domingo, 19 de maio de 2013

UM EXEMPLO A SER SEGUIDO


JORNAL A TARDE , SALVADOR, SÁBADO, 10 DE DEZEMBRO DE 1977

                            UM EXEMPLO

A empresa privada de porte além de visar o lucro, objetivo máximo do sistema de livre empresa, tem obrigações para com a comunidade que lhes cerca. É por esta razão que vejo com bons olhos a iniciativa da Sul América em investir no setor artístico. Na música, no teatro, nas artes plásticas e até no esporte amador, esta companhia de seguros está presente. Este exemplo poderia ser seguido por muitas empresas privadas. Poderiam contribuir na impressão de  catálogos e cartazes, etc. Vemos nas estações de televisão que alguns espetáculos de teatro e shows de cantores contam com anúncios publicitários  e trazem o patrocínio desta ou daquela empresa. Mas ainda é uma atuação que carece de força. Sim, carece de uma maior vontade. O atendimento a este chamado significa que a empresa passa a ser vista melhor pela comunidade, pelos artistas e consumidores. Demonstra um dado importante dentro do marketing, porque forma uma imagem mais abrangente e simpática além de colaborar juntamente com o Governo para o desenvolvimento desses setores tão carentes de apolo.
Muitas empresas baianas poderiam imitar ou seguir este exemplo desta companhia, que não é novidade tomando a atuação de empresa na comunidade global.
Infelizmente é um exemplo ainda raro em nosso país. Os empresários tem responsabilidade e devem participar deste processo que ora estamos enfrentando. A omissão é um grande pecado cultural. A falta de visão para uma abertura de seus gabinetes afeitos aos executivos é uma prova de inteligência. O empresário não deve ficar apenas como mero colecionador, porque tem capital e pode cobrar objetos artísticos ou assistir espetáculos. Ele deve pensar também que outras pessoas, também integrantes, da comunidade onde vive tem as mesmas necessidades. Para atendê-las caba a ele empresário, que dispõe do capital e também ao Governo através de seus órgãos culturais, atendê-las.
A Sul América começou constituindo um importante e valioso acervo de aristas brasileiros  contemporâneos e hoje sua coleção é uma das mais importantes do país. Nela encontramos obras de Di Cavalcanti, Volpi, Pancetti, Djanira, Raimundo de Oliveira, Manabu Mabe, José de Dome, Brennand, Teruz, Vicente do Rego Monteiro, Siron Franco e muitas outras. Portanto um estímulo ao mercado de arte. Agora, que estamos ás vésperas do Natal é hora dos empresários lembrarem que quadros são belos presentes e agradam a todos. Portanto, podem estimular o mercado de arte baiano, que basicamente vive de pouquíssimos colecionadores e dos turistas que aportam para comprar quadros e oferecer a seus amigos e clientes. Assim estarão proporcionando a sobrevivência de algumas galerias de arte, ajudando o artista, é divulgando a nossa arte.
A dedicação pelas artes é uma prova de inteligência e civilização. Arte é cultura e como tal deve ser incentivada.
Deixem de lado outros brindes que muitas vezes são verdadeiros trambolhos e visitem as galerias e estúdios de nossos artistas, onde encontrarão valiosos e originais presentes.

