasta com a sua idade.
Desde pequeno que se dedica à pintura, iniciando seus estudos em Portugal sob a orientação de alguns professores, mas principalmente o seu pai Antônio Chaves de Alves, Primeiro Violino na época do Teatro São Carlos ,em Lisboa. Uma família de artistas. Duas irmãs eram famosas pianistas e uma delas ao fazer uma viagem ao Brasil para apresentações fez amizade com o próspero comerciante  Guilherme Carvalho Filho e desta amizade nasceu a decisão de trazer para cá o Raymundinho. Tudo foi combinado e em novembro de 1913 ele desembarcava num vapor, quando foi recebido por alguns patrícios e foi morar numa pensão na Fonte das Pedras. Aí tudo foi difícil.
Trabalhou com o português Augusto Carvalho onde chegou a ser Chefe do Setor de Embalagens e Faturista. Porém, a arte permaneceria em sua mente com uma necessidade de expressar os seus sentimentos cada vez mais fortes devido às saudades de sua pátria longínqua. Assim surgiram dezenas de aquarelas, caricaturas e desenhos de um modo geral que sua habilidade já era do conhecimento de grande número de pessoas. Por isso um companheiro de empresa convidou o Raymundo para fazer um retrato de um amigo que aniversariava.
O retrato foi feito, saiu bem parecido com a pessoa e todos gostaram. Um dia decidiu procurar o então professor Oséas Santos, na Escola Normal. Era por volta de 1916 e seus trabalhos também foram elogiados pelo Oséas. Daí alguns trabalhos foram publicados no Jornal A Tarde levados por Henrique Carneiro. Logo depois foi fundado o Jornal A Hora ,por Artur Ferreira que combatia o Governador Antônio Moniz e o Intendente Propício da Fontoura
Raymundo Aguiar foi convidado para fazer as caricaturas e uma delas que mostrava Antônio Moniz cobrindo as nádegas de uma estátua numa praça que tinha esta legenda: O que é isto Governador cobrindo estátuas? É meu amigo, não quero confusões."
Por isso a edição do jornal foi apreendida. Mas o jornalista Artur Ferreira não perdia tempo e nem tampouco tinha medo de represálias.Encomendou outra caricatura criticando o Governador.

Raymundo Aguiar fez uma que apresentava a cabeça de Antônio Moniz em quatro fases e na última ele se transformava num anjinho.Neste dia o jornal A Hora foi empastelado pela polícia tendo à frente Álvaro Cova, então Chefe de Polícia do Governador Antônio Moniz.

Logo depois com o assassinato de Artur Ferreira, o artista Raymundo Aguiar vai trabalhar no Jornal de Notícias, no tempo de Lulu Parola. Passou algum tempo no jornal Imparcial, na revista A Fita, que era uma revista de variedades, além das revistas Luva e Única, esta dirigida por Amado Coutinho.
Em 1927 organizou uma mostra de algumas de suas charges em aquarela, no antigo salão da empresa Circular e o Professor Vieira de Campos indo visitá-la escreveu uma crônica no Diário de Notícias "que me virou a cabeça", diz Raimundo Aguiar com muito orgulho.
Nesta época tinha mulher e dois filhos para sustentar.Larguei o meu emprego certo que tinha no comércio e resolvi dedicar-me inteiramente à arte. Na época me chamaram de louco até o Professor Oséas Santos.

Acontece que ninguém conseguiu retirar a ideia de minha cabeça e hoje sou um homem feliz.
Passou o artista a fazer charges para os jornais,croquis para rotulagens, cartazes de espetáculos e trabalhava em outros serviços para as litografias Luzitania e Reis, que existiam em Salvador, e também para a Oficina de Gravuras Tostas.
Como ele tinha o curso ginasial que fez em Lisboa teve que fazer uma espécie de vestibular para entrar na Escola de Belas Artes. Assim foi feita uma banca de examinadores. O Professor Conceição Menezes examinou-me em Português, Francês, Geografia, História do Brasil e Ciências. O Professor José Nivaldo Alcione, em Matemática, Álgebra e Geometria. Fui aprovado com 9.6.
De lá tudo foi mais fácil e já em 1933 concorria e vencia o prêmio Viagem Legado Caminhoá. O Professor Alcione que era professor de Geometria Descritiva da Escola de Belas Artes convidou-me para seu assistente e quando ele se afastou passei a reger a cadeira até 1963, quando me aposentei pela compulsória e logo em seguida recebia o título de Professor Emérito da Universidade Federal da Bahia.
Sobre sua arte tudo já foi dito. Raymundo Aguiar é um homem inquieto e por isto sua temática teve que mudar. Pintava paisagens e adorava ficar horas e horas transferindo para a tela árvores, o mar, enfim, toda a grandiosidade da natureza.


