quinta-feira, 2 de maio de 2013

MINICATÁLOGO ANUNCIA UMA GRANDE MOSTRA DE BEL BORBA


JORNAL A TARDE, SALVADOR, SEGUNDA-FEIRA 11 DE SETEMBRO DE 1989.

O artista Bel Borba tem exposição Amostra Grátis
Amostra Grátis, numa tarja vermelha, me chamou a atenção. Era um pacote. A princípio imaginei que fossem amostras de qualquer medicamento para combater dores. Pequenino, com apenas 8,5 cm por 5,5 cm, o pacote continha vários envelopes. Porém, quando abri e comecei a examinar, tratava-se de uns mini-catálogos que anunciavam a exposição de Bel Borba. Criativo, Foi a primeira palavra que surgiu na minha cabeça, principalmente quando pude verificar que o artista conseguiu reunir naquele pequeno espaço todos os danos essenciais de uma exposição, onde normalmente são agrupados em catálogos de grandes dimensões. Esta é apenas uma faceta da figura de Bel. O conheci numa pequena garagem de sua casa, no Canela, pelas mãos de Ivo Vellame. De lá para cá, Bel andou por este mundo afora e até pintou muros em Berlim e Nova Iorque. Ele vive a arte. E como qualquer um de nós que precisa beber água e, sentar-se, para comer.
Ele mesmo avisa a quem interessar possa que o sucesso para um artista e a certeza de que nunca vai deixar de fazer arte. Só fazer arte. Tudo isso.Evitar se inscrever nos limitados, duvidosos e insuficientes cânones de mero logismo arvorado de mercado de arte.
Bel vende bem. Mas anda na contramão como o querido Raul Seixas, que teimava e brigava quando alguma música de sua autoria estava fazendo sucesso. Bel , aqui vem firme contra o mercado de arte, por não aceitá-lo como a condição essencial para prosseguir o seu caminho em busca de sua expressão. Não aceita as imposições e as possíveis limitações e os caminhos que o mercado possa exigir ou apontar.
Rompe com tudo e com a velocidade de sua arte contemporânea lança farpas para todos os lados. Fala dos senhores absolutos da verdade. Manipuladores, dirigistas, que, em sua opinião, em nada contribuem para a comunidade, para o circuito, para o artista, para o mercado, e em alguns casos será aberta no próximo dia 14, em O Cavalete Galeria de Arte, e certamente será um dos principais acontecimentos artísticos do ano que está perto do fim. Vamos lá.

WASHINGTON TIRA DO LIXO OS MATERIAIS DE SUA ARTE

Escultura de Washington Santana
com material retirado do lixo.
Vivemos numa cidade sem sorte. As últimas administrações municipais, principalmente as de Wilson Magalhães, Manoel Castro e agora a de Fernando José, deixaram que o lixo tomasse conta de tudo. A cidade turística virou a cidade do lixão. Um lixão só. D e Itapuã a Itapagipe e até mesmo os bairros nobres estão experimentando a triste realidade dos chamados bairros periféricos. Porém, mesmo da miséria e do lixo, algumas pessoas mais sensíveis conseguem ainda retirar um pouco de poesia e arte. É o caso dos fotógrafos que vão mostrar no próximo dia 12 uma série de fotos sob o título Lixo Urbano numa promoção da Fundação das Artes, a ex-Fundação Cultural, que mudou de nome e infelizmente continua com os mesmos métodos de trabalho e o mesmo marasmo.
Porém, foi na sede da Fundação Greogório de Mattos que o artista Washington Santana abriu sua exposição no último dia 06. Bandeira Brasileira, onde mostra alguns trabalhos concebido a partir de materiais tidos como imprestáveis, recolhidos no aterro de lixo de Canabrava. Disputando com os badameiros pessoas que vivem de recolher restos da cidade como latas, embalagens plásticas, etc, para vender ele conseguiu reunir alguns materiais interessantes. Com dezenas de sandálias havaianas fez uma brincadeira brasileira, a qual reproduzo na 1º página desta edição. Esta é a segunda vez que Washington Santana mostra trabalhos feitos com materiais recolhidos do lixo. O artista consegue recriá-los e enaltecê-los, depois de uma permanência nos monturos condenado a morte.
O artista os salva e dá-lhes nobreza transformando-os em elementos de sua arte intrigante.
Vejo Washington Santana como uma dessas pessoas inquietas, incompreendidas á primeira vista, por qualquer pessoa normal, mas quando alguém para e ouve as suas idéias atenta para inquietação que rege a sua  criatividade, fica conhecendo um artista que tem pique para vencer e tesar qualquer dificuldade. Ele vai em frente com seus motores invisíveis e realiza. Tem necessidade visceral de executar a sua obra e para isso se vale dos materiais que dispõe. Se não estão ás suas mãos vai á Canabrava e de lá constrói seu universo artístico. Material para ele não é problema. O que Washington gosta mesmo é de desafio, de continuar enfrentando as dificuldades pela simples satisfação de criar.

MANINHO VEIO MAIS PARA DAR MAIS CORES ÀS 
NOSSAS CIDADES

A artista plástica e ilustradora Viga Gordilho, criadora do personagem Maninho, resolveu dar-lhe vida. Com apenas três anos de idade ele sobe ao palco com as artistas do grupo Lívia Studio de Dança, com trilha sonora de Carmem Mettig e a direção de Fernando Guerreiro, que estréia no teatro infantil.
Portanto, maninho transformou-se numa figura viva. Surgiu no momento em que a cidade estava acinzentada.
Nasceu de um dado, desses que a gente costuma a sorte. Veio para dar mais cor á cidade e junto com seus amiguinhos começa a procura pelos quatro cantos cores para alegrar o ambiente. Por trás desta busca da cor para colorir o mundo está uma grande lição de vida. Nossas fábricas, sprays, desmatamentos, queimadas, descargas de automóveis, lixo que jogamos nas praias, os esgotos que despejamos no mar e rios, enfim, esta ação quase irreversível e destruidora do homem sobre a Terra tem contribuído para que as cidades fiquem cinzas. Maninho é um simples alerta para a salvação, para que possamos garantir aos nossos filhos dias melhores, do contrário, quando adultos, eles encontrarão as árvores e os rios apenas como registros nos livros ou mesmo confinados em parques, os quais também na estão livres desta sanha destruidora que se abate sobre tudo.
A criadora de Maninho, a artista Maria Virgínia Gordilho Martins, acredita que ainda é tempo de salvação. E, para que isto se transforme em realidade.