quinta-feira, 2 de maio de 2013

UM CONTADOR DE HISTÓRIAS É DESTAQUE NA BELAS ARTES - 06 DE NOVEMBRO DE 1989


JORNAL A TARDE, SALVADOR,  SEGUNDA-FEIRA 06 DE NOVEMBRO DE 1989

UM CONTADOR DE HISTÓRIAS É DESTAQUE NA ESCOLA DE BELAS ARTES

Uma necessidade de falar através de suas figuras
Já tive oportunidade de escrever que o artista Murilo é um contador de histórias do cotidiano. Agora, constato que essa minha observação é percebida por outras pessoas. Ele é o destaque do mês na Escola de Belas Artes e está com uma exposição programada para o final de abril do próximo ano intitulada Murilo o Contador de Histórias. Será a exposição comemorativa dos seus 20 anos de pintura. Recebi outra boa informação.
Murilo acaba de desligar-se da Fundação de Artes. Não tinha nada a fazer por lá. O mesmo se sucedia com Zivé Giudice, pois são criadores por excelência e nada tem a ver com a burocracia que impera nesses órgãos caolhos. O que eles precisam é cuidar da produção da sua arte com mais afinco, levando a profissionalização cada vez mais com a seriedade que ela exige, para que possamos, todos juntos, colher os frutos de seus talentos.
Ivo Vellame soube não deixar a peteca cair. O destaque do Mês era uma tentativa de tirar o Museu de Arte Moderna da Bahia do marasmo a que sempre foi relegado. Lá sua esposa Malba fazia um levantamento da história de um artista e o homenageava, como fazem vários museus em todo o mundo, a exemplo da Pinacoteca de São Paulo. Seus dirigentes ficaram desinteressados e agora o Destaque é levado na Escola de Belas Artes.
Fez sua primeira individual em 1976 e continua até hoje fascinado pela figura humana. Foi um dos participantes da chamada Geração 70, que hoje está cada vez mais presente no mercado de arte baiano. O tempo vai mostrar o quanto fomos felizes ao escolhermos aqueles artistas para a mostra, que será sempre uma marca na arte baiana.
Aí está á produção desse grupo, que mesmo antes já se destacava, e esta foi uma das razões por que tentamos fazer aquele movimento. Queríamos continuar, formando um segundo grupo. Mas as vaidades pessoais e as incompreensões me desestimularam e terminei ficando na primeira mostra que valeu por si só.
Na apresentação do Destaque, Ivo faz uma alusão ao que escrevi sobre ele no Catálogo da Geração 70. Vejamos: Reynivaldo Brito, critico de arte, provocador e animador da cultura artística baiana, soube se mostrar clarividente a respeito dos mais dotados jovens d geração dos anos 70, registrou no dos seus textos que Murilo é dos artistas que apresentam um trabalho contemporâneo e em constante evolução, prevendo, portanto, no texto critico de 76, o grande talento do artista,. A maior parte das pinturas mais recentes de Murilo (foto) são telas de grandes dimensões. São obras de 89, não se trata de um expressivismo dramático e enfermo, coisa das primeiras produções do artista. È uma fase de síntese, plasticamente esplêndida, mista de instinto e fina racionalidade, doce equilíbrio entre desenho gráfico e com plástica. Nela figuram os palhaços, os arruados das meretrizes, os gatos de olhos acessos nos telhados da cidade velha, figuram os músicos, e a dama da noite enfrenta-nos com seu lenço alegre.
Murilo requintado de personagens, de bichos e de coisas. Ele nos oferece nas obras da próxima exposição, na Galeria Época, a sua mais ambiciosa realização  a síntese dos seus progressos, algumas obras-primas da atual pintura baiana e reafirma o seu interesse pelo humano.

CERAMISTAS LUTAM PELO RECONHECIMENTO DA ARTE

Cincinha Maia  e Marília Mascarenhas
Vocês já imaginaram o que acontece  com o barro quando ele cai em forno a uma temperatura a uma temperatura de 1.200 graus? Ora, e bem provável que os menos avisados imaginem que o barro se derreta e até vire fama. Mas isto não acontece. Sobretudo a esta temperatura, o barro fica vidrado. Pelo menos é este o termo usado pelas artistas Marília Mascarenhas e Cincinha Maia, que trabalham com cerâmica há dois anos.
Fazer cerâmica, segundo elas, é um trabalho duro, que requer muita, muita paciência. Para fazer cerâmica não se pode fazer cera, disseram. E: nem meter o dedo em lugar indevido, já que o trabalho é quase 100% manual.
O fato é que a arte da cerâmica é tão apaixonante e de tal modo envolvente que, segundo Marília, a integração com o barro cru e lembra de uma frase: Trata-me bem, lembra-se que eu já fui como você. Segundo ela, é a voz do barro, referindo-se a nós, que já fomos barro. Cincinha Campos por sua vez, considera a cerâmica um trabalho eminentemente artístico e artesanal, ainda que não seja reconhecida e aceita, como é, por exemplo, um quatro a óleo.
Mas a Associação Baiana de Arte e Cerâmica está lutando com unhas e dentes para que a cerâmica seja mais respeitado como arte< disse Maia.

PERFEIÇÃO

Já foi provado até mesmo em literatura que quem faz cerâmica pensa atingir a perfeição. No livro O Velho Zorba, de Nikos Kazantizacs, a personagem Zorba corta, com um machado, um de seus dedos fora, simplesmente porque o dedo atrapalhava o manuseio das peças de cerâmica. O protagonista do livro apenas pergunta a Zorba se doeu. Claro que doeu, disse Zorba, Marília Mascarenhas e Cidinha Maia, evidentemente, não chegaram a cortar nenhum dedo com um machado. Mas nós buscamos a harmonia e, quem sabe, a perfeição, dizem elas.
O primeiro processo do trabalho desenvolvido por elas e, obviamente, conseguir o barro. Este vem de São Paulo.
Depois e feito um projeto, o qual, na prática, sai quase sempre diferente do traçado original. Em seguida ao projeto, um oleiro se encarrega de bater o barro, já decantado, para retirar o ar.
E o oleiro quem faz as pelas, ou seja, montinhos de barro que são levados ao forno. O restante é feito a mão.
A temática mais freqüente no trabalho das cerâmicas e a fauna, numa linha ecológica, bem como linhas geométricas. Elas já participaram de exposições no Rio de Janeiro, a convite da Associação de Ceramistas daquele estado, mas dizem que o trabalho na tem sido recompensado do ponto de vista material. Em geral compra-se muita cerâmica produzida em série.
Não dão muita importância aos trabalhos originais .É participando de exposições que valorizamos nosso trabalho, diz Marília ( Paulo Dantão)

            A ESCULTURA MARCA D’ÁGUA

Concebida para representar a Memória da Águia na Bahia, a escultura Marca d”água de autoria do artista Astor Lima, será feita numa estrutura tubular em aço de 200 mml e tem um perfeito equilíbrio plástico. Informa o escultor que esta obra terá 2,20m de altura  e 2,5 de largura e 1,20 m de profundidade. Ficará instalada num espelho d”água de formato circular com diâmetro de 6 m, e elevado do solo a 0,50 m. Assim, a peça desempenhará na sua dinâmica de construção os serviços básicos de transformação da água desde a captação, passando pelo tratamento até a distribuição.
Astor Lima este tentando sensibilizar algum empresário para que sua escultura seja executada e instalada em frente ao prédio sede da Memória da Água nos jardins do Parque do Queimado. Será um grande serviço que se prestará à Bahia.