Esta tela está exposta no
Museu de Arte Sacra
Acontece que as pessoas viviam assediando-o, a cidade crescia e os curiosos terminavam por causar-lhe problemas. Pegava a tela e os pincéis e vinha embora e sempre voltava em busca de uma hora de mais tranquilidade. Por isso passou a dedicar-se aos interiores, hoje tão conhecidos e tão disputados pelos colecionadores.Pintava ao lado de Presciliano Silva, Mendonça Filho e outros.

Afirma Raymundo: só assim conseguia pintar em paz nos sobrados, nas igrejas com suas sacristias místicas fui criando e realizando os meus trabalhos, mas a certa altura seus quadros eram apontados com uma certa semelhança com os feitos por Presciliano Silva.
Ele não pestanejou, deu luminosidade às suas telas, as quais ganharam mais força perdendo as cores sombrias.Foi criticado por seus colegas devido ao uso da luz, mas a luz é uma necessidade inata a este velho moço que pinta com vigor em seus 82 anos de idade. A luz é uma constante na vida de Raymundo Aguiar que já realizou dezenas de exposições e esperamos que tantas outras ainda virão.

Embora seja um pintor acadêmico, o velho Raymundo pouco pintou rostos e bustos. Isto porque ele não tem paciência de trabalhar com o modelo, que constantemente está mudando de posição, prejudicando o trabalho. Esta impaciência do jovem Raymundo ainda permanece no velho moço e é graças a ela que belos quadros continuam sendo criados.

               UM POTENCIAL OCULTO DE MARIA ADAIR

Este é o painel Fecundação onde Maria Adair expressa a força da natureza 
"Há um potencial oculto, secretamente escondido, dentro de cada um de nós," afirma a artista Maria Adair Magalhães Brocchini ou Maria Adair, que está expondo na Galeria Cañízares. É exatamente o desenvolvimento ou ativação deste potencial, que permite a esta artista criar dentro da temática natureza quadros, que na realidade não tem um fim definido. Cada desenho parece querer pular dos suportes e continuar por todos os espaços. É um derramar de formas concebidas em pedaços, que juntados não dão uma composição bem maior.

O desenho e as formas dominam seus trabalhos contemplados pela presença da cor. Olhando cada uma tela separadamente, a gente tem a impressão que cada uma delas é um pedaço de um imenso painel. Lembramos dos azulejos sozinhos que justapostos formam um painel. Assim vemos o trabalho de Adair, que de certa forma assemelha-se com os trabalhos de Juarez Paraíso, na expressão das formas, nos movimentos voluptuosos. Uma semelhança que não desmerece o trabalho de Adair, mas, ao contrário, enobrece, tendo em vista a qualidade técnica que tem Juarez.
O Juarez artista e professor, vem exercendo uma grande influência em vários artistas baianos, principalmente os jovens que estão sendo iniciados na arte . Evidente que não falo de Adair, ela não é uma iniciante , a sua técnica e o seu desenho já a qualificam como uma artista definida. Mas, não posso deixar de registrar a influência da escola de Juarez em seus trabalhos.
Ao lado da pintura Adair ensina Iniciação Artística em alguns colégios da capital. Isto é importante porque assim ela terá oportunidade de descobrir e fazer a arte ser vista por adolescentes. Como ela mesmo afirma, "fazendo arte, você expressa ideias e sentimentos do mundo imaginário, que existe dentro de você, do mundo real e físico que o rodeia."
Sua exposição apresenta bicos de pena, óleos e  gravuras. Está expondo cerca de 40 trabalhos.São trabalhos livres, que vão fluindo no correr do pincel, ou da pena. Maria Adair vive com um bloco de notas preso às mãos. Qualquer tempinho disponível ela vai riscando e depois aproveita esses desenhos feitos instintivamente.

