sábado, 11 de maio de 2013

FALSOS VALORES


JORNAL A TARDE ,SALVADOR, SÁBADO, 19 DE NOVEMBRO DE 1977

                

A Bahia é pródiga em falsos valores. Temos forjado ao longo da nossa História econômica, política, social e cultural falsos valores, que aproveitando-se da hospitalidade e bondade dos baianos vão estendendo seus tentáculos.
Pessoas sem qualquer valor artístico ou intelectual que passam a ser vistas como escritores, poetas, escultores, pintores e até ricaços, sem um níquel. Vivem nas altas rodas paparicando os últimos fatos que tomaram conhecimento, pelo alto, através das múltiplas publicações, e assim vão ganhando status de entendidos nisto ou naquilo. São capazes de colocar em xeque a capacidade de responsáveis profissionais, porque dá Ibope. Conversam sobre tudo, embora não entendam patavinas de nada. Um ciclo que vai crescendo como uma bola de neve e aí começam usufruir da bondade baiana. Assim temos escultor, que faz orixás e exus à semelhança de artistas populares, que vendem nas barracas do Mercado Modelo, só que esses são mais autênticos, porque afloram de uma realidade e cultura populares. Mas é  gente pobre e não pode compartilhar das altas rodas. Temos intelectuais forjados e colecionadores de objetos de arte, que começaram a comprar de qualquer jeito e de repente se dizem entendidos. Temos poetas que nunca escreveram nada que mereça destaque, mas que conseguem impor por razões que prefiro não citar. Temos pintores e gravadores de péssima qualidade, que são badalados a toda hora.
É preciso não confundir amizade com capacidade. Você pode ser amigo de pseudo artista, mas isto não quer dizer que deva incentivar a sua carreira, se realmente o cara não tem nada para mostrar. È preferível dizer-lhe que procure outra atividade do que cooperar para formação de um falso valor, que mais cedo ou mais tarde será desmascarado como o falso brilhante, brilha em certo tempo, mas este brilho falso será no futuro símbolo de engano.
Forjam de tal forma esses falsos valores nesta Bahia de Todos os Santos, que os caras criam até tipos com vestes apropriadas, cortes de cabelo e outros utensílios, alguns até bizarros e fora de moda. Tudo serve para criar uma capa de falsidade, quase impenetrável. Daí é o passo dos almoços e dos jantares onde são citados na colunas sociais. Infelizmente estamos numa cidade onde as colunas sociais ainda arrastam multidões para as exposições. É sinal de prestígio sair o nome nas colunas, e está garantida a presença de dezenas de pessoas, que também sonham em ser incluídas nas listas divulgadas dias após a exposição. Mas o bom artista vence a todos estes obstáculos pela sua capacidade e perseverança. É verdade que alguns desses falsos valores enriquecem e muito deles podemos apontar aqui em Salvador.
Vivem no fausto porque bajulam, mas tenho certeza que não estão com a consciência tranquila porque na realidade eles sabem que a sua produção carece de tudo que significa Arte.Fazem uma arte menor que é consumida e reconhecida por quem nada entende.

