quarta-feira, 1 de maio de 2013

A VIA CRUCIS DE ZU CAMPOS - 16 DE ABRIL DE 1977


JORNAL A TARDE,SALVADOR, 16 DE ABRIL DE 1977

             A VIA CRUCIS DE ZU CAMPOS

Pintor de paredes, carpinteiro, jogador de futebol, funcionário público e cantor de inferninhos foram algumas das ocupações de Zu Campos durante vários anos em Salvador e outras cidades.
Uma cena da Via Crucis do
artista Zu Campos
Um temperamento inquieto em busca de sua identidade, que afinal foi encontrada na calmaria do Museu de Arte Sacra, onde o contato com as imagens e objetos sacros revelariam um entalhador de grande força criadora. Começou rabiscando em folhas de papel as figuras sacras que depois de alguns anos passaram a ser conhecidas em vários estados. Foi exatamente em 1968 que Zu Campos inicia sua carreira de artista ofício que aprendeu com um grupo de entalhadores pernambucano que aqui chegara para realizar uma exposição da antiga Galeria Querino, que ficava localizada na Rua Carlos Gomes. O grupo era composto de Geraldo e Romeu Andrade (irmãos) e Manoel da Silva. Eles estavam num hotel e como o dinheiro tinha acabado terminaram por pedir hospedagem a Zu Campos em sua casa de número três na Ladeira de Santa Tereza.
Ali os três pernambucanos trabalharam e Zu observava a técnica do entalhe. Pegou um pedaço de uma velha janela e com uma chave de fenda improvisada de formão passou a esculpir. O primeiro trabalho foi difícil e outros vieram em série. No ano seguinte participava de uma coletiva no antigo Instituto Cultural Hispânico ICHUB- dos funcionários da Universidade Federal da Bahia. Mas continuava trabalhando no Museu de Arte Sacra e nas horas de folga entalhava. Quando tinha juntado 26 peças organizou uma expedição no Teatro Castro Alves a convite de José Augusto. Nesta época o critico Clarival Prado Valadares lançaria seu livro Riscadores de Milagres e disse
Vim lançar um livro e lancei também um artista de talento. Talento que se desenvolveu e cresceu e fez escola. Sim, porque Zu Campos é o pai de uma gama de entalhadores baianos.
Mestre no ofício de entalhar Zu desliga-se do Museu de Arte Sacra e passa a viver do fruto de seu trabalho.
Daí vieram várias exposições individuais aqui e fora do Estado.Os sulcos feitos de madeira tornaram-se mais profundos num caminho natural em busca de novos espaços. A escultura passou a ser sua preocupação, e, hoje, Zu Campos inicia vamos assim dizer sua carreira de escultor. Ele próprio diz das dificuldades que encontrou para fazer suas primeiras esculturas. Fala das dificuldades que enfrentou para conseguir formas equilibradas.
Recentemente esteve em Brasília e Belém do Pará a convite de órgãos culturais dando aulas de entalhe.
Formou uma escola que ganha e vence nossas fronteiras. Embora com esta imensa atividade Zu Campos é um artista cuidadoso e meticuloso. Todas as peças que faz são devidamente documentadas fotograficamente e os desenhos que lhes dão origem são guardados.
Tem uma preocupação desesperada em não se repetir.
A arte de Zu Camos vem ganhando terreno e a matéria-prima utilizada é a mesma ou seja as janelas,  portas e outros materiais retirados dos velhos casarões que são demolidos para dar lugar aos berrantes espigões. Sua arte serve também para salvaguardar um pedaço do casario colonial baiano que vai desaparecendo dia a dia. A junção desses materiais com as figuras e símbolos cristãos determina uma perfeita identidade e toda uma atmosfera da velha Bahia. Sim porque é justamente numa velha ladeira- Ladeira de Santa Tereza, que encontra-se o seu atelier, também num velho casarão bem próximo do Museu de Arte Sacra sua fonte inspiradora.
Sua atual exposição está na Galeria Cañizares e tem belos trabalhos especialmente uma Via Sacra que ele pretende vender na Bahia.São 14 peças de alta qualidade que retratam cenas do sofrimento de Cristo.
O ARTISTA
Seu nome é Jesuino de Oliveira, Zu Campos nascido em Vitória da Conquista, na Bahia em 9 de março de 1939. Filho de um mestre de obras, aprendeu vários ofício. Viveu no interior até 1958. No ano seguinte foi trabalhar no Museu de Arte Sacra.
De 1959 a 1964 fez parte do quadro do Galícia esporte Club. Em 1968 desligou-se do Museu e passou a viver de sua arte. É autodidata e criador de escola de entalhadores baianos. Calmo e cuidadoso o mulato Zu Campos inicia os primeiros passos na difícil arte da escultura. Um caminho natural para todos aqueles que militam com a madeira na confecção de entalhes.