                    UM ÍNDIO  ARTISTA DA TRIBO TIMBIRA

O cocar,os colares e o arco servem de símbolos
 para este índio artista
Encontrei o índio Israel Alves, da tribo Timbira, do Maranhão na festa de Santa Bárbara, em frente à Igreja do Carmo. Fiquei sabendo que era artista plástico.Contou-me sua vida. Fora entregue aos quatro anos de idade por sua irmã mais velha a uma família, que o levou para São Luís. Perdia assim o contato com sua gente, para sempre. De São Luís partiu para Fortaleza porque seus pais adotivos não queriam que fosse artista.
No Ceará trabalhou em algumas peças de teatro e fez muitas exposições coletivas e individuais. Inquieto, veio para Salvador e aqui está estabelecido na Rua da Poeira, 33, onde pinta seus quadros primitivos sempre retratando temas folclóricos de sua terra. Uma fixação de infância que vem sendo acrescentada com as informações que conseguiu captar em suas andanças.
Isaías é um índio incapaz de viver no meio de sua gente porque já adquiriu todos os costumes e vícios de nós civilizados. Mas seu físico, seus cabelos e seus traços e sua pele  servem de lembranças constantes para sua consciência. Talvez por isso ele carrega dentro de uma sacola um cocar de penas de araras e uma tanga ricamente trabalhada, que normalmente é usada por seus parentes deixados na cidade de Cândido Mendes, no Maranhão.
Ele não sabe quase nada de sua tribo. Não sabe nem por onde andam suas irmãs, já que seus pais faleceram.Não sabe nada da família que lhe criou. É um artista, e como tal gosta do que faz. Vive exclusivamente para sua arte, uma arte primitiva, uma arte rica do ponto de vista de uma visão de vida. Uma arte calcada nas informações que possui. É meticuloso e calmo, um traço marcante de silvícola. Não gosta de muita conversa. É desconfiado. Trabalha sozinho e leva os seus trabalhos para o Hotel Méridien onde consegue vendê-los por CR$ 1.500,00 cada um. Assim vai vivendo em busca de uma realização maior que lhe estava sendo proibida.

     TOCAR NAS OBRAS DE ARTES É QUEBRAR VELHO TABU

Os cegos procuravam tocar em tudo para uma integração
na ambiência do Museu
Os deficientes da visão do Instituto de Cegos da Bahia e leitores da secção Braille da Biblioteca Central tocaram, sentiram e "visualizaram" as esculturas de artistas no Museu de Arte da Bahia, numa promoção da Fundação Cultural do Estado da Bahia e Secretaria de Educação e Cultura. Segundo Ana Lúcia Peixoto, a ideia surgiu a partir de uma conversa informal com os cegos, em que alguns se mostravam interessados inclusive em tomar um curso de História de Arte para ser guias de museu.
O Projeto Visão Tátil apareceu, desde o mês de agosto, inicialmente com visitas guiadas numa fase experimental, a fim de constatar se os cegos estavam captando ou não a mensagem do artista plástico. O resultado foi bastante positivo e o mito da proibição de não se tocar nos objetos de arte em museus foi eliminado. O deficiente  da visão só passou a tocar os objetos através deste ato foi possível desenvolver a sensibilidade, levando-os a conhecer e analisar as variadas formas, texturas, dimensões e espaço existentes na obra de arte.
Os artistas selecionados para a mostra representam várias tendências e são oriundos de várias gerações das artes plásticas na Bahia: Mário Cravo Neto, Mário Cravo Júnior, Arlindo Gomes, Jamison Pedra, Madalena Rocha e outros, num total de quatorze obras em madeira, alumínio, acrílico, metal e até elementos em estado natural, como a água. Os trabalhos não foram realizados especialmente para a mostra e os cegos, por intermédio do sentido tátil, iam captando e se extasiando com os objetos de natureza estética.

PRIMEIRA OPORTUNIDADE

No Salão do MAB onde estavam expostos os trabalhos, os cegos ficaram contentes. Para a grande maioria, aquela tinha sido a primeira oportunidade de participar como visitante de uma exposição artística. Eles tocavam nos objetos artísticos, expressando em seguida o que sentiam, qual a forma e a mensagem lançadas pelo autor da obra.
Nadir, que ensina música no Instituto dos Cegos, estava entusiasmada em poder vivenciar as emoções, que uma obra de arte pode transmitir ao ser humano, apesar de ter uma grande tristeza na sua vida que é a de não poder enxergar os quadros de seu irmão Rubem Valentim. Jonivaldo Cordeiro dos Santos tocava nos objetos e depois de uma certa concentração, ia descrevendo as formas, especialmente do trabalho Tritão e Sereia com Concha e Pérola, de Arlindo Gomes.
Causou um certo impacto neles a obra de Mário Cravo Neto feita de fibra de vidro com formas que flutuam dentro d’água. Não sei exatamente o que seja, dizia Pedro. Parece um bicho do mar... ou talvez uma caveira, Olhe as orelhas! Opiniões como esta eram ditas a todo momento, causando sempre um ambiente descontraído. Outros reagiam de uma forma mais calada e quieta, tocando os objetos com suavidade e descrevendo com minucias de detalhes os movimentos e os significados dos trabalhos expostos.

