sábado, 11 de maio de 2013

SINISCA NA BAHIA


JORNAL A TARDE,SALVADOR, SÁBADO, 16 DE JULHO DE 1977
                          
                   
Sinisca com uma de suas obras
Uma experiência com computadores durante mais de 10 anos determinou uma expressão voltada para a sociedade industrial. Trata-se da obra desenvolvida pelo artista italiano Sinisca que recentemente expôs suas telas, esculturas  e jóias no Othon Palace Hotel. É um artista muito conhecido na Europa onde realizou decorações e esculturas para os maiores complexos industriais europeus e colaborador de revistas e jornais. Visitei sua exposição e conversei longamente com ele sobre a experiência com os computadores e outras máquinas sofisticadas. Suas esculturas revelam uma arte voltada para a sociedade industrial, e, também, suas telas que lembram paisagens lunares.
Como afirma o artista eu sou um dos poucos artistas que chegou à Lua antes dos americanos. Isto porque já criava paisagens lunares que depois ficamos conhecendo através das fotografias transmitidas para a Terra. Toda minha atividade artística está ligada as máquinas e materiais sofisticados. Talvez porque tenha trabalhado por longo tempo na IBM. Mesmo assim fico impressionado com a natureza. Quando visitei alguns países latino-americanos, inclusive o Brasil criei muita coisa inspirada na vegetação tropical e nos totens. É verdade que os materiais que utilizo e mesmo minha arte diz muito da sociedade desenvolvida. É a realidade que vivo. Se aqui vivesse certamente estaria mais preso á criação de coisas que refletisse essa realidade. Como vemos o artista sofre muito a influência do meio que lhe cerca. Não posso considerar-me um abstrato nem tampouco um figurativo. Estou num estágio entre essas duas correntes, ou seja entre o real e o fora da realidade.
Diz Sinisca que gosta de se expressar através de materiais que estejam presentes na sociedade tecnológica.
Gosto da escultura, mas acredito que a pessoa deve participar do trabalho. Daí a minha preocupação em criar trabalhos onde as pessoas pudessem participar.
Surgiram as esculturas móveis onde as pessoas também são criadoras. Muitas dessas esculturas as pessoas poderão conceber milhares de formas.
Basta girar um dos elementos componentes alguns milímetros e temos outra escultura. Um tratamento lúdico que ele dá a escultura, que deixa de ser um objeto simplesmente estático para ganhar movimento á medida que alguém deseje participar.
A primeira delas doou ao Museu Assis Chateaubriand em 1973. Por outro lado, Sinisca faz esculturas que além de serem trabalhos de arte possuem utilidade e podem ser transformadas até em urnas funerárias, bancos, mesas, e armários. São esculturas que representam totens e podem ser colocadas em posição vertical, horizontal ou oblíquas. Mas sua inquietação, própria de artistas de talento, levou-o a pintar um Fiat 147. que encontra-se no Museu de Arte Moderna de Belo Horizonte. Ele diz que Calder quando pintou um avião de uma companhia aérea fez como um divertimento, um passatempo. Eu vejo a coisa de outro ângulo.
Pintei a máquina não por divertimento, mas como uma necessidade de manter um diálogo com ela. Que é um elemento importante da sociedade industrial. Ela pode simbolizar esta sociedade que ora vivemos. As pessoas precisam das máquinas, não vivem sem elas, daí as razões porque senti a necessidade de manter um diálogo com ela, que é um elemento importante da sociedade industrial. Ela pode simbolizar esta sociedade que ora vivemos. As pessoas precisam das máquinas, não vivam sem elas, aí as razões porque sentir a necessidade de trabalhar uma máquina Fiat.
O que interessa realmente a este grande artista italiano é fazer de sua obra algo de útil e não apenas decorativa. O carro que anda, a escultura que se transforma numa mesa ou num banco. Uma arte de qualidade, e, que, além da beleza e do valor artístico como obra em si, tem utilidade dentro de sua casa ou apartamento.

          CHAGALL PINTA DOZE HORAS POR DIA

O pintor Marc Chagall atinge a idade bíblica ao completar 90 anos no último dia 7 em St. Paul de Vance, na França e ainda trabalha pintando cerca de 12 horas por dia porque em seu entender é preciso uma obsessão para se manter jovem. Várias homenagens foram programadas na Europa especialmente na França, entre as quais um concerto e inauguração de uma exposição intitulada: Mensagem Bíblica de Marc Chagall, no Museu Nacional de Nice.
Nasceu em 1887, em Vitebsk, na Rússia, filho de judeus pobres e religiosos.Foi assim criado com uma educação religiosa. Em 1907 mudou-se para São Petersburgo, onde estudou em algumas escolas de arte. Em 1910, foi para Paris, vivendo quatro anos e retornando em 1914 para a Rússia, onde pretendia permanecer pouco tempo, mas foi surpreendido pela guerra e não pode voltar.
No ano seguinte casou-se com Bella Rosenfeld, a qual retratou em inúmeras telas. Oito anos depois deixa a Rússia, indo inicialmente para Berlim e depois Paris. Ali realizou suas ilustrações para as Fábulas de La Fontaine; para Almas Mortas, de Gogol e para a Bíblia. Com a invasão de Paris em 1941 refugiou-se nos Estados Unidos, ajudado por seu amigo Matisse; Estava bem quando de repente faleceu sua esposa Bella, em 1944 Levando-o a um impasse de criação que durou cerca de quatro anos. Com o fim da guerra retornou á França onde reencontrou o seu talento e a felicidade casando-se com Valentina.
Pinto para o prazer dos olhos.
Bela obra do grande Chagall

