segunda-feira, 27 de maio de 2013

CALIXTO SALES E SUA ARTE CHEIA DE SENTIMENTO


JORNAL A TARDE, SALVADOR, SÁBADO 18 DE SETEMBRO DE 1976


As bandeirolas e o casario colonial de Calixto 
Arte primitiva, primitivista, ingênua (naif), de comportamento arcaico, da realidade popular ou outro rótulo que os amantes das artes plásticas o chamem representa na verdade uma arte instintiva que explode inesperadamente dos sentimentos de gente muitas vezes totalmente isolada do tráfego e dos inferninhos das metrópoles. Já também a chamaram de arte insita a qual passa a ser consumida pelos habitantes das metrópoles e mesmo reconhecida pelos museus como uma manifestação popular bem próxima do folclore. Acontece que para mim esta arte tem uma importância primordial e muitas vezes é muito mais autêntica do que a arte feita por pessoas oriundas de bancos das escolas de Belas Artes. Acredito que seja mais séria e a criatividade é inata e impermeável às influências dos modismos que tanto estamos acostumados a ver enchendo as salas de galerias. É dentro deste pensamento que quero apresentar um jovem pintor de apenas vinte e cinco anos de idade e um novato profissional. Um balconista de um pequeno armazém de cereais na localidade de  Coqueiros às margens do rio Paraguaçu no Recôncavo baiano que foi descoberto e, hoje tem seu atelier na Galeria Rag, na Boca do Rio ,onde continua fazendo o seu trabalho sem concessões ou preocupações de mercado. Este jovem artista deve ser visto como uma das principais expressões desta arte cheia de vitalidade e de importância ainda carecendo de ser mais ainda reconhecida. Os seus gestos, as suas frases são tão simples como as pinceladas que Calixto Sales dá nas telas brancas que lhe chegam às mãos. Quando conversamos com ele notamos toda uma ingenuidade de um artista que apenas está interessado em pintar e que se mantém longe das concorrências ou atitudes mesquinhas.
É um autodidata, como o são seus colegas primitivos.Desde criança que desenha e pinta quadros. Iniciou na escola primária pintando figuras históricas. Mas a necessidade de trabalho para sobreviver resultou no abandono dos bancos escolares que mal iniciara. Foi trabalhar como balconista num pequeno armazém de cereais que no interior chamamos de bodega e nos intervalos entre um freguês e outro pintava. Assim continuou sua trajetória que ainda tem muitos espaços a percorrer. É no percurso desta trajetória que os velhos casarões, o leito calmo do Paraguaçu e o verde tropical a pareceu com muita força através de cores fortes.

O desenho não chega a ser perfeito, mas apresenta uma qualidade superior a muitos primitivos especialmente nos casarões coloniais onde os traços retos mostram a firmeza do seu punho.As cenas de ruas e da zona rural são retratadas em sua visão primitiva e ingênua. As prostitutas misturadas com marinheiros em ruas estreitas nas cidadezinhas do interior da Bahia, as baianas do acarajé, os vendedores ambulantes, enfim figuras que estão aos poucos desaparecendo não apenas de Salvador como também das cidadezinhas onde os armazéns e pequenos supermercados concorrem com as feiras livres e vendedores ambulantes.

Além das belezas dos casarões com seus azulejos multicoloridos Calixto Sales transporta para a tela numa linguagem simples o verde e amarelo, o vermelho e o azul intenso do tropical conservando desta forma toda uma ambientação e vivência de uma localidade - Coqueiros - onde a civilização ainda não chegou a perturbar a vida de seus poucos habitantes.
Calixto Sales fala pouco porque a sua especialidade é o pincel que flui instintivamente nas telas de onde surgem belas composições. Os espaços são bem ocupados por casas, figuras humanas e árvores devidamente localizadas em pontos estratégicos dando um equilíbrio de forma e cor. Acredito que este artista tem tanta importância quanto o famoso engraxate João Alves, já falecido, mas reconhecido como um dos principais pintores primitivos do país. Só que Calixto é jovem e continua a produzir,
Devido à importância do seu trabalho não podemos admitir que este jovem artista fique restrito aos conhecimento dos baianos. É preciso apresentar os seus trabalhos em outros centros, onde o mercado de arte está mais desenvolvido e de onde surge o reconhecimento em termos nacionais.
Tenho escrito que ultimamente pouca coisa nova em termos de arte visuais tem surgido na Bahia. Os medalhões continuam fazendo as mesmas coisas que faziam há 30 ou 40 anos atrás e por isto é gratificante quando surge o Calixto Sales, um intimista, um primitivo, ingênuo e criativo.

          A BAHIA DE CANDOCA NA GALERIA CAÑIZARES

Conhecida de todos aqueles que acompanham as artes visuais na Bahia, a artista Candoca está expondo desde ontem, na Galeria Cañizares. Suas telas falam da Bahia antiga com as cenas onde os tipos populares aparecem. É uma pintura sóbria e de técnica apurada. As cores são utilizadas dentro de uma composição perfeita e singela.