Noto que os seus quadros levam a gente a um aprofundamento no interior das formas e a uma contemplação da beleza e fortaleza que nos rodeia.
No painel Fecundação, Maria Adair apresenta partes em cada tela que juntas dão uma ideia de todo um ciclo vital. A natureza, a vida é a temática e a figura humana é ausência.

                          PAINEL

EMPRÉSTIMO- Impressiona a troco de velhos alemães. A Jovem Com Flores, de Auguste Renoir (Foto), pintando por volta de 1890 com 65x54cm, hoje pertencente ao Metropolitan Museum de Nova Iorque, O Rapaz Com a Espada, de Edouard Manet e a Ile Aux Fleurs, de Claude Monet estão sendo muito visitados e poderão ser admirados durante dois anos no Museu de Munique. Os três quadros dos impressionistas franceses foram emprestados à Alemanha em troca de três obras de velhos mestres alemães: um triptico, um quadro sobre madeira da lenda de São Cristovão, bem como duas pinturas  da Escola de Pintura da Colônia, sec. 14-16; Lá trocam quadros para animar e levar mais gente aos museus. Aqui engavetam e arquivam nas salas empoeiradas e depósitos úmidos.

HELENA MATOS- A Galeria O Cavalete está apresentando uma mostra de Helena Matos a partir de 10 do corrente. Notamos em algumas gravuras de seus quadros inseridos no catálogo um lirismo singular. As figuras parecem que vieram de infinitos lugares e olham o mundo conturbado com pena. Uma pena expressa nos olhares que estão longo. São verdadeiros poemas feito quadros. Seus quadros chegam a atingir o surrealismo com o seu mistério e encantamento.Os tons e meios tons, a presença de símbolos e animais que comumente estão ligados ao mistério com o gato. Uma pintura bonita, lírica e que faz bem aos olhos.


LEILÃO- Foi realizado um leilão em A Galeria, São Paulo de 100 obras selecionadas entre as quais figuraram Jenner Augusto, Carybé, Carlos Bastos, Fernando Coelho e Raymundo Oliveira. A Bahia foi presença.

ABORDAGEM- O psiquiatra e pintor César Romero estará abrindo sua mostra no próximo dia 24 do corrente na Galeria da Pousada do Carmo, abordando temas da solidão humana, ambição, a angústia tão presente na sociedade contemporânea. Uma arte perfeitamente integrada com a atividade profissional deste artista.


SÉRGIO VELOSO- Outra exposição anunciada é a de Sérgio Veloso, na Panorama Galeria de Arte, na Barra,  partir do próximo dia 10. Serão mostrados diversos quadros com figuras humanas com um tratamento especial que permita a individualização do seu trabalho.

LEONARDO ALENCAR- O conhecido artista Leonardo Alencar está expondo no Hotel Merídien, 25 trabalhos a óleo e 12 xilos. São os peixes e cavalos criados dentro de uma visão muito pessoal de Leonardo.

ARTE EM GOIÂNIA- A Universidade Federal de Goiás através do Instituto de Arte vai promover de 9 a 30 do corrente o V Festival de Música e Artes Plásticas com o patrocínio do MEC. Da programação consta recitais, concertos, conferências, montagens folclóricas, apresentações de filmes de arte, além de cursos de extensão, com inscrições abertas ao público. Não haverá exposição como inicialmente estava programado e foi noticiado. Apenas serão realizados um Curso de Desenho coordenado por Lydio Bandeira de Mello ,da UFRJ e, outro sobre Visão de Arte Contemporânea ,por Regina Stela Machado a USP.

MAU GOSTO- É de péssimo gosto e de difícil visualização o programa de atividades mensais da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Espetáculos musicais, lançamento de livros, exposições, tudo é apresentado numa mistura de datas. O logotipo da Fundação sobrepõe-se ao texto prejudicando a visão do conjunto. É hora de reformar este programa.

E O MUSEU?- Anunciaram com estardalhaço a criação de um museu na cidade de Cachoeira. Foram doados centenas de matrizes e xilos para a criação do mesmo. Foi destinada uma verba. E o museu?