SENSIBILIZAÇÃO

O projeto visão não só objetiva o entrosamento do deficiente da visão com todos os setores educativos e culturais diz a professora Ana Lúcia Peixoto, como também, numa ampla dimensão, mostrar que a arte, embora seja de extrema visualidade, também pode ser tocada e sentida atingindo a sensibilidade de cada indivíduo.
O museu é uma das formas de transmissão de conhecimentos que se faz por intermédio dos objetos. Ele leva o indivíduo a exercitar a imaginação, conduzindo-os a experimental sentimentos de satisfação e gosto, proporcionando-lhe, enfim, educação.
Cada objeto não traz dentro de si uma mensagem única, certa e determinada. A obra de arte desperta em cada pessoa uma sensação, e ao lado da mensagem do artista, o consumidor também projeta a sua sensibilidade na compreensão da obra. Este projeto se apresenta com uma proposição de normas e critérios para o desenvolvimento da sensibilidade, conclui Ana Lúcia, diretora do Museu de Arte da Bahia.

            O PORTUGUÊS ALBANO NEVES  NA CREDICARD

O português Albano Neves e Souza há quarenta anos que vem pintando, pois realizou sua primeira individual em 1937, em Luanda. Tem um vasto curriculum e uma carreira pictórica invejável. Agora nos mostra a partir do próximo dia 13 alguns trabalhos inspirados em motivos africanos, sua grande paixão. Como diz Carybé: Minucioso, estudioso, cioso de seu trabalho traz tudo documentado em dezenas de pastas de desenhos  e apontamentos feitos ao vivo no vaivém dos mercados, ou no baticum estrondoso dos atabaques de lá. E há incêndios e misteriosas plantas do deserto, luares e madrugadas brumosas. Eu acrescentaria, e lindas negras com seios desnudos capazes de penetrar em rudes roupagens.




                                  PAINEL

FORMANDOS- Está aberta a visitação pública a exposição coletiva dos formandos em Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. A mostra reúne alguns trabalhos de certa qualidade e outros que não deveriam ser expostos porque realmente vem constatar uma afirmação de que artista não de faz nos bancos escolares. De qualquer sorte, agora profissionais, muito terão que desdobrar seus esforços para conseguirem um lugar ao sol. Espero que esta nota sirva apenas de estímulo para que os novos profissionais sintam a necessidade de renovação e especialmente de modernidade.
ESMALTE- o Sérgio Sampaio expõe na Le Dome Galeria de Arte uma técnica mista que trabalhando sobre o metal consegue alguns efeitos que lembram objetos de joalheiro. Bem acabados, seus trabalhos tratam quase sempre das mulheres e de figuras sacras, como temas centrais, circundando-as com adornos leves e bonitos. (Foto)

II FEIRA- no próximo dia 17, O Cavalete Galeria de Arte está promovendo a sua
II Feira  de Arte a partir das 10 horas no jardim do Rio Vermelho, em frente á sede da Galeria. Jacy espera reunir um grande número de pessoas pois muitos artistas estarão participando com trabalhos de qualidade.

ZÉ MARIA- desenhos em nankim estão expostos no Hotel Carro de Boi, em Feira de Santana. Ele evoca momentos de nostalgia é sua mostra tem o título sugestivo Intimidades.