Uma das telas de Candoca exposta na Cañizares
A ternura e o misticismo das igrejas e casarões da velha Bahia, que hoje desaparecem, devido ao desenfreado apetite das imobiliárias, são jogados com maestria. Como afirma meu amigo Ivo Vellame, Diretor da Escola de Belas Artes da UFBA,  "mostrar a arte de Candoca é mostrar a Bahia no que nela há de mais significativo e expressivo, porque este anjo de artista plástica está incondicionalmente ligado às raízes eternas e soberbas da Boa Terra." Vou mais longe, acredito que Candoca é uma das poucas artistas da Bahia, que consegue levar para a tela o perfume e o misticismo de nossas ruas e a malandragem do baiano, latino por natureza e comportamento, uma página da Bahia com seus casarões, suas ruas tortas e enladeiradas, suas esquinas onde despontam os mistérios, onde surgem repentinamente as prostitutas, as colegiais e os molecotes, que vendem amendoim. Aqui não existe simplesmente o desgastado elemento casario como temática, porque a figura humana dá mais calor à tela. Os homens e as mulheres servem para mostrar todo o calor humano destes locais, antes chiques, hoje turísticos, mas acima de tudo baianos.
Muita gente conhece Candoca, porém, tenho certeza que poucos sabem que ela é carioca e chama-se Cândida Jorge dos Santos Ferreira. Quando adolescente, estudou pintura com madame Berthe Pavec, artista laureada pela Escola de Belas Artes de Paris, em Cannes-França.
Candoca expôs pela primeira vez, no Salão Baiano, em 1956 e daí realizou várias exposições individuais, inclusive no Greek Theater, em Los Angeles. Agora ela nos apresenta dezoito óleos e quinze guaches. Todos versam sobre ruas e pontos tradicionais de Salvador e Itaparica.

                               PAINEL

A 201- Carmem Bardy conhecida por suas serigrafias baseadas no tema O Posto é a 201ª expositora da Galeria Bonino, no Rio de Janeiro. Atualmente ela mora em São Paulo e desde o dia 14 do corrente que a Bonino apresenta alguns de seus trabalhos que tem como novidade a presença do elemento humano. Há cinco anos tornou-se profissional.

PINACOTECA- foi inaugurado na Pinacoteca da Aplub, em Porto Alegre o busto do escritor gaúcho Érico Veríssimo. Esta Pinacoteca é famosa por manter e preservar a arte rigorosamente, e quando de sua inauguração há alguns anos foi de autoria de Érico Veríssimo a apresentação do catálogo. O busto do escritor foi feito pelo escultor A. Caringi.

DOIS NA ACBEU- A Associação Cultural Brasil-Estados Unidos inaugurou uma mostra dos trabalhos de Marlene Cardoso e Justino Marinho, a qual permanecerá até o dia 24 do corrente. A minigaleria da Acbeu, fica no Corredor da Vitória, 1883.

CARMEM CARVALHO- Pastéis e estamparias estão sendo, trabalhados pela artista Carmem Carvalho. A individualidade do seu trabalho o credencia para apontarmos como uma das mais importantes da Jovem Guarda das artes plástica na Bahia. Apenas, é preciso perder a timidez e partir para a profissionalização.

O GRUPO FAMOSO- Glênio Blachetti, Glauco Rodrigues, Danúbio Gonçalves e Carlos Scliar, os quatro artistas que formaram em 1950 o famoso Grupo da Gravura, estarão reunidos numa mostra em Porto Alegre para nova reafirmação em defesa da arte nitidamente brasileira. Eles estão separados há algum tempo, pois cada um enveredou por um caminho em busca de linguagem própria e o reencontro será um acontecimento importante para o setor.

LEVEZA DE SÉRGIO- Visitei a exposição do artista Sérgio Veloso, na Galeria Panorama e senti-me gratificado com a leveza do seu trabalho. Uma pintura que pode ser recebida de braços abertos. As cores claras dão ao espectador uma sensação de tranqüilidade, de um trabalho feito com amadurecimento plástico. Sua pintura não agride, ao contrário, é tão leve, tão suave que acaricia.

REAÇÃO DE TEMPO- O cartaz é uma das formas de comunicação de massa rápido e penetrante. Mas o cartaz ainda não despontou com a importância que merece no Brasil, especialmente na Bahia, onde estamos acostumados a ver cartazes que são verdadeiras agressões. O mau gosto e, a falta de toque artístico prolifera na maioria dos cartazes de cursos e congressos agridem as vistas. Em vez de comunicar destroem a imagem daquilo que tentam ressaltar.
Agora fico feliz com uma posição tomada por um grupo de artistas que está brigando pela nacionalização dos cartazes de cinema. Acontece que os filmes estrangeiros são anunciados através de cartazes estrangeiros e isto eles consideram inadmissível. "No Brasil, o máximo que o nativo pode fazer é colar o cartaz na frente do cinema", diz Monserat Filho, presidente do Clube de Criação do Rio, responsável pela campanha de nacionalização do cartaz de cinema. Existe um projeto que já passou pelas comissões de Constituição e Justiça, e de Educação, da Câmara Federal.Agora vai para a Indústria e Comércio ,e finalmente, para o Plenário. É mais uma esperança para o artista plástico brasileiro.

FOTOS DE JAIME- Obteve sucesso a exposição de fotos, a cores, de Jaime Costa, realizada recentemente na Associação Comercial de Ilhéus. Intitulada Bahia de Todos os Tempos, a mostra constou de 30 painéis. Dentista, 60 anos, fotógrafo amador há 40, Jaime Costa foi muito solicitado pelos colecionadores.Agora ele prepara uma nova mostra, também de fotos, sobre a região do Araguaia.