             ARTISTAS CANADENSES NO SOLAR DO UNHÃO

Uma das máscaras expostas
no Solar do Unhão
É a terceira vez que realiza-se em Salvador a Semana do Canadá organizada pelo Consulado do Canadá, no Rio de Janeiro, e, este ano, terá a presença do atual embaixador deste país amigo Sr. James H. Stone. Entre as atividades programadas foi realizada ontem, no Teatro Castro Alves, a exibição de Liona Boyd, jovem instrumentista e compositora que está atualmente sendo apontada como uma das melhores violinistas clássicas do mundo. Porém, o que nos interessa mais de perto é a mostra de pinturas, desenhos, esculturas e máscaras de artistas contemporâneos canadenses que está aberta ao público até o próximo dia 30 de outubro no Museu de Arte Moderna da Bahia, no conjunto arquitetônico do Unhão.
A mostra consta de 46 peças selecionadas pelo Ministério de Assuntos Índios e do Norte do Canadá dentre trabalhadores representativos da Costa do Pacífico e do Canadá Central. A exposição é intitulada Elos de Tradição e prestigia as novas formas de arte que surgiram durante os últimos anos á medida que os artistas canadenses introduziram nas suas criações o espírito e as tradições de seus antepassados índios. O estilo moderno que aparece em algumas peças é explicado como resultado de uma integração dinâmica das tradicionais convenções de arte indígena e as influências da sociedade contemporânea. As máscaras, que são as peças mais surpreendentes da mostra, combinam vários tipos de madeira com outros materiais produzidos pela natureza tais como penas, ossos, peles de animais e cabelos humanos, sendo exemplo típicos da herança cultural dos índios da Costa do Pacífico do Canadá.
Ao lado da exposição estão sendo projetados alguns filmes etnográficos produzidos pelo Instituto Nacional do Filme do Canadá sobre a arte e os costumes dos índios. O filme de longa-metragem J. A. Martin, Fotógrafo, recebeu este ano no Festival de Cinema de Canes dois importantes prêmios pela melhor representação feminina dado a Monique Mercure e o prêmio da OCIC dado ao realizador Jean Beaudoin, foi apresentado no último dia 17, no cine Bristol. O filme é um retrato intimista de um casal vivendo sob a sufocante moral da zona rural de Quebec no fim do século passado. O diretor Jean Beaudoin realizou uma obra plasticamente cheias de nuances dos sentimentos dos personagens. O filme foi apresentado com legenda em português.
Ficamos assim agradecidos a Embaixada do Canadá tal o interesse existente no país, especialmente, na Bahia pela cultura e pelas coisas canadenses, justificado pelo crescente intercâmbio de idéias e pessoas.

CÉZANNE NO MUSEU DE ARTE MODERNA DE NOVA IORQUE

Sinto uma alegria intensa, meu amigo, em conversar a sós com você, escrevia Emile Zola em maio de 1866 numa carta que fez a seu amigo Paul Cézanne um dos grandes pintores Impressionistas.
Todos que gostam da arte sentem imensa alegria quando podem olhar e observar de perto com intimidade, obras de Cézanne, como as que estão agora expostas nas amplas salas do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Um homem que também teve suas dúvidas e vacilações, como chegou a escrever:o céu do meu futuro é um negro absoluto, mas que traduzia nas cores e temas escolhidos a alegria e as cores fortes das frutas e das copas das árvores.
Quando vivo evitava o contato e ficava irritado quando lhe tocava os ombros ou quando o tomavam pelo braço talvez porque este contágio lhe tirasse a tranqüilidade necessária a um criador.

Freqüentador dos cafés literários, principalmente o café Guerbois, preferido dos pintores, ele sentia-se sem aquele ambiente necessário porque a solidão era seu destino. Fez a sua primeira exposição em 1874 na Societé Anonyme des Artistes Peintres, Sculpteurs e Graveurs, no estúdio de Nadar, não recebendo elogios da crítica, até então muito fechada. Em 1877 suas telas aparecem junto ás de Monet, Sisley, no terceiro Salão impressionista, e provocam risos e Incompreensões. Daí as exposições se sucedem com intervalos longos: Exposição dos XX, em Bruxelas, em 1890; exposição geral de Vollard, em 1895. Toma parte no Salon des Independants em 1898 e 1899. Em 1900 participa da Grande Exposition Internationale com três telas. Daí seu valor é reconhecido e torna-se presença marcante no Salon des Independants em 1901 e 1902 e, em 1904 no Salon d’Automme com uma sala inteira. Em outubro de 1906 caiu doente vinda a falecer dias depois, exatamente no dia 22 de outubro de 1906.
É portanto com grande festa que o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque realiza esta exposição de Cézanne com a colaboração dos Museus Nacionais de Paris, que ficará aberta ao público até 3 de janeiro de 1978. Assim quem for á Nova Iorque neste período não deve deixar de visitar esta importante exposição pois certamente será um fato inesquecível.

OS PÁSSAROS E OS CAVALOS INDOMÁVEIS DE CRISTIANO

A figura humana, um novo elemento na pintura de Cristiano

Foi em 1973 o início de um trabalho de pesquisa em torno do movimento dos cavalos. Os indomáveis Corcéis que correm nos prados. Sua apreensão significa prova de força e agilidade. Eles correm indomáveis nas telas brancas que são tingidas por manchas espontâneas de tintas, com a maestria do pincel de Cristiano. Um ilustrador, desenhista e publicitário que tornou-se pintor. Um mineiro acostumado a conviver nos vales e serras de sua Minas Gerais com o cavalo que transportava em seu lombo os senhores e as sinhazinhas, que carregava o ouro e outras pedras preciosas, que eram retiradas pelos escravos das serras e grutas. Tudo isto está presente na figura dos cavalos pintados por Cristiano que eleva a beleza e a altivez deste animal rico em potencialidades plásticas.
Continuando a examinar sua carreira pictórica encontramos o mesmo artista destacando os movimentos com outro elemento rico em plasticidade. Os pássaros, com seu bater de asas constantes. O símbolo da liberdade, que não deixa de procurar os céus, mesmo quando aprisionado numa gaiola de arame.
Entre manchas e pinceladas rápidas, Cristiano vai trazendo para as telas os pequeninos e frágeis, mas velozes seres cobertos de penas. Juntou-os, cavalos e pássaros todos vagando entre belas composições plásticas e corretas combinações de cores. Nesta busca continua de captar a nobreza, a leveza, e, principalmente, os movimentos cadenciados ou rápidos transportou o artista a dança introduzindo um novo elemento: o homem. Busquei então o homem em suas manifestações de movimento, em suas raízes, revela em seu depoimento. Surgem assim as figuras humanas abstraídas em plena alegria de viver. Livres como de cavalos e pássaros, um sonho que todos nós sensíveis desejamos e buscamos. Cristiano, que já expôs este ano na Galeria Panorama, está agora na Galeria Guignard, em Minas Gerais, mas certamente voltará porque é um artista do movimento.

                         PAINEL

PRÉ-COLOMBIANA - O mais importante acervo da arte pré-colombiana da América do Sul, pertencente ao Museu do Ouro do Peru está no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, até 04 de dezembro do corrente.A mostra, conta com os patrocínios do Banco do Brasil e do ME-Funarte compõe-se de cerca de 300 peças em ouro, entre objetos utilitários de adorno e de uso pessoal, de culturas como Vicus (300-200 d.C.) Paracas (300 a.C.-100 d.C). Nazca (200-800 d.C), Mochica(200-800 d.C.), Chimus(1000-1461 d.C e Inca, dentre outras.
PALESTRAS - Paralelamente à exposição, o MAM realiza uma série de palestras sobre as culturas pré-colombianas e o ciclo do ouro, no Brasil e na América do Sul.
TENREIRO - O MAM- Rio inaugurou também 2º andar do Bloco de Exposições, a mostra Um Tempo no Espaço de Tenreiro, abrangendo 30 anos de trabalho do artista português, naturalizado brasileiro, Joaquim Tenreiro.A mostra consta de 120 obras das suas várias fases: pinturas, retratos, naturezas mortas, paisagens, figuração geométrica, obra construtivista, produção recente, e outras. Permanecerá aberta ao público até 21 de dezembro.
PINTURA BRITÂNICA -  Sob o patrocínio do Consulado Britânico, está sendo realizada a mostra
A Cor na Pintura Britânica, reunindo cerca de 200 telas de 20 artistas britânicos contemporâneos. Organizada originariamente para participar da última Bienal de São Paulo, acabou não sendo apresentada, mas do MAM do Rio deverá seguir para outras capitais, inclusive São Paulo. Integram a mostra artistas de várias gerações, muito deles já conhecidos entre nós, como é o caso de Richard Smith grande Prêmio na Bienal de São Paulo, em 1967 e Hitchens, Heron e Scott, que constaram da primeira Bienal, em 1951. As obras em sua maioria são produção recente, de meados da década de 70 para cá, o que se conclui que não se trata de um exposição de velhos mestres, apesar das obras de Ivon Hitchens (1893) e Willian Scott 1913.Entre os mais jovem, estão Allen Jones, Tom Phillips, Stephen Buckley, Richard Smith e outros.