Mas, pinto também para responder aos profundos chamados do coração das pessoas, afirma o velho Chagall numa cena de um documentário sobre sua vida e obra feito pelo cineasta canadense Harry Rask intitulado: As cores do Amor, que foi apresentado recentemente em Canes.
No final da guerra, ele hesitou entre viver na Califórnia e mudar-se definitivamente para a Costa Azul, onde já viviam Picasso em Valauris e Fernand Leger em Blot. Em Vance, a partir de 49, começa a época áurea do pintor, em que tenta todas as formas de expressão: cerâmica, escultura, vitrais, pintura em azulejo.
 Israel lhe encomenda os vitrais da sinagoga do Hospital Hadassal, em Jerusalém e o Ministro André Mairaux pede-lhe que pinte o teto da Ópera de Paris. Durante dez anos, em colaboração com o atelier Jacques Simon de Reims, ele deu á arte do vitral um desenvolvimento exemplar, produzindo obras primas que enfeitam a Igreja de Faumuenster, em Munique, a capelinha da Fundação Maeght em Saint Paul de Vence, culminando com a apoteótica série de vitrais da Capela Axial da Catedral de Reims. Nesta última, a beleza dos azuis e dos tons violeta na cena da Ressurreição ou o vermelho escuro utilizado na sagração do Rei São Luís fizeram o Arcebispo de Reims declarar em seu sermão dominical: estes vitrais convidam a nos deixarmos levar pelo sonho, melhor ainda, pela oração e pela fé.

A consagração, para Chagall, não foi a grande retrospectiva realizada no Grand Palais de Paris em 1970, à qual raros são os pintores vivos que têm direito, nem a extraordinária exposição Chagall do Museu Guggnhein em 75 que reunia toda a pintura em papel do artista de 1911 a 1970.
Aparentemente, pouco lhe interessa saber que O Violinista Verde, pintado em 1911(Foto ao lado) e atualmente no acervo do Guggenheim, é um dos quadros mais caros do mundo. O dia mais feliz de sua vida, conforme declarou ao critico de arte Jacques Michel, foi 7 de julho de 73, quando, para comemorar seu 86º aniversário, Malraux inaugurou o museu Mensagem Bíblica de Marc Chagall, em Nice, para o qual o artista  pintou 17 quadros, preparou 75 litografias e 105 gravuras, uma tapeçaria e três vitrais que hoje estão expostos no alto das colinas de Nice. Muito mais do que um museu tradicional, Mensagem Bíblica de Marc Chagall é um prédio aberto, onde é fácil circular. Os volumes internos, assimétricos, são suporte perfeito para as pinturas sinuosas e espaciais que ilustram a Bíblia á sua maneira, isto é, ingenuamente. O entrosamento entre a natureza e a arquitetura do Museu, assim como a possibilidade de se contemplar vários quadros ao mesmo tempo, fazem dele um lugar poético.
A Mensagem  Bíblica dividi-se em 12 quadros inspirados do Gênesis Chagall pintou Abraão, Moisés, Jacó e Noé assim como multidões sofredoras. Em o Cântico dos Cânticos dedicado ao Rei David: á mulher a Vitebski é Vence, encontramos suas obras primas em termos de utilização da cor.
Davi e Betsabá,uma litografia que
mostra a sua versatilidade
No salão Nobre do Museu estão os Vitrais nos quais se pode medir a intensidade do azul de Chagall. Por fim, um painel de azulejos pintados, medindo 38 metros quadrados enfeita a fachada interna, separando o museu do jardim interior: ele mostra o profeta Elias carregado da Terra para o céu numa carruagem de fogo, rodeado pelos signos do Zodíaco. O diretor do Museu de Nice e o pintor fazem questão de que A mensagem Bíblica seja vistas pelos visitantes não como uma pintura religiosa mas como um poema. O público vem aqui mas para ver a pintura em si do que para contemplar a ilustração da Bíblia, Chagall sempre disse que há duas fontes importantes na Literatura: o sagrado, com a Bíblia, e o profano com Shakespeare. Seu propósito foi mostrar que um artista precisa dos dois, do sagrado e do profano, para exprimir sua arte.
Nos óleos e guaches expostos em Nice, encontramos o dualismo estranho em que se divide toda a obra, de Chagall: quadros nos quais as cores, as formas e os personagens são raros e outros onde os personagens ingênuos, as figuras primitivas formam multidões.
Assim também nos trabalhos dos anos 20 em Montparnasse Eu e a cidade ou os da fase russa Homenagem a Gogol, nota-se que Chagall não pinta a realidade, ele prefere mostrar-nos sua mitologia pessoal. E á medida que as lembranças da infância foram se tornando longínquas e esquecidas, seus temas se tornaram mais universais. Quando Chagall nos mostra flores, frutas, mulheres, animais, namorados de mãos dadas, ele nos fala de amor, da morte, da espiritualidade e de prazer. Do prazer de pintar.

                    TRABALHOS PARA O SALÃO

O Coordenador do I Salão Universitário Nordestino de Artes Plásticas, professor Ivo Vellame informa que vários artistas já estão enviando seus trabalhos, que serão submetidos a julgamento para premiação. O júri já foi escolhido e será composto pelo professor Clarival Prado Valadares, Juarez Paraíso, Reynivaldo Brito e um representante do Ceará e outro de Recife.
Todos aguardam com expectativa o Salão, tendo em vista que possibilitará um intercâmbio entre os estudantes universitários que gostam das artes visuais. Além de permitir o conhecimento parcial do que vem sendo produzido no setor, nos estados do Norte e Nordeste.
O Salão faz parte do Festival de Arte da Universidade Federal da Bahia e os trabalhos ficarão expostos no Teatro Castro Alves, de 22 de julho a 5 de agosto.