 ESCULTURAS HUMANAS DO NIKOLAIS DANCE THEATRE

Todas as pessoas sensíveis deverão assistir os espetáculos do Nikolais Dance Theatre, que serão apresentados no Teatro Castro Alves, nos dias 19 e 20 do corrente. Trata-se de uma das mais originais companhias de ballet do mundo, e recentemente realizou uma temporada de três semanas na Broadway, juntamente com o Grupo de Dança de Murray Louis no Teatro Beacon, Nova Iorque, com sua lotação de três mil cadeiras esgotada.
Seu criador é Alwin Nikolais, de 65 anos de idade, baixinho e de vasta cabeleira branca, que está no ruge de sua criatividade. È um dos inovadores e uma das maiores expressões da dança moderna. Há 30 anos vem desenvolvendo o seu trabalho sempre renovador. Um homem que cria movimentos, trajes, cenários e iluminação, Já ensinou dança em diversas Universidade americanas e coordenou vários seminários de verão. Diretor da Playhouse de Nova Iorque, desde 1948, foi também presidente da Associação Norte Americana de Dança, membro do Conselho de Artes do Estado de Nova Iorque, membro da comissão de seleção do Instituto Internacional  de Educação, dentre outras atividades.
Ele acredita que sua técnica coreográfica representa um meio de reunir qualificações, através de movimentos livres e não moldados. Meu objetivo é fazer com que o corpo responda a qualquer tio de dinâmica ditada pela mente.Interesso-me pelo corpo humano como uma peça de escultura; disse Nikolais.
O critico do Washington Post Allan Kriegsman disse o teatro de dança de Nikolais deveria ser apreciado por todas as pessoas  interessadas nas artes, quer interpretativas ou de outra natureza. Pode parecer um pouco exagerado dizer-se que quem não viu o trabalho de Nikolais não viveu.
Noumenon, de Nikolais Dance Theatre
Durante suas exibições em Salvador, Alwin Nikolais apresentará números novos, como Styx, Triada e Guinhol e alguns já consagrados como Sanetum Vaudeville dos Elementos, Noumenon, Tenda e Torre.
As pessoas que já tiveram oportunidade de assistir, afirmam que os bailarinos do Nikolais Dance Theatre ficam mais sem evidência em Tenda, considerado como o trabalho complexo do repertório, devido ao emprego de projeção de slides e varas.
Uma imensa peça de fazenda carregada pelos dançarinos e suspensa, por fios de arame, se transforma sucessivamente em dossel, manto múltiplo, e finalmente em nuvem diáfana em forma de cogumelo.
As cores deslumbrantes e a irresistível música eletrônica, produzem efeitos sensacionais, e os dançarinos com malhas e máscaras co da pele parecem seres extraterrenos. É uma manifestação artística que ficará gravada eternamente na mente daqueles que terão oportunidade de assistir.

                      PAINEL
SÉRGIO LEMOS - o pernambucano Sérgio Lemos está expondo pela primeira vez no Rio de Janeiro na Galeria Signo, em Ipanema. Um trabalho sem dúvida que sofre a influência de João Câmara. Uma escola de pintura onde estão surgindo artistas de grande talento e Sérgio é um membro desta plêiade.
Como da Walmir Ayala a realidade tocou os artistas citados com a mesma iconografia, e desencadeou um processo semelhante de interpretação técnica. Foto.

LOZANO – o artista Francisco Lozano- está mostrando óleos, desenhos e esculturas na Galeria da Sereia, na Ladeira da Barra. Nascido em Madrid, Espanha, Lozano fez seus estudos na Ecole Nationale Superieure des Beaux-Arts de Paris e tem exposições realizadas em vários países.
Por outro lado, a galeria mostra dez placas de alumínio de Betty King.

NORTE AMERICANOS- foi inaugurada a exposição O Bicentenário visto por artistas norte americanos, integrada de 20 bandeiras, 12 gravuras originais duas séries de cartazes e cinco serigrafias originais. São 50 trabalhos de renomados artistas.

SANDUARTE- trazendo desenhos em bico-de-pena e guache, o artista Sanduarte mostrará dentro em breve trinta trabalhos. Sua arte é ligada ao contexto vivencial de região sanfranciscana.

ANTUNES- apresentado por Jacob Klintowitz o pintor Antunes, que recentemente expôs em Salvador está agora na Galeria Debret, em Paris. Uma artista  de grandes recursos técnicos.

SIMEONE- a Galeria Cosme Velho, São Paulo, organizou uma exposição de João Simeone. Ele fez parte do famoso grupo Santa Helena, levou por muito tempo uma vida obscura como a maioria dos componentes deste grupo. Faleceu em 1969 e esta mostra é uma homenagem merecida.