quarta-feira, 1 de maio de 2013

BRAYNER HUMANIZA A NATUREZA MORTA - 14 DE MAIO DE 1977


JORNAL A TARDE, SALVADOR,  SÁBADO, 14 DE MAIO DE 1977

            BRAYNER HUMANIZA A NATUREZA MORTA

Os movimentos das fitas de Leonel Brayner
O desenhista e pintor Leonel Brayner (Leonel Brayner da Rocha Lima é natural de Alagoas e seu interesse pelas artes plásticas surgiu dentro de casa por influência de sua mãe. Em seguida frequentou o atelier de Inos Corradin e recebeu orientação de Carlos Scliar e Antônio Maia sobre técnicas e disciplina artísticas, bem como o incentivo necessário para o desenvolvimento de suas pesquisas e estudos. Viveu em Curitiba onde participava de um grupo composto por Bia Wouk, Carlos Eduardo Zimmermann e Rones Dumke.
Agora Leonel Brayner está em Salvador acerca de um ano e aqui pretende fixar-se definitivamente, porém, realizando exposições no eixo Rio-São Paulo e outros.
Desde ontem que sua exposição está aberta ao público na Galeria O Cavalete, no Rio Vermelho. São trinta trabalhos, todos óleos sobre tela, focalizando de um a forma bem expressiva objetos e receptáculos. Sem dúvida que Salvador está presente influenciando através da explosão de suas cores os trabalhos de Leonel. Basta dizer que dos simples e individuais objetos estáticos ele parte para a paisagem estilizando-a de uma forma excepcional.
Destaco principalmente, uma que fez da lagoa do Abaeté, que traz consigo toda homogeneidade de outros trabalhos expostos. Quanto á segunda paisagem Farol da Barra , Leonel não foi tão feliz. Ele quis retratar com mais realidade e a composição perdeu um pouco a homogeneidade e a qualidade em relação aos demais trabalhos. Quebrou a linha que vinha sendo seguida pelo artista. Porém, isto é compreensível porque o próprio Leonel explica que não é paisagista.
A influência de Salvador foi tão grande, que embora sendo um paisagista ele atirou-se conscientemente à paisagem. Isto porque suas fitas estáticas ganharam movimentos, surgiram as dobras e depois como uma evolução as paisagens, que começa a fazer sem uma segurança ainda como afirmou a mim e a Ivo Vellame, quando estivemos em seu atelier. Leonel é um artista com disciplina profissional e consciente do papel que exerce, coisa rara em jovens artistas. Leva o seu trabalho com extrema seriedade ao ponto de fotografar e manter um arquivo codificado de todas as telas já feitas. Seu trabalho resulta também de uma disciplina técnica e pesquisas feitas com muita tranqüilidade.
Ele sempre queria sair da natureza morta tradicional. Continuou trabalhando e com o passar do tempo descobriu a beleza unitária dos objetos. Com a atmosfera envolvente, aquela primeira atmosfera envolvente do objeto em repouso, que é bonita. A individualidade ou seja a nobreza que tem. Então Leonel perguntava porque vinte tomates? Porque uma cesta de tomates? Se posso ter soluções e dar os efeitos desejados com um. Porque um é bonito. Se coloco vários acho que despersonaliza o objeto. Aí fui sentindo a necessidade de detalhar mais a beleza dos objetos individualmente. Como elemento componente achava que ficava muito solto e surgiram os receptáculos como as gamelas, que são automaticamente brasileiras. È evidente que estilizei a gamela da madeira. Quanto ao prato acho uma coisa afetiva, carinhosa e até poética e romântica, também, Ele serve como elemento condutor, que realça a beleza do objeto em si. Quando faço ou procuro mostrar a beleza, as características de um objeto que estou descrevendo procuro reproduzir com um prato que define melhor o que estou querendo mostrar. Comecei a trabalhar em tela. Eu mesmo preparava a tela artesanalmente.
Daí começou a usar a tela colada em Eucatex e redescobriu que também podia sintetizar o espaço pictórico. Assim não precisaria utilizar todo o espaço de uma tela inteira, isto é uma coisa muito pessoal, que não podemos generalizar. Assim passou a usar o suporte como elemento componente do quadro. E o Eucatex é um suporte nobre, e difícil de se estragar.
Como você vê Leonel é um pouco artesanal. O critico Walmir Ayala disse a esse respeito que ele acabaria escultor. É verdade que maneja muito os elementos. Foi cortando as telas e aplicando nos suportes as partes que desejava. Os cortes foram evoluindo, ia cortando mais e sintetizando.
Isto sem forçar a barra.
Chegou às tiras, às faixas, que de uma forma ou de outra poderiam ser uma estilização das fitas do Bonfim, que lhe impressionam muito. Mas, na realidade não é nada disto. Surgiram como uma síntese dos cortes. Esses trabalhos atuais são a essencialidade que chegou a te agora.
Leonel utilizava muito beges, ocres e terras. Passou depois a outras cores derivativas, complementares como elementos componentes do quadro. Vieram outras cores e as telas ganharam mais vida. Vejam que as sombras atravessam várias cores em seus quadros. Ao atravessar cada cor, a sombra é dada com individualidade. Para conseguir isto, perdeu muitas telinhas. Mas o que importa é que hoje o trabalho tem melhor qualidade. Como trabalha com muita tranqüilidade, como trabalha estudando muito e discutindo com os artistas, trocando idéias, tudo isto satisfaz o Leonel.
Numa das telas expostas, Leonel Brayer colocou um estrofe. Portanto, é um novo elemento dentro de sua pintura. Mas, para ele o elemento letra não tem muita importância, são os outros elementos. Coloquei o verso porque achei que era bonito e se encaixava. A solução ficou equilibrada. Nas minhas telas quase sempre coloco uma parte pintada em branco, representando o papel e as pessoas devem colocar o que desejam. O papel humaniza as minhas telas. Como dizia um psiquiatra paulista Leonel quando você coloca o papel embaixo das gamelas, pratos e outros receptáculos de seus objetos, você humaniza a natureza morta. Ela deixa de ser morta e torna-se humana.
As fitas deixaram de ser estáticas e ganharam movimentos. Ampliou e dobrou-as Na realidade não importa a fita em si, mas a dobra. É o valor unitário da coisa descrita. É isto que é importante. Assim o espectador sabe que tem gente que dobrou isto. Isto não está dobrado por acaso.
Seus trabalhos não podem ser vistos como colagem. Isto porque na colagem encontramos elementos que na pintura, agregados e compondo. Ele só trabalha sobre a tela e agora está dando apenas um novo estímulo visual, que acha muito mais denso e dinâmica através dos movimentos de suas fitas. Porém Leonel deu tanta vida a natureza morta, que já começa a dar os primeiros passos em busca da natureza, da paisagem. Ele faz questão de dizer que não é paisagista. E que as duas paisagens criadas Abaeté e Farol da Barra, foram resultados de algumas observações que fez revendo locais já pintados por outros artistas. Diz que foi ao Abaeté, sentei lá e fiquei decepcionado. Não com a beleza da lagoa.
Mas com o descaso. Achei pequena suja, muito violada. Retalhei um quadro. Então coloquei segmentos como se a lagoa estivesse sendo vista através de um vidro, de um vídeo, de uma negativa de um filme ou de uma janela de uma Kombi, como disse Wilson Rocha.
A lagoa proibitiva, já distante. Utilizei um verde gaúcho não é um verde baiano queimado. Fiz uma mistura também de verde e o mesmo tempo eu dupliquei aquele pedaço como se estivesse trabalhando a duas mãos. Dei uma continuidade como ela se repete, lembrando o cartão postal. Portanto, uma visão não livre como viu Pancetti, que a pintou com grande ingenuidade, com grande beleza plástica. A natureza morta torna-se, assim, o exercício formal mais elaborado e mais elegante e o gênero dominante na era moderna, onde justamente, o maior interesse se concentra nos valores formais.
Esta citação de Antônio Bonfim faz-se necessário para compreendermos a obra de Leonel Brayner, vai sofrendo no decorrer do tempo um processo evolutivo de síntese formal.
Com isto ele foi aprimorando sua técnica ao ponto de humanizar a natureza morta. Ao invés de colocar em suas telas vários elementos, característica quase obrigatória neste gênero artístico, Leonel elege apenas um elemento, e dele capta toda a beleza formal e atmosfera que o envolve. É um trabalho de pesquisa (oh) palavra desgastada) que vem desenvolvendo.

                                 PAINEL

O artista Fred Schaeppi sempre experimentando
FRED NA CAÑIZARES - O artista Fred Schaeppi exporá na Galeria Cañizares as suas telas feitas com uso de massas em alto e baixo relevos, e desenhos.Embora as figuras apresentadas pelo artista não tenham um traço definido ele não procura o abstracionismo, mas sim mostrar o que pode conseguir por meio do manejo e modelação das massas sintéticas que usa misturadas com colas especiais. Examinando os trabalhos de Fred tive oportunidade de verificar uma evolução surpreendente. Inicialmente, os relevos eram conseguidos com uso de muita tinta e terminava com uma qualidade duvidosa.
Descobriu que o Eucatex seria o suporte ideal e as tintas nos relevos foram substituídas
pelas massas. ao término da modelação é que as tintas surgem para dar o colorido necessário às suas figuras.Os relevos surgiram naturalmente na obra de Fred Schaeppi isto porque ele fazia marinhas, uma influência talvez de sua infância que sempre teve o mar  descortinado de cima do Morro do Ipiranga. As pedras que eram conseguidas com a utilização de muita tinta resultarem na presença constante de relevos em quase todos seus quadros. Não existe possibilidade de rachadura porque isto ocorre no período de secagam das massas, e, depois ele retoca com tintas. Seus quadros ganham mais resistência em relação ás